Seguir plano de reconstrução é maior desafio após tragédia, diz especialista no Katrina

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – A tarefa de reconstrução após um desastre como o do Rio Grande do Sul exige planejamento e dinheiro conectados entre si. A receita parece simples, mas Robert Olshansky diz que praticamente não viu um lugar no mundo que tenha conseguido colocá-la em prática efetivamente.

Estudioso do processo de recuperação após desastres naturais, o professor da Universidade de Illinois acompanhou tragédias nos EUA, China, Taiwan, Índia, Indonésia, Nova Zelândia e Haiti. Depois do furacão Katrina, que devastou Nova Orleans em 2005, Olshansky não só analisou em tempo real o plano de reconstrução da região, como também participou dele.

“Se você quer uma lição geral, é que você precisa pagar pelo planejamento do uso do dinheiro para reconstrução. E, depois, as decisões para gastá-lo precisam de fato ser uma consequência desse planejamento”, resume.

Cálculos na época estimaram em US$ 125 bilhões os estragos causados pelas enchentes que arrasaram a cidade no sul dos EUA após o fracasso dos diques de proteção em contê-las. Criticado pela resposta inicial à tragédia, que matou quase 2.000 pessoas, o governo do então presidente George W. Bush tinha urgência em acelerar o processo de reconstrução.

“O governo federal estava realmente pedindo à cidade para ter algum tipo de processo de planejamento, para que se sentissem confortáveis em enviar dinheiro para lá, porque Nova Orleans e a Louisiana [estado onde fica a cidade atingida] têm uma reputação muito forte de corrupção”, diz o professor.

No entanto, o governo não ofereceu nenhum recurso para bancar esse planejamento, e assim o dinheiro acabou vindo da Fundação Rockfeller, o que gerou dois problemas: uma percepção de que o projeto não tinha um caráter oficial, e uma desconexão entre as decisões tomadas e o dinheiro que seria de fato usado para financiá-las.

Assim, enquanto autoridades locais, especialistas, empresários e lideranças comunitárias desenvolviam suas propostas, o Departamento de Habitação, pressionado pelo governo federal para agir rápido, decidiu seguir adiante e colocar boa parte do dinheiro em um programa chamado Road Home, voltado para construção de casas.

O Road Home se tornou alvo de investigações e criticado por reforçar as desigualdades sociais da região –pesquisas apontam que famílias de renda mais alta foram proporcionalmente mais beneficiadas do que as mais pobres.

“Eu conheço as pessoas envolvidas no programa e posso dizer que o erro não foi intencional, mas foi algo muito lamentável que resultou da pressa”, afirma o professor. “Esse é um sintoma desses cenários de compressão de tempo.”

A pressão a que todas as autoridades, desde municipais a federal, são submetidas nesses momentos resulta frequentemente em erros como a reconstrução de casas no lugar errado, desintegradas de onde as pessoas trabalham e estudam, ou em plantas que não fazem sentido com os hábitos da comunidade, diz Olshansky. “As pessoas simplesmente não se mudam para elas.”

Por isso, o especialista defende que a estratégia de reconstrução seja feita de baixo para cima, porque são as comunidades locais –moradores, empresários, prefeituras, agências, organizações não-governamentais etc– quem melhor têm conhecimento para isso.

Assim, embora a dúvida inicial da reconstrução seja começar por habitações ou pela infraestrutura, Olshansky afirma que a prioridade na verdade deve ser a criação de canais de comunicação entre todos os envolvidos. “Botar de pé um sistema rápido e eficiente é crucial, porque isso é o que vai permitir que todo o resto funcione”, recomenda.

No caso do Katrina, a Autoridade de Recuperação da Louisiana exerceu essa função. O organismo foi criado após a tragédia para fazer a interlocução entre o estado e o governo federal. Para montá-lo, foram escolhidos nomes dos dois partidos que dominam a polícia americana —Democrata e Republicano— em números iguais, e que fossem respeitados na região e influentes para além dela.

“Eles faziam recomendações de políticas, audiências públicas, discutiam os problemas como os do Road Home. Por conta deles, surgiu uma organização de fiscalização”, aponta o professor.

Outro modelo é o adotado pelos estados atingidos pelo furacão Sandy, em 2012. Nesse caso, como envolviam diferentes governos estaduais, foi criada uma comissão em que todas as secretarias de todos eles estavam envolvidas. Isso permitiu uma melhor coordenação da reconstrução em toda a região.

“Eu não sei nada sobre o contexto no Brasil, exceto que há uma polarização política nacional entre dois lados diferentes, estou bem ciente disso. Parece-me que, para esta situação, algum tipo de mecanismo de comunicação, seja local, estadual, nacional ou talvez público, seria muito útil”, recomenda.

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