‘Quintal de Xi’ inspirou líder em plano de China digitalizada, monitorada e com crescimento

FUZHOU, CHINA (FOLHAPRESS) – Lin Hong, 68 anos, ainda se lembra do trabalho que teve para produzir um relatório em 1999 quando estava na direção da Universidade de Huaqiao, na província de Fujian, no sudeste da China. Ele foi um dos responsáveis por um estudo com dados demográficos e econômicos apresentado ao então governador local, Xi Jinping.

“Era um calhamaço de folhas assim”, descreve enquanto demonstra com as mãos um espaço de mais de duas palmas. O retorno foi o pior possível. “Xi Jinping disse: ‘eu quero cada dado acessível num clique de mouse!’ E devolveu os papéis”, recorda.

A resposta, segundo Hong, serviu de gatilho para o governo local implementar um projeto de digitalização em Fujian, onde o atual líder da China esteve por 17 anos e começou sua ascensão no Partido Comunista Chinês até chegar a Pequim.

A digitalização gerou resultados na economia, com desenvolvimento rápido e contínuo, e na segurança, área em que o regime aplicou medidas para monitoramento da população que ajudaram a reduzir crimes.

Pode-se dizer que a China de hoje, que aposta em tecnologia, crescimento econômico com Estado forte e vigilância da população tem muito da era Xi na província de 38 milhões de habitantes, que o líder chama de sua “segunda casa”.

“Foi onde eu passei o melhor tempo da minha vida”, afirmou o homem mais poderoso da China durante uma visita que fez à capital Fuzhou em 2021. Nascido em Pequim, ele foi mandado pelo partido para a província no sudeste chinês quando tinha pouco mais de 30 anos.

Com um diploma de engenharia química da Universidade Tsinghua, a mais prestigiada do país, e filho de um alto membro do Partido Comunista, ele fugiu do que era esperado para alguém com seu perfil. Não teve como destino uma das regiões mais ricas na época. Fujian ainda era pouco desenvolvida e sua economia dependia da produção de chá e da pesca.

“Xi já era um fora de série e se desenvolver numa província que precisava evoluir aumentou sua força como líder”, afirma Hong, que é membro do Partido Comunista desde 1980, quando tinha 24 anos, e foi vice-governador. Atualmente, ele dá aulas na escola do PC.

Longe de Pequim, Xi ascendeu e, após ocupar cargos em cidades menores durante sete anos, chegou ao topo da administração de Fuzhou em 1992. Aos 39 anos, ele chamou atenção da imprensa ocidental e foi perfilado numa reportagem do americano Washington Post.

O jornal destacou o histórico familiar do dirigente local e a relação com o seu pai, Xi Zhongxun, que participou da Revolução Chinesa, foi perseguido por Mao Tse-Tung e depois voltou a ocupar cargos importantes no regime.

O filho que começava a crescer na carreira era definido como um princeling. A palavra em inglês é uma tradução do termo em mandarim tàizi, que significa príncipe ou filho de imperador. “Não vejo como uma tendência os filhos de dirigentes do partido assumirem cargos de liderança”, afirmou Xi ao Washington Post e completou: “Apenas faço o meu trabalho”.

Sua missão era desenvolver uma província que não figurava entre as dez mais ricas do país. Para isso, criou o chamado “Projeto estratégico 3820”, um plano para o crescimento sustentável da cidade e região com metas e etapas definidas para os 3, 8 e 20 anos seguintes ao lançamento.

O primeiro objetivo era conseguir crescimento econômico. A região investiu em infraestrutura e construção civil ao mesmo tempo em que o governo local adotou políticas para facilitar empreendimentos privados nas áreas de tecnologia e energias renováveis.

Nos cerca de dez anos, de 1992 até 2002, em que Xi foi de principal dirigente da capital de Fujian até o cargo mais alto de toda província, a região registrou crescimento acima da média chinesa. Isso quer dizer alta de dois dígitos no Produto Interno Bruto por ano.

Atualmente, a província figura entre as cinco melhores posicionadas no ranking de PIB per capita e conta com indústrias de ponta, principalmente na área de energia renovável. A maior fábrica de bateria para carros elétricos, por exemplo, a CATL, tem sua sede na região.

Não era assim nos anos 1990, quando o governo local buscava investimentos com missões organizadas para empresários locais visitarem outros países. Muito antes de tentar convencer a administração Lula a entrar na Iniciativa Cinturão e Rota, o projeto global chinês de investimento em infraestrutura, Xi já mirava o Brasil.

Levou empreendedores chineses a Fortaleza e Campinas, em 1996, para conversas com o governador do Ceará na época, Tasso Jereissati, e o então prefeito da cidade paulista, José Roberto Magalhães Teixeira.

Foi nessa época que Wang Jing, CEO da Newland, conheceu o atual líder da China. No início dos anos 1990, ela considerou deixar a cidade, pois avaliava que havia muitas dificuldades burocráticas para iniciar um negócio na região. Diz ter mudado de ideia após uma conversa com o dirigente comunista.

“Ele se esforçou para que empresas de alta tecnologia se instalassem aqui”, afirmou em entrevista à CNN. Wang descreveu o interlocutor como um bom ouvinte, que prestava atenção às ideias e incentivava jovens empreendedores.

Assim como no atual regime chinês, que apostou em gigantes como Tencent, BYD e Huawei, a gestão de Fujian na virada do século tinha os seus campeões locais. “Houve um incentivo do governo para quem buscasse a transformação digital”, relata Chen Suo, professor de economia da Escola de Marxismo da Universidade de Fuzhou.

Atualmente, a Newland é uma gigante na área de tecnologia, com atuação em cem países, entre eles o Brasil, e mais de 1.100 funcionários. Produz máquinas de pagamento, scanners e soluções de hardware e software para reconhecimento facial.

Numa visita à sede da empresa, numa região comercial de Fuzhou, é possível visualizar a relação do grupo com o dirigente comunista. Já na entrada do prédio, ao lado de um sofá, uma prateleira está cheia de livros. Todos têm em comum um único autor: Xi Jinping.

No térreo do prédio, há um amplo salão com uma espécie de museu sobre a trajetória da Newland. Na entrada, uma parede está repleta de certificados de propriedade intelectual enquadrados.

Do outro lado, um painel com uma linha do tempo lista em pontos os feitos do grupo, como abertura de capital na bolsa, recordes e lançamentos de produtos. Três datas aparecem marcadas com uma estrela vermelha. Elas indicam as visitas do atual líder da China, em 1998, 2001 e 2014, à sede da empresa.

A Newland é uma das líderes no país na área de soluções para reconhecimento facial. Numa sala fechada próxima do museu, um guia da empresa mostra uma tela que ocupa quase toda a parede. Nela, imagens captadas ali mesmo são expostas, com os rostos dos presentes marcados com quadrados coloridos.

O funcionário explica que a tecnologia de reconhecimento facial é utilizada pelo regime e está integrada ao sistema de identidade digital, com dados de todos os moradores da região. O sistema executa análises das feições através de inteligência artificial. Cores e classificações como triste, bravo, sério e feliz tentam indicar os sentimentos nos rostos.

Sistemas como esse estão espalhados por cidades de todo o país, que conta com ampla rede de câmeras de segurança instaladas.

Sob Xi, Pequim aumentou a vigilância sobre a população com a justificativa de cuidar da segurança. Como afirmou em uma das suas visitas ao seu “segundo lar”, o líder comunista replicou experiências suas na província em todo país. “Ideias e projetos daqui foram colocados em prática em uma escala maior em toda China.”

Compartilhe:

Últimas Notícias
Editorias

Assine nossa Newsletter

Purus ut praesent facilisi dictumst sollicitudin cubilia ridiculus.