Rainha de Nossa Senhora das Mercês, Leda Maria Martins mescla anseios e pesquisa

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Uma rainha anda sobre as pedras de Paraty. Os visitantes podem não ter percebido, porque ela usa trajes civis, mas Leda Maria Martins deve ser a única intelectual brasileira a ostentar uma coroa. Poeta, dramaturga, professora e ensaísta, ela é desde 2005 a rainha de Nossa Senhora das Mercês, no reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá, em Belo Horizonte, trono que herdou da mãe.

“O reinado é muito pouco conhecido no Brasil. É uma manifestação banto que o Brasil ignora. Os bantos têm uma cultura riquíssima e civilizaram o país”, diz ela, que participa neste sábado (24) de um debate da Flip com Christina Sharpe, pesquisadora na Universidade York, no Canadá.

A tradição do reinado parte de uma narrativa mítica sobre Nossa Senhora do Rosário. Um dia, os negros viram a santa vagando nas águas do mar, os brancos pegaram a imagem, colocaram a Virgem numa capela construída pelos pretos -e os proibiram de entrar. Mas, todos os dias, a santa voltava para as águas.

Cansados, os brancos resolveram permitir aos negros rezar para a imagem. A Virgem só teria acompanhado os devotos quando pretos velhos, com pés descalços e roupas simples, tocaram três tambores sagrados. E o reinado, desde então, recria esse mito.

A presença da pesquisadora do reinado não é um hobby ou algo paralelo -pelo contrário, tem tudo a ver com a sua carreira intelectual.

Em obras que se tornaram referência, uma das principais ideias desenvolvidas por Martins é a de que os negros trouxeram ao Brasil uma série de conceitos filosóficos. Mas estes não vieram registrados em livros e textos, mas em cantos, danças, encenações -o corpo em performance, em resumo.

A partir do estudo da linguagem dessas performances, Martins desenvolve -ou traduz- uma série de conceitos. Esse trabalho de décadas a transformou em uma das principais intelectuais negras em atividade no país.

É uma trajetória ainda incomum no Brasil para pessoas com a história dela. Martins nasceu no Rio de Janeiro em 1955, numa família de poucas posses e com forte relação com a música -a mãe, que já trazia de Minas Gerais uma proximidade com o reinado, também viveu o samba.

“Minha família era amiga de grandes compositores. Minha mãe e minha tia foram passistas no Salgueiro. Depois, o Paulo da Portela buscou minha mãe para ser passista lá, e minha tia foi para a Mangueira. Aprendi a história dessa musicalidade com a família”, diz Leda Maria Martins.

Ela mostrou desde cedo uma aptidão incomum para os estudos. Aprendeu a ler sozinha, aos quatro anos, com a família já de volta a Minas Gerais. Vivia agarrada a quadrinhos, livros de ficção científica e enciclopédias que a mãe comprava -ainda jovem, como parte de uma promessa, virou também princesa no reinado.

Desenvolveu ainda nessa época um fascínio raro entre quem faz carreira nas humanidades -a matemática, que ela aponta como uma fonte de encantamento poético. “A matemática me dá um imenso prazer, que é poético, ao decifrar equações. Eu trabalho com o ritmo na minha poesia”, diz ela, que planeja relançar livros de versos esgotados e um inédito no ano que vem. “O ritmo é matemática pura, ele é a ficção da matemática.”

Quase seguiu carreira na área, mas, no fim, parou no curso de letras, se dedicando a uma formação que atava duas pontas –a cultura acadêmica, do livro, e a tradição oral, da música e do reinado. “Dificuldade financeira é uma coisa, mas dificuldade intelectual eu não tinha. As dificuldades eram de outra ordem, como ser a única aluna negra em uma sala”, diz. “Mas eu tinha total confiança em mim intelectualmente.”

No fim dos anos 1970, recebeu uma bolsa de mestrado nos Estados Unidos, onde estudou o teatro de Qorpo Santo. Chegou lá não tanto tempo depois do fim da segregação racial oficializada no país. “Vi situações de racismo iguais às do Brasil, mas de forma muito transparente. Não havia como camuflar, como sempre acontecia aqui”, recorda. “Mas lá eu tive mais colegas negros na universidade. E o racismo era discutido abertamente, pude ler muito sobre o assunto. Havia uma solidariedade entre os negros.”

Foi lá que ela teve contato pela primeira vez com os textos dramáticos do Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento -e, ao voltar ao Brasil, resolveu se dedicar a um doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais, com um período na Universidade de Berkeley, no qual fez uma análise do teatro negro no Brasil e nos Estados Unidos

Logo depois, começou uma carreira como professora que durou décadas, a maior parte na UFMG. A pesquisa de doutorado resultou no livro “A Cena em Sombras”, de 1995, até hoje uma referência. Martins já menciona ali o reinado, um dos repertórios mais ricos da poética negra no país. “Sentia falta de análises que agregassem algo sobre as matrizes africanas nas reflexões sobre o teatro negro. E aí eu proponho a ideia de encruzilhada como chave teórica”, diz.

O livro seguinte, “Afrografias da Memória”, das editoras Mazza Edições e Perpectiva, é um dos mais conhecidos. Foi resultado de uma missão que a professora recebeu de João Lopes, antigo capitão-mor do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá -ao quase morrer, ele pediu a ela que registrasse a história do reinado.

Outro conceito desenvolvido por ela é o de tempo espiralar, que está em seu livro mais recente, “Performances do Tempo Espiralar, Poéticas do Corpo-Tela”, e foi tema de um simpósio internacional em Berkeley há dez anos. O trabalho parte da mesma base de outros, a análise de manifestações culturais de herança africana e da performance.

Mesa na Flip neste sáb. (25), às 19h

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