Pessoas resistem a deixar casas durante chuvas no RS e prejudicam trabalho de resgate

SÃO LEOPOLDO, RS (FOLHAPRESS) – Diversas pessoas que moram em cidades atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul resistem em sair de casa.

Moradores preferem permanecer em seus apartamentos, sem água nem luz e com a inundação até o segundo andar dos prédios, em vez de ir para abrigos ou para residência de algum parente ou amigo.

Bombeiros, militares e voluntários tentam convencê-las, fazem apelos sobre a previsão do tempo dos próximos dias e a dificuldade de eventualmente fazer o resgate na chuva, mas em muitos casos não têm sucesso. A reportagem conversou com voluntários e com as pessoas que se recusam a sair de casa.

A resistência tem prejudicado o trabalho dos envolvidos nos resgates, que deixam de atuar em outras áreas na tentativa de retirar pessoas de áreas alagadas.

As enchentes no Rio Grande do Sul já mataram ao menos 100 pessoas, segundo a Defesa Civil do estado.

O número de mortos pode aumentar ainda mais nos próximos dias, pois há um total de 128 desaparecidos, além de 372 feridos. Também há quatro óbitos em investigação.

O prefeito Ary Vanazzi, de São Leopoldo, cidade de 240 mil habitantes na região metropolitana de Porto Alegre que tem hoje 180 mil pessoas desalojadas e 40 mil casas debaixo d’água, afirma que a demora das pessoas em sair de casa dificultou o trabalho para salvar vidas em meio à tragédia.

Ele diz que, dias antes do pico das chuvas, fez um amplo trabalho para avisar as pessoas sobre o dilúvio que estava chegando na tentativa de que alguns bairros fossem evacuados, mas que o esforço surtiu pouco efeito.

“Fizemos todos os alertas possíveis, mas a gente andava nos bairros e as pessoas estavam sentadas na calçada, olhando a água subindo e não acreditavam muito que a tragédia ocorreria, porque nunca viram nada parecido”, relata.

E prossegue: “Isso atrapalhou muito, fez pessoas perderem muita coisa, correrem muito risco. Não sei qual número exato de pessoas que não conseguimos tirar, que podemos ter perdido. Na hora que a água baixar, vamos ver. Estamos muito preocupados”.

Em São Leopoldo, a água está em nível alto no centro da cidade, mas muita gente segue em seus apartamentos. O voluntário Guilherme Veit, que é empresário e mora na área central do município, afirma que conseguiu convencer alguns vizinhos a deixarem o prédio, mas que muitos outros seguem em casa e que seus apelos não surtiram efeito.

A queixa dele é que, caso a previsão se confirme e caia mais chuva nos próximos dias, as pessoas podem ficar sem comida e, depois, o resgate será mais difícil.

O jornalista Matheus Beck também trabalha como voluntário nos resgates. Nesta quarta-feira (8), encontrou o empresário Vardilei Moura, seu amigo, com um grupo de vizinhos no prédio que está com o térreo alagado e os alertou.

“Hoje tem um monte de barco na água, está quente e máxima de 30°C. Amanhã a mínima é 11°C e pode estar chovendo. Ou seja, vai ter menos barco de resgate, muito provavelmente com chuva. Quem tiver onde ficar eu estou indicando que saia”, afirmou.

O apelo fez efeito, ao menos em parte: a vizinhança decidiu retirar todas as crianças e mulheres do prédio, mas os homens permaneceram.

Moura afirma que o edifício tem segurança, mas diz que as enchentes levam a outros problemas, como o acúmulo de lixo. “Estamos sem água e sem luz, mas o prédio é alto. A prefeitura tem que estudar um trabalho para tirar o lixo daqui e levar para um lugar seco”. Ele diz que, caso a chuva permaneça, irá sair do local.

A previsão é que a chuva siga caindo. Em Porto Alegre, nesta quarta, os resgates foram suspensos devido ao clima. De acordo com a prefeitura, há possibilidade de precipitação de até 15 milímetros e ventania de até 80 km/h, o que aumentam o risco de descargas elétricas.

Por isso, a movimentação de barcos com equipes de resgate nas áreas alagadas teve que ser suspenso.

A psicóloga familiar Luciene Santiago afirma que a casa tem um significado simbólico muito forte, o que torna mais difícil a decisão das pessoas de deixar o local.

“É nosso abrigo físico, representa estabilidade, sensação de pertencimento. Quantas memórias não têm numa casa? Ela é a família, representa a família”, diz.

Ela afirma que as pessoas hesitam em deixar o lar por negação ou por esperança de que a tragédia não se concretize.

“É difícil acreditar no tamanho da tragédia que está acontecendo, imagina para quem está lá, sempre morou lá e nunca viu isso? Muitas vezes as pessoas têm uma ligação muito forte com o local em que moram, pode ter sido a casa de muitas gerações. A ideia de abandonar pode ameaçar até a identidade da pessoa, a continuidade da história dela”, afirma.

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