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Recado para Trump? Dinamarca muda brasão em meio à disputa pela Groenlândia

FolhaPress 10/01/2025 12:18

SÃO PAULO, SP (UOLFOLHAPRESS) - A Dinamarca anunciou um novo brasão de sua Casa Real. A mudança aconteceu depois que o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, passou a fazer declarações públicas de seu interesse em comprar ou anexar militarmente a Groenlândia, território que pertence ao país europeu.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A modificação foi anunciada no dia 1º de janeiro. O monarca -atualmente, o rei Frederik 10º, que assumiu a coroa após a abdicação de sua mãe há um ano- fez seu discurso para abrir um novo ano.

Imagem é uma reafirmação simbólica do domínio dinamarquês sobre a Groenlândia. No brasão anterior, dois escudos eram ocupados pelos três leões coroados; um deles contava com os dois leões do condado da Jutlândia do Sul, uma região histórica para o país; e o urso da Groenlândia e o carneiro que simboliza as Ilhas Faroé, outro território dinamarquês, dividiam espaço com as três coroas da União de Kalmar -o antigo reino unificado de Dinamarca, Suécia e Noruega- em outro escudo bastante apertado.

O novo brasão coloca a Groenlândia e as Ilhas Faroé em destaque. Os leões da Dinamarca e da Jutlândia continuam marcando presença em um escudo cada. Mas as coroas de Kalmar desaparecem, enquanto a Groenlândia ganhou seu próprio escudo com o urso e as Ilhas Faroé ocupam outro inteiramente com seu carneiro.

"É um sinal importante do lado dinamarquês que a Groenlândia e as Ilhas Faroé são parte do reino da Dinamarca e que isso não é discutível. É assim que você marca [este domínio]", disse Lars Hovbakke Sorensen, especialista na Família Real da Dinamarca, em entrevista ao canal TV2.

Rei Frederik 10º assinou resolução real determinando a troca de brasão em 20 de dezembro, segundo anúncio. As mudanças foram feitas poucas semanas após os primeiros avanços de Trump sobre a Groenlândia em novos discursos. No entanto, o presidente eleito já havia manifestado interesse em comprar a ilha em 2019, ainda durante seu primeiro mandato.

SESC PICASSO

Em texto publicado no site da coroa dinamarquesa, o monarca reforçou a importância da Groenlândia para o reino. "As ilhas Faroé e a Groenlândia têm cada uma o seu próprio campo [no novo brasão], o que reforça a proeminência da Commonwealth no brasão real", diz a justificativa, em tradução livre. A Commonwealth do Reino Unido da Dinamarca (Rigsfællesskabet) é uma comunidade de estados unidos sob a mesma coroa em monarquia constitucional, semelhante à da Grã-Bretanha.

Além disso, o símbolo destaca a longa relação histórica da Groenlândia e da Dinamarca. A Casa Real reforça que o urso polar se tornou o brasão da Groenlândia durante o reinado de Frederik 3º, em 1666, antes mesmo de ser reocupada e se tornar uma colônia oficialmente em 1721.

O novo brasão será usado em documentos oficiais, selos e outros elementos cerimoniais, como já acontece desde o século 12. Em seu primeiro discurso, logo após o lançamento do novo símbolo, Frederik afirmou: "Todos nós estamos unidos e cada um comprometidos com o Reino da Dinamarca. Da minoria dinamarquesa do sul de Schleswig -que está até situada fora do reino- até a Dinamarca. Pertencemos uns aos outros", ressaltou em fala reportada pelo jornal britânico The Guardian.

Groenlândia na mira de Trump

CONTADOR - BONUS

Trump já havia manifestado interesse na Groenlândia em seu primeiro mandato. Em dezembro de 2024, já eleito, ele voltou a chamar a anexação de "necessidade absoluta".

Ele fala em compra do território, embora não descarte ações militares. "Não posso garantir [que não haverá coerção militar ou econômica], mas posso dizer isso: precisamos deles para segurança econômica [dos EUA]", afirmou Trump em entrevista coletiva na terça-feira (7).

Donald Trump Jr., filho do mandatário, desembarcou na Groenlândia nesta terça. Na segunda, em uma publicação em sua rede Truth Social, Trump afirmou que o filho iria ao território "com vários representantes" para "visitar algumas das áreas mais magníficas e com as melhores vistas".

"Tenho ouvido que o povo da Groenlândia é 'MAGA' [Make America Great Again, slogan de Trump]. A Groenlândia é um lugar incrível e as pessoas se beneficiarão tremendamente se, e quando, se tornar parte da nossa nação. Nos vamos protegê-la e cuidar dela, de um mundo muito perverso lá fora. Torne a Groenlândia Grande Novamente", disse Trump na rede Truth Social.

Trump Jr. realiza uma espécie de campanha de opinião nas redes durante a visita. Ele postou imagens de um cidadão local usando um boné MAGA e pedindo ao seu pai que compre a Groenlândia para libertá-la do "domínio colonial dinamarquês".

O que diz o governo dinamarquês?

Groenlândia não está à venda, diz a Dinamarca. Apesar de o território ser autônomo, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen chamou a ideia de Trump de anexar a Groenlândia de "absurda". No entanto, seu governo tem preferido observar o xadrez geopolítico no momento, em vez de tomar posições mais firmes em relação aos EUA.

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Já o primeiro-ministro da Groenlândia, Múte Egede, reforçou o desejo de independência da região. Antes da coletiva de Trump na terça, Egede postou no Facebook a seguinte mensagem: "Deixe-me repetir: a Groenlândia pertence ao povo da Groenlândia. Nosso futuro e nossa luta pela independência [da Dinamarca] é problema nosso". Em dezembro de 2024, ele já havia garantido que a Groenlândia nunca estará à venda.

"[Dinamarca e EUA] têm direito às opiniões deles, mas não devemos deixar pressões externas nos distrair de nosso caminho [de independência]", disse Múte Egede, primeiro-ministro da Groenlândia.

A parlamentar Aaja Chemnitz garantiu que, apesar de a população da Groenlândia poder ter algum interesse em Trump, isso não quer dizer que eles queiram ser cidadãos americanos. "A Groenlândia não é MAGA. A Groenlândia não será MAGA. Acho que a maioria na Groenlândia acha assustador, na verdade, e muito desconfortável que haja tanto foco [no território] e que os EUA de uma maneira verdadeiramente desrespeitosa estejam demonstrando que querem comprar ou controlar a Groenlândia, porque não é o que a população quer", garantiu à rede CNN.

A Groenlândia é habitada pelo povo indígena inuit, popularmente conhecidos como esquimós, e possui cerca de 56 mil habitantes. Ela foi colonizada no século 18 pela Noruega e a Dinamarca. Após a Segunda Guerra, a Groenlândia deixou oficialmente de ser uma colônia, conquistando a autonomia em 1979, mas mulheres da ilha foram submetidas a controle obrigatório de natalidade e tiveram filhos raptados e levados para a Dinamarca. Os horrores daquele período são a base do desejo de independência da ilha.

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