Religioso comandou o país por mais de três décadas e marcou política interna e externa com postura de confronto; fonte: Al Jazeera
O aiatolá Ali Khamenei, morto aos 86 anos em um ataque atribuído a Estados Unidos e Israel, foi o principal dirigente político e religioso do Irã desde 1989. A trajetória e o papel desempenhado por ele ao longo de mais de três décadas foram detalhados em análise publicada pela rede internacional Al Jazeera.
Khamenei assumiu o posto de líder supremo após a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, figura central da Revolução Islâmica de 1979, que encerrou o regime da monarquia Pahlavi. Se Khomeini foi o principal ideólogo da revolução, coube a Khamenei consolidar o aparato político, militar e de segurança que passou a sustentar a República Islâmica.
Antes de se tornar líder supremo, Khamenei exerceu a Presidência do Irã durante a guerra contra o Iraque, na década de 1980. O conflito, que deixou centenas de milhares de mortos e devastou a economia, reforçou em sua visão a necessidade de manter o país em permanente estado de alerta contra ameaças externas.
Segundo analistas ouvidos pela Al Jazeera, a experiência da guerra moldou a leitura estratégica de Khamenei, marcada por desconfiança em relação ao Ocidente, especialmente aos Estados Unidos, e pela defesa de uma estrutura estatal fortemente voltada à segurança.
Estrutura de poder e “economia de resistência”
Sob sua liderança, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) ampliou significativamente sua influência. O grupo deixou de ser apenas uma força paramilitar e passou a atuar também como ator político e econômico relevante, com presença em setores estratégicos da economia iraniana.
Khamenei incentivou ainda o conceito de “economia de resistência”, estratégia voltada à redução da dependência externa diante das sanções impostas por países ocidentais. Ao mesmo tempo, manteve postura cautelosa e frequentemente crítica quanto à aproximação com o Ocidente.
Apesar disso, autorizou negociações que resultaram no acordo nuclear de 2015, conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), firmado entre o Irã e potências mundiais. O pacto previa limitações ao programa nuclear iraniano em troca de alívio nas sanções. O acordo, porém, foi abandonado pelos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, o que levou Teerã a retomar gradualmente atividades de enriquecimento de urânio.
Protestos e repressão
O governo de Khamenei enfrentou momentos de forte contestação interna. Em 2009, manifestações contra o resultado das eleições presidenciais foram reprimidas com uso da força. Em 2019, protestos relacionados ao aumento do preço dos combustíveis resultaram em confrontos e mortes.
Outro episódio de grande repercussão ocorreu em 2022, após a morte de Mahsa Amini sob custódia policial. As manifestações que se seguiram se espalharam pelo país e foram duramente reprimidas, segundo organizações de direitos humanos citadas pela Al Jazeera.
Eixo regional e confrontos externos
Na política externa, Khamenei apoiou a formação do chamado “eixo da resistência”, rede de alianças com grupos e governos na região, incluindo o Hezbollah no Líbano, o governo de Bashar al-Assad na Síria e movimentos armados em outros países do Oriente Médio. O general Qassem Soleimani, morto em 2020 em operação dos Estados Unidos, foi um dos principais articuladores dessa estratégia.
Nos últimos anos, o aumento das tensões com Israel e com os Estados Unidos culminou em confrontos diretos e ataques a instalações militares e nucleares iranianas. O episódio que resultou na morte de Khamenei ocorreu em meio a essa escalada.
Legado e cenário pós-Khamenei
Para analistas citados pela Al Jazeera, o legado de Khamenei combina consolidação institucional da República Islâmica, fortalecimento do aparato de segurança e uma política externa baseada na dissuasão e no enfrentamento.
Ao mesmo tempo, críticos apontam que o modelo adotado contribuiu para o isolamento internacional e para o agravamento das dificuldades econômicas internas, intensificadas por sanções e instabilidade cambial.
Com a morte do líder supremo, o Irã entra em processo de transição previsto em sua estrutura constitucional, cabendo à Assembleia dos Especialistas a escolha do novo dirigente máximo do país.