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Preocupado com cenário eleitoral, Lula antagonizou com Trump na ONU, avaliam especialistas

Estadão Conteúdo 22/09/2026 18:39

Em seu discurso na 81ª Assembleia-Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou antagonizar com o presidente norte-americano Donald Trump em um discurso no qual combinou ideias tradicionais da diplomacia brasileira com o contexto eleitoral que se aproxima em virtude das eleições de 4 de outubro. A fala de Lula abriu o debate pela manhã e foi seguida pelo discurso de Trump.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Para especialistas ouvidos pelo Estadão, Lula tentou se colocar do lado oposto dos EUA em relação à sua política externa e na forma como países têm se posicionado diante de conflitos e crises globais. Além disso, dizem eles, a menção das eleições no discurso mostra uma preocupação com o cenário do próximo mês.

Na última pesquisa Quaest, divulgada nesta segunda-feira, 21, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados, com 42% para o petista e 41% para o candidato do PL.

Com isso, Lula apelou para um cenário pouco usual para trazer suas propostas de campanha, como o fim da escala 6x1 e uma retórica que procurou opor democracia ao negacionismo.

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"Não se previa uma menção tão clara ao processo eleitoral, ou até mesmo ao adversário, ainda que não nominalmente. Do ponto de vista político, o presidente sabe que a tribuna da ONU é um instrumento de contato direto com os eleitores. Abordar o tema eleitoral e o adversário de forma explícita não é costume do próprio presidente em seus discursos na ONU. Por isso, essa menção revela a ânsia, até mesmo uma desesperança eleitoral, de deixar uma mensagem clara ao eleitor em uma plataforma pouco usual para isso", afirmou Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, ao Estadão.

Em um primeiro momento, Lula endereçou a mensagem ao secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmando que a organização passa por seu momento mais crítico para, em seguida, criticar o Conselho de Segurança pela falta de ação efetiva nos conflitos ao redor do mundo. Ao citar essas guerras e conflitos, Lula afirmou que "as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites".

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Sem citar o presidente americano pelo nome, Lula afirmou que estamos em um momento em que devemos optar por "soberania ou subordinação". A fala, assim como outras passagens de seu discurso, teria sido diretamente voltada para Trump, de acordo com especialistas. Além da postura americana em conflitos no Oriente Médio, por exemplo, o presidente brasileiro também incluiu críticas à forma como os EUA estão buscando uma maior interferência nos processos democráticos da América Latina.

"É um discurso cuidadosamente desenhado para posicionar o Brasil como antagônico aos EUA, mais especificamente a Donald Trump. A fala de Lula mapeia praticamente todos os conflitos com envolvimento americano. Brasília, conforme o Presidente Lula expressa, não se alinha à Casa Branca em nenhum deles", acrescentou Martins.

Para Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Unifesp, a mensagem sobre a política externa brasileira manteve o mesmo tom dos discursos anteriores de Lula na ONU, acrescentando o tema da segurança, em um momento em que os EUA pressionam países latino-americanos a combater grupos narcoterroristas e tentam, muitas vezes, tomar à frente em operações de apreensão.

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"Foi um discurso bastante sereno, mas afirmativo, no sentido de manter as linhas clássicas tradicionais da diplomacia brasileira, de defesa do multilateralismo, dos direitos humanos, mas, ainda assim, não deixar em aberto críticas, tanto às Nações Unidas e a sua necessidade de um posicionamento mais forte", apontou Cristina. "Do ponto de vista da pauta internacional, houve uma questão bastante relevante também sobre a soberania brasileira, sobre o hemisfério americano e a forma com a qual é preciso lidar com os desafios de segurança país a país, mas também em cooperação, sem a necessidade de imposição".

Vinicius Vieira, professor de relações internacionais da FGV, apontou que a fala de Lula ocorreu dentro do esperado. "Podemos salientar o paralelo que ele fez ali entre multilateralismo, democracia e soberania, associando os três elementos - uma espécie de doutrina que informalmente tem guiado o terceiro mandato do presidente e que deve guiar também o quarto mandato, se ele for bem-sucedido na reeleição", apontou.

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