Quanto mais distante o personagem for de seu autor, melhor, diz Muriel Barbery

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A escritora Muriel Barbery é francesa e não tem filhos. Haru, protagonista de seu romance mais recente, é um pai japonês enraizado em Kyoto, onde a autora passou dois anos há mais de uma década.

A separação flagrante entre autora e personagem não é problema para Barbery, mesmo em tempos de tanta literatura fincada na própria identidade. Muito pelo contrário.

“Quanto mais distantes os personagens estiverem de você, melhor”, diz ela, suave como uma pluma, durante entrevista por vídeo numa manhã de quarta. “Escrever assim é perseguir uma compreensão do que é o outro. É isso que quero fazer quando leio, ser outra pessoa, entrar em outras peles.”

A francesa de 55 anos pondera que tomou cuidado para fugir de exotismos baratos sobre o Japão e ficou apreensiva com a recepção de seus amigos nipônicos à maneira como sua cultura é retratada no novo livro.

“Mas não acho que escrever um romance demanda expertise. Não mesmo”, diz ela, trajando uma blusa laranja leve, óculos redondos e um sorriso gentil. “Pede, sim, autenticidade, mas não tem nada a ver com experiência.”

“Eu gosto muito de ler autoficção, mas quando você escreve ficção, qualquer coisa é possível, e essa é a beleza da coisa. E mais, nós precisamos disso. Se não, como podemos nos identificar com os outros? Na vida real, eu não posso me tornar você. Mas a literatura nos permite extrapolar as nossas próprias fronteiras.”

A escritora vai extrapolar alguns limites geográficos na próxima semana, quando sai de seu vilarejo escondido na França rural para vir ao Brasil fazer duas palestras no ciclo Fronteiras do Pensamento, em São Paulo na segunda-feira e em Porto Alegre na quarta –mantida mesmo com os desastres que se abateram sobre o Rio Grande do Sul.

As conferências servirão para divulgar o lançamento de “Uma Hora de Fervor”, segunda parte de um díptico que começou com “Uma Rosa Só”, publicado aqui há dois anos.

Aquele livro contava a história de Rose, jovem francesa que viajava a Kyoto para abrir o testamento de um pai que nunca conheceu –e a nova obra é centrada nele, um homem desgarrado de tudo que se vê num turbilhão de emoções ao descobrir que tem uma filha e ser impedido de conhecê-la.

Barbery não fazia ideia de que queria tanto explorar o outro lado da história, mas se percebeu despreparada para abandonar os personagens do romance anterior. Não foi a primeira vez que algo assim aconteceu, diz a autora, numa carreira que foi coroada por “A Elegância do Ouriço”, um dos maiores e mais inusitados best-sellers da história da França.

À época de seu lançamento, em 2006, o romance que intercalava a história de uma zeladora pobre que amava livros e de uma menina superdotada com planos de suicídio acabou se tornando o maior sucesso da renomada editora Gallimard.

Hoje se estima que tenha vendido mais de 12 milhões de exemplares pelo mundo, uma receita que ainda dá nó na cabeça de quem acha que ficções densas, carregadas de filosofia –área de formação original de Barbery–, estão fadadas a encalhar.

É nesse aspecto metafísico que surge o Japão, que já aparecia como um interesse lateral em “A Elegância do Ouriço”. Barbery diz sempre ter admirado a cultura do país por sua beleza estética –“muito discreta, irregular, mas você tem a sensação de ver algo perfeito”– e por sua perspectiva sobre a morte.

“Acredito muito que vivemos na presença de nossos mortos, e lá sentia isso de forma muito vívida”, afirma a escritora, que gostava de passear pelos cemitérios durante a temporada em que morou no Japão com o ex-marido, também francês.

“A relação dos japoneses com os mortos é muito diferente, é como se continuassem vivos, enquanto na França eles simplesmente se foram. É uma relação espiritual que não entendo muito, mas consigo sentir.”

É uma boa demonstração do talento que a capacita como artista. “Sabe, romancistas são mentirosos”, afirma, divertida. “Nós concluímos ou inferimos coisas a partir de muito pouca experiência. É esse o trabalho dos escritores: ter intuições a partir de fragmentos da realidade.”

UMA HORA DE FERVOR

Preço: R$ 64,90 (224 págs.); R$ 39,90 (ebook)

Autoria: Muriel Barbery

Editora: Companhia das Letras

Tradução: Rosa Freire d’Aguiar

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO – 18ª TEMPORADA

Quando: Até 30 de outubro

Onde saber mais: fronteiras.com

Promoção: Assinante Folha de S.Paulo tem 45% de desconto

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