Violência contra a mulher: entenda o perfil preferido dos abusadores

    É raro encontrar uma mulher que sofreu algum tipo de violência (psicológica, sexual, patrimonial, etc) que não tenha sentido VERGONHA ou CULPA por ter vivenciado isso. Ainda mais raro uma mulher que tenha passado por isso e não tenha sentido medo de contar o que aconteceu e as pessoas não acreditarem na sua “inocência”.

    Infelizmente isso é algo muito mais comum do que eu gostaria de assumir… o padrão é muito parecido e quando vamos investigar o passado dessa mulher normalmente encontramos mais situações abusivas que aconteceram de maneira sutil (ou não) e que ela se sentiu da mesma maneira: confusa, com vergonha e se sentindo culpada.

    Muitas pessoas me perguntam: Vanessa, existe algum perfil de mulher que os abusadores tendem a preferir com mais frequência? Sim… existe. Mas isso é algo que normalmente as pessoas comuns não sabem ou não percebem: são mulheres que lá na infância se sentiram culpadas por alguma situação traumática que vivenciaram (abuso, brincadeiras sexuais, violência doméstica, entre outras) e passaram a ter a necessidade inconsciente de justificar e provar para as pessoas que aquilo que aconteceu não foi culpa delas.

    Esse tipo de experiência causa nessas mulheres uma tendência a duvidar da própria sanidade mental e de não acreditar na sua própria percepção dos fatos, porque em muitos casos essa situação traumática de abuso (mesmo que sutil) aconteceu com pessoas do seu convívio, pessoas de confiança e que deveriam proteger e não abusar. Pessoas que falaram pra ela que ninguém ia acreditar se ela contasse e ela carregasse esse medo durante a vida toda.

    E por que esse tipo de perfil de mulher acaba sendo o preferido de abusadores? Porque eles conseguem perceber essa tendência que ela tem de sentir vergonha, culpa e medo de (mais uma vez) as pessoas não acreditarem na sua inocência. E eles se aproveitam disso para encontrar sua vítima e garantir que ela mesma vai ter necessidade de esconder o que aconteceu (por medo, vergonha e culpa), fazendo com que ele saia ileso da violência que ele cometeu com ela.

    Até porque a sociedade atual doente não entende nada sobre sexualidade e violência e julga tudo e todos de acordo com referências totalmente distorcidas e doentias. Uma mãe que vira para uma filha e briga com ela porque não acredita que o pai, o pastor, o padre ou a vovó abusou dela é tão abusadora (ou mais) do que quem a violou. Uma enfermeira que julga e oprime com suas opiniões doentias é tão violenta quanto o estuprador.

    A opinião pública infelizmente ainda tem muito peso para a tomada de decisão, especialmente para mulheres com esse perfil que descrevi aqui que querem garantir que serão vistas como inocentes (e que realmente são).

    Essa necessidade de provar a inocência é inconsciente e muitas vezes leva as pessoas a fazerem escolhas inconscientes ruins que as levam para repetição do mesmo trauma que viveu na infância. As pessoas nem se dão conta de que estão buscando isso, sem a ajuda de uma pessoa especializada para ajudar elas a enxergarem. E por isso eu resolvi escrever esse texto, para esclarecer e trazer um pouco de reflexão para quem pode ter esse mesmo perfil mais “atrativo” para abusadores.

    1. Quando um problema acontece na sua vida você tende a procurar o culpado por aquela situação ter acontecido ao invés de resolver de imediato?
    2. Quando algo de ruim acontece com você, você sente necessidade de se explicar para as pessoas que você ama, justificando que a culpa não foi sua?
    3. Você já percebeu pessoas invadindo seu espaço íntimo (toques perto de áreas sexuais) e que pareceram tão sem querer que ficou na dúvida se era um abuso ou não?
    4. Você já foi abusada sexualmente na infância e ficou com medo de contar pra alguém e ninguém acreditar em você?
    5. Você já teve que cuidar de outra criança no passado e algo de ruim aconteceu com essa criança a ponto de você se sentir culpada pelo que aconteceu?
    6. Alguma figura religiosa fez brincadeiras e toques abusivos em você e que você achou que pudesse ser normal por ser uma pessoa “de Deus”?
    7. Você já sentiu culpa por sentir prazer sexual, mesmo que seja em uma relação adulta e consentida?
    8. Você já duvidou se aquilo que você viu ou não era coisa da sua cabeça e precisou da opinião externa para validar o que “realmente” aconteceu?

    Se você respondeu SIM a pelo menos uma das perguntas você tem sérias chances de ser uma mulher com perfil “atrativo” para abusadores.

    Pare e reflita: Como você se sentiria se você fosse considerada CULPADA pelas pessoas que estão ao seu redor? Como você se sentiria se ninguém mais acreditasse na sua inocência?

    O convite que faço para você nesse momento é de você acreditar em você e você parar com essa necessidade de provar sua inocência a qualquer custo. Pare de querer explicar e justificar que a culpa não foi sua. Eu acredito em você, mas a minha opinião não vale de nada para você.

    Se ninguém mais acreditar em você, você vai acreditar e isso precisa bastar.

    Você precisa parar de confiar mais na percepção externa do que na sua própria percepção. Você precisa confiar em tudo o que você viveu e ainda vive. Se precisar fazer anotações para ajudar você a organizar os pensamentos, faça. Mas pare imediatamente de querer garantir que as pessoas vão acreditar em você, especialmente seu pai, sua mãe ou seu Deus. Enquanto existir esse mundo doente com abusadores essa é uma proteção importante: Não ser mais o perfil preferido desses monstros.