Remake de ‘Paper Mario’ sagra obra-prima, mas segue desprezo ao Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Paper Mario” tem sido um patinho feio às avessas. A série da mascote da Nintendo que seguiu os passos de “Super Mario RPG” e levou o encanador ao gênero de batalhas em turnos, diálogos e missões se sagrou como uma joia do Nintendo 64, mas acabou como um intruso em gerações mais recentes, com rejeição de público e crítica a games como “The Origami King”.

O remédio da desenvolvedora, como tem sido em seus últimos lançamentos para o Switch, foi recorrer a “The Thousand-Year Door”, o segundo e melhor título da série, lançado em 2004 para o GameCube.

Nesse novo envelope em alta definição, o jogo só reforça sua unanimidade como obra-prima de uma geração cujas joias são relembradas com saudosismo. Ainda assim, persiste aqui um defeito das antigas –o remake chega com o habitual preço salgado das novidades, R$ 299, sem conteúdo extra ou tradução para o português para justificar tal investimento.

Não é novidade do discurso contraditório da empresa japonesa, que publiciza o retorno ao Brasil, mas raramente lembra da nossa língua, sobretudo quando o texto é a alma do jogo, como é neste “The Thousand-Year Door”, ou a porta milenar.

À parte o erro local, a versão para Switch honra a tradição entre uma remasterização e um remake, com uma trilha sonora atualizada e mais frenética, visuais límpidos, com efeitos de iluminação e modelos 3D refinados que dão ainda mais charme no contraste com as duas dimensões dos personagens de papel.

Há ainda pequenas adições que podem valer mais para iniciantes, como um novo personagem que ajuda com tutoriais e treinamentos.

Outra modificação notável para o público anglófono é o texto mais similar ao original japonês –alguns trechos puxam mais para o humor oriental absurdo, como quando Mario só consegue matar um dragão ao atacá-lo com o som do coaxar de um sapo.

Já outro trecho reviu o gênero da personagem Vivian, uma fantasminha trans. A revelação –que não é mero “tokenismo”, já que esse detalhe é bem pensado no roteiro, no momento em que ela deixa de ser vilã e se une à trupe de Mario– acabou gerando polêmica entre gamers que dizem ter a infância arruinada. Ora, não é culpa de ninguém que eles continuem sendo crianças. Tampouco foi um sinal de novos tempos: a história já constava da versão japonesa e havia sido deturpada em inglês.

Vivian é uma amostra das figuras complexas que cruzam a jornada de Mario em busca de sete estrelas de cristal que abram a porta milenar do título, numa ilha remota e decadente, para salvar o mundo dos X-Nauts, liderados pelo maléfico Sir Grodus.

Por acaso, a princesa Peach acaba raptada e aprisionada no quartel-general desse exército, onde faz amizade com um computador inteligente, que se apaixona por ela; e Bowser, o habitual vilão tartaruga, acaba indo no encalço da aventura –ambos são um intervalo cômico entre os capítulos principais.

Enquanto isso, Mario navega por cenários diversos –de uma vila de Koopa Troopas (as clássicas tartaruguinhas) a uma masmorra cheia de Boos (os fantasmas) até uma ilha do tesouro e uma arena nos céus onde monstros lutam num campeonato de luta livre sem fim.

Em cada um desses cantos, Mario faz um novo amigo que o acompanhará para atravessar os desafios e lutar a seu lado, como Goombella –uma exploradora capaz de identificar as fraquezas dos inimigos–, Koops –um Koopa inseguro e trapalhão–, o invocado Yoshi Kid ou Admiral Bobbery, uma bomba que já navegou os sete mares e perdeu o amor de sua vida tragicamente.

É uma riqueza que raramente se vê na construção de personagens da franquia, e até espantam pela ousadia que, vira e mexe, cruza a linha do infantil com trocadilhos, piadas maliciosas e sentimentos maduros.

Vale a pena se deter nos textos –além dos diálogos, uma série de emails, cartas, jornais, missões secundárias e histórias que Luigi conta ao jogador– para captar todo o charme em mais de 30 horas de história.

Os trechos de exploração são um brilho à parte graças aos poderes de Mario –que se transforma num avião ou num barquinho de papel, e pode enrolar para atravessar passagens estreitas– e de cada um de seus companheiros, que ajudam a correr, planar, quebrar caixas distantes ou explodir passagens. A adição de um atalho para trocar rapidamente de parceiro, nessa versão para Switch, deixa toda a experiência mais fluída –no GameCube, era preciso pausar o jogo para isso.

Do original, persiste a chatice de ir e voltar por longas distâncias, algo parcialmente resolvido pela adição de uma central de viagens rápidas entre os cenários.

Já as lutas exigem estratégia e habilidade para pressionar botões no momento certo ou mover o analógico de forma inusitada e mantém o jogador atento como em “Super Mario RPG”, mas com mais variedade.

São batalhas no geral mais demoradas, que demandam uma atenção entre os ataques do próprio Mario e do parceiro. Já os inimigos desafiam menos pela força que pelas suas características –monstros voadores só podem ser atingidos com pulos, enquanto outros só levam dano com as marretadas de Mario ou quando sofrem um ataque mágico.

Completa ainda a experiência uma série de insígnias que Mario compra ou coleta ao longo da aventura, e podem ser equipadas num sistema limitado, que tenta balancear esse bônus, que incluem habilidades para recuperar a vida, mais ataque, poderes únicos etc. –há até uma para ouvir a trilha sonora original do GameCube ou vestir Mario com roupas diferentes.

Entre a nostalgia de quem pôde jogar o game há 20 anos e o descobrimento de quem termina “The Thousand-Year Door” pela primeira vez, a Nintendo acerta de novo, mas sem impressionar ou somar em termos de conteúdo.

É habitual bom trabalho de resgatar pérolas do catálogo numa versão definitiva, mas com um olhar ainda restrito para um certo umbigo de consumidores dispostos a abaixar a cabeça para seus caprichos do primeiro mundo.

PAPER MARIO

Preço: R$ 299

Produção: Nintendo e Intelligent Systems

Avaliação: *Bom*

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