Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 12h33m
Vitória News — Um jornal de verdade
Exterior

Reduto de Evo evidencia seu papel-chave para futuro da Bolívia pós-golpe fracassado

FolhaPress 29/06/2024 10:21

EL ALTO, BOLÍVIA (FOLHAPRESS) - A cerca de 40 minutos de La Paz, El Alto é a expressão de um conjunto de dilemas da Bolívia. É uma região altamente informal, que vê o tráfico de drogas derrubar a segurança pública, e é também um dos mais importantes redutos evistas, base de Evo Morales.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Dois dias após uma tentativa frustrada de golpe de Estado no país que esse personagem político governou por três mandatos consecutivos, de 2006 a 2019, é o seu nome o que aparece nas falas da população.

A grande dúvida é se ele concorrerá nas eleições do segundo semestre de 2025. A Justiça diz que não —em teoria só se pode ser presidente do país por dois períodos, seguidos ou não. Evo já alterou a regra em seu terceiro mandato. Ele afirma que concorrerá. "Por bem ou por mal."

A questão-chave é que a disputa entre Evo e seu ex-pupilo, o atual presidente e seu ex-ministro, Luis Arce, tem ajudado a drenar a popularidade do governo que outrora Evo ajudou a levar ao poder. Por isso o sindicalista é visto como elemento definidor do que se passará na Bolívia nas próximas semanas e meses.

Analistas comentam que Evo pode escolher arrefecer sua oposição ao governo do ex-aliado e tornar as coisas mais fáceis. Ou pode —e é alta a aposta nessa opção, dados os seus "genes de enfrentamento", como diz um especialista boliviano— voltar a chamar sua base às ruas para criticar Arce, como já o fez recentemente, com protestos e bloqueios.

SESC PICASSO

Evistas têm capitalizado um período de dificuldades econômicas que vive o país andino. Expressão disso é El Alto, esse município de apenas 36 anos que, com o despejo de verba durante os anos de Evo no poder, tornou-se atrativo econômico e a segunda cidade mais populosa do país, com 1 milhão de pessoas, atrás apenas de Santa Cruz.

Esse reduto de indígenas aimara é baseado no comércio informal, com gigantescas avenidas de vendedores sentados no chão. No bairro 16 de Julio, são as mulheres aimara com suas frutas e verduras às margens das ruas que chamam atenção.

"Agora vendemos bem menos", diz Victoria, 45. Ela aponta para sua caixa de pitaias amarelas. "Antes cada uma saia por 5 bolivianos, agora tenho de cobrar 10. A caixa, que antes comprava por 250 bolivianos dos vendedores que importam, agora me sai por 550 ou 600 bolivianos. E demoramos a vender. Às vezes o produto estraga. Com Evo não era assim."

É um exemplo de um desafio que cresce. Muitos importadores, como os atacadistas que compram frutas no Peru e no Chile, próximos a El Alto, têm dificuldade para comprar dólares, já que a moeda escasseou na Bolívia. No mercado paralelo, pagam muito mais caro. Por isso sobem o preço da revenda de seus produtos para pessoas como a vendedora informal Victoria.

CONTADOR - BONUS

A vendedora de leite e iogurtes Mónica Eliana, 28, faz um relato semelhante. E, quando questionada pela reportagem sobre o que achou da tentativa de golpe, diz que não tem dúvidas de que o próprio presidente Arce o tramou —ele nega essa acusação feita pelo general acusado de comandar a tentativa. "Como um golpe de verdade ia ser dado no meio da tarde? Qualquer militar escolheria a noite para isso, quando não há ninguém."

A alguns quarteirões está o bairro de La Ceja, um dos mais importantes e também perigosos. É onde de madrugada os moradores de La Paz sobem —a diferença de altitude da capital para El Alto é de cerca de 800 metros— para comprar produtos e revender.

Outros dois comerciantes que falam sem querer se identificar dizem que Evo os entende por ser um indígena. O economista Arce, por sua vez, estaria tentando resolver as coisas, mas sem saber pelo que a população passa.

Em consenso, as pesquisas locais de intenção de voto apontam que Evo tem uma base fiel de cerca de 30% dos votantes, mas que é altamente rechaçado, também, por uma parcela de ao menos 50%. Não há um líder claro que faça oposição à esquerda, ainda que o prefeito de Cochabamba, Manfred Reyes Villa, venha ganhando relevância.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Elogiado ex-ministro da Economia de Evo, e justamente por isso escolhido para disputar a Presidência, Arce tem colhido as más consequências do pós-pandemia, da alta dos preços internacionais e da falha do próprio período evista em antever que o gás, o ouro da economia boliviana, começaria a escassear. Evo se descreve como um potencial salvador da economia nacional.

Enquanto isso, os dois personagens-chave da política boliviana trocam farpas. Arce afirmou que a primeira pessoa para quem ligou quando confirmou que uma tentativa de golpe de Estado estava em curso foi Evo.

O ex-presidente confirmou, mas nesta sexta-feira (28) mandou sua indireta. "Eu disse a ele: 'você deu poder demais ao Zúñiga [o chefe do Exército que liderou a tentativa] sem respeitar a institucionalidade."

Também Arce mostrou insatisfação. "A diferença que temos com Evo é que queremos que o instrumento da política pertença às organizações sociais, não a uma pessoa em particular." É uma clara sinalização de sua insatisfação com o populismo evista e a tentativa de seu padrinho político de voltar ao poder, ainda que não o possa.

No final da semana em que esse país andino quase viu os militares tomarem o poder, ainda há muitas perguntas em aberto. Mas uma certeza: a de que Evo Morales, um dos mais relevantes líderes da América Latina, é um elemento-chave para definir os rumos da nação.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas