Plano de modernizar Brasil foi interrompido pelo PT e abandonado por tucanos, diz Elena Landau

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Segundo o economista Edmar Bacha, quando se fala em elaboração do Plano Real, a mãe deveria ter sido Elena Landau. Fazia parte do grupo de economistas que estudou a inflação na PUC-Rio e aderiu ao PSDB. Foi convidada para fazer parte do governo, mas declinou.

“Quando Fernando Henrique foi para a Fazenda e chamou as pessoas, eu tinha um filho de nove anos. Não podia ir para Brasília”, confirmou Landau à reportagem. Mais tarde, assumiu como diretora do Programa de Desestatização do BNDES, que tem sede no Rio de Janeiro, sua principal residência até hoje.

Na avaliação de Landau, a ambição era que o Plano Real fosse além da estabilização monetária.

“Temos que lembrar que o Real propiciou um momento muito importante. Como ministro e depois como presidente, Fernando Henrique ganhou legitimidade para fazer uma mudança de modelo econômico. Acho que esse foi o salto. O Plano Real era um projeto de país —aberto, moderno, inclusivo.”

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PERGUNTA – Na sua avaliação, qual foi a conjunção de fatores que levou o Plano Real ao sucesso?

ELENA LANDA – São muitos, mas a essência do Plano Real —e eu sou suspeita para falar— é o Departamento de Economia da PUC [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro], onde se juntaram pessoas cuja grande preocupação, basicamente, era o processo hiperinflacionário e a crise internacional, a dívida externa.

Eu entrei na PUC em 1976, o departamento muda em 1977, 1978. Era um debate muito efervescente sobre qual era a peculiaridade da inflação no Brasil —sobre a questão inercial, a indexação. No início dos anos de 1980, vem o Larida [plano de estabilização monetária concebido por Pérsio Arida e André Lara Resende]. Pérsio vinha com um tipo de ideia, o André com uma outra. Tinha o Chico Lopes, o Edmar Bacha. Quer dizer, havia um grupo com uma discussão consistente sobre causas, combate, o que tinha dado errado. Foram muitas teses e estudos. Quando veio a oportunidade, o grupo estava maduro e com um espírito público extraordinário. Largou o que estava fazendo e foi para o tudo ou nada.

Mas tem uma outra razão, mais social. Ninguém aguentava mais a hiperinflação. Foi surpreendente a aceitação da URV [Unidade Real de Valor, moeda escritural do plano]. A sensação de ter uma moeda que dá poder de compra ao longo do tempo tem um efeito muito forte: você não precisa sair correndo para o supermercado, o salário não acaba no primeiro dia, o tomate na feira hoje vale a mesma URV, apesar do cruzeiro real ter disparado.

O reconhecimento de ganho de qualidade de vida se mantém até hoje. Há uma intolerância com a volta da inflação. Pode nâo ter problema no emprego, mas se tiver inflação, as pessoas reclamam mais.

P – Mas a sra. acredita que os mais jovens têm consciência do ganho que o país teve com o fim da hiperinflação?

EL – Não. Quando eu dava aula, tinha até explicar o que era inflação. Usava o preço do biscoito Globo. Durante anos não mudou. Eu explicava que antes, cada dia, no sinal, o preço subia.

Mas acho que não apenas os mais jovens, mas muita gente não tem consciência do que o Brasil era. Tem gente que quer a ditadura de volta. Tem gente que acha que um pouquinho de inflação não tem problema, que tem de baixar mesmo os juros, em qualquer momento. As pessoas não sabem o que o país atravessou para chegar a essa estabilidade, seja democrática, institucional ou econômica.

Mas estou muito surpresa que a celebração dos 30 anos do Real é muito mais intensa do que a dos 20 ou dos 10 anos. Tem uma simbologia muito forte. Primeiro, retomar memória. São seminários atrás de seminários, depoimentos. Vejo como a consolidação da importância da estabilidade da moeda. Então, isso pode resgatar um pouco dessa história e levar a sua valorização.

Agora, os desafios são outros: crescimento, produtividade, inclusão social, ambiental.

P – E como estamos nesses desafios?

EL – O Plano Real, em primeiro lugar, teve um impacto social muito grande. Manteve o poder de compra. Depois veio o Bolsa Família —mas sem a estabilidade do Plano Real, o Bolsa Família não faria transferência de renda. Então, você tem um ganho com indicadores de redução da pobreza. Agora, nesse final de 30 anos, há uma discussão sobre o topo da pirâmide. Então, você continua com o problema de desigualdade muito profundo no Brasil.

As pessoas acham que o Plano Real foi só a mágica da URV, mas teve um entorno muito grande. Mudanças fortíssimas na área fiscal, na relação do Banco Central com com Tesouro Nacional. Houve toda uma reorganização de contas públicas, privatizações, quebra de monopólios, entrada de estrangeiros, emendas constitucionais, que deram um pulo de modernização no Estado brasileiro.

Mas depois muda. Volta a ter uma intervenção do Estado muito grande, e principalmente fechamento da economia e excesso de subsídios. Perdura o eterno problema de déficit educacional. Enquanto não resolver a educação no Brasil, não tem jeito. Já melhorou muito, com aumento no números de matrículas e universalização, mas continuamos a ter índices de capacitação muito baixos.

Todo mundo fala “vamos crescer”, mas como vamos crescer ainda é um grande desafio.

A equipe econômica do governo Temer tentou recuperar alguns princípios, mas não tinha todo o apoio político. Aí vem um governo Bolsonaro que não liga para edução e não dá a mínima para a produtividade, nem abriu a economia. Era só discurso liberal da boca para fora. E volta Lula: subsídio, conteúdo nacional, e nenhuma clareza na agenda ambiental.

P – O combo Real foi interrompido, então?

EL – Antonio Palocci deu uma continuidade inicialmente, mas depois acabou.

Temos que lembrar que o Real propiciou um momento muito importante. Como ministro e depois como presidente, Fernando Henrique ganhou legitimidade para fazer uma mudança de modelo econômico. Acho que esse foi o salto. O Plano Real era um projeto de país —aberto, moderno, inclusivo.

O real também era uma marca do PSDB. Vários economistas eram tucanos, filiados. Eu, Bacha, Gustavo Franco. O Pérsio era simpatizante. Como foi por Medida Provisória, claro que o real não passaria sem o apoio do Congresso, à exceção daquele partido que apostou no cavalo errado, por falta de conhecimento econômico, que foi o PT.

Mas o PSDB deu um tiro no pé. As campanhas do PSDB pós-Real falavam muito pouco do Real. Teve o Geraldo Alckmin com a jaqueta das estatais. O José Serra não mencionou o Fernando Henrique em 2010. O resgate da agenda só veio em 2014, na campanha do Aécio Neves, por causa da assessoria do Armínio Fraga. Em 2018, o Pérsio também tentou o resgate para o Alckmin.

Eu não sei o que houve com o PSDB que não soube explorar essa grande herança. E quando ele sai da arena política, abre espaço para aventuras, como a do Bolsonaro. Por isso que eu estou dizendo que as celebrações anteriores foram muito menores que a dos 30 anos. Eu acredito que as pessoas sentiram essa perda: qual é o projeto de país que a gente tem agora? O que a gente vai fazer?

P – O projeto incluía privatizações, que até hoje sofrem resistência. Por que isso?

EL – Acho que a gente tem uma questão cultural. O Estado é patrimonialista. Muitas pessoas dependem do Estado. Até hoje tem uma indústria dependente de subsídios e proteção. É a coisa, assim, do Estado provedor. Do período Vargas até os anos de 1980, tivemos grandes investimentos estatais que deu a sensação de que o Estado podia tudo. As pessoas começaram a cair na real na crise dos anos de 1980.

Mas teve uma também parte de culpa nossa. Faltou explicar melhor os benefícios da reforma do Estado e das privatização. E os benefícios são tão claros. Basta comparar o que aconteceu com telecomunicação e distribuição de energia, que foram privatizadas lá atrás, com saneamento, em sua maioria ainda estatal. Todo mundo tem um celular e 99% dos lares têm luz, quanto falta saneamento para milhões de brasileiros —os mais pobres.

Outro benefício da privatização é que quando passa para iniciativa privada, as pessoas começam a cobrar. A gente não vê mobilização contra prefeitura por falta de esgoto. Falta banheiro em escola pública e ninguém mais reclama. Como se fosse natural esse tipo de coisa. Mas é uma grita geral se falta luz. Olha o que aconteceu em São Paulo. Falta de luz afeta os ricos, né? Como cobrança chama a atenção, alguns ainda usam contra. Dizem que o serviço ficou pior porque privatizou, mas a questão é que a cobrança aumentou após a privatização.

Recentemente, privatizar ganhou mais apoio, mas pelos motivos errados. A Lava Jato mostrou os problemas da Petrobras, e as estatais ficaram associadas à corrupção. Ocorre que nem toda estatal é elefante branco, assim como nem todo funcionário público é parasita, como passaram a dizer no governo Bolsonaro. A discussão segue comprometida por ideologias.

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RAIO X

Elena Landau, 66

Nascida no Rio de Janeiro, é advogada e economista, com mestrado em economia pela PUC-RJ, da qual foi professora no Departamento de Economia. Atuou no conselho de administração de várias empresas, entre elas Vale, Cemig, AES e Eletrobras, cujo conselho também presidiu. Foi diretora de Desestatização no BNDES no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Sócia no escritório Sergio Bermudes, também lecionou na Faculdade de Direito da FGV-RJ. Na vida política, foi assessora econômica da presidência do PSDB durante a gestão de Tasso Jereissati e atuou como coordenadora do programa econômico de Simone Tebet (MDB) na campanha presidencial de 2022. É colunista do jornal O Estado de S. Paulo

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