Um Congresso medíocre - Vitória News
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Opinião Pública
Um Congresso medíocre
Rubinho Gomes
Quando foram abertas as urnas em 2018 e conhecidos os nomes que iriam integrar o Senado e a Câmara dos Deputados a partir de 2019, recebi telefonema de um velho amigo jornalista, prestes a se aposentar como dedicado funcionário do Poder Legislativo por mais de 30 anos, e ele foi incisivo:

-- Vai ser o pior Congresso da História do Brasil..

Hoje, dois anos depois, não tenho dúvida de que ele tinha razão, sobretudo após a eleição de Artur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados no lugar de Rodrigo Maia, que vacilou tanto que não colocou em pauta nenhum dos pedidos de impeachment apresentados contra Bolsonaro. Rodrigo Pacheco no Senado é um pouco melhor do que Davi Alcolumbre... Mas Lira lidera o famigerado Centrão do presidiário Eduardo Cunha, além de responder a processos no STF (Supremo Tribunal Federal). A legislatura 2019/2020 foi definitivamente lastimável, no compasso do desastroso governo do capitão Cloroquina (que a propósito agora não sabe o que fazer com ela).

No caso capixaba, vamos começar pelos eleitos para o Senado em 2018, diametralmente opostos em suas posturas e relacionamentos extraparlamentares. Fabiano Comparato, eleito pela Rede e apadrinhado por PH, ex-delegado de Delitos do Tráfego na Polícia Civil, é casado com outro homem com quem tem um filho adotivo (e está prestes a adotar outro), e seu compromisso com a defesa da diversidade e dos direitos LGBTs merece aplausos, embora sofra enorme rejeição dos setores conservadores do eleitorado. Uma de suas cenas que mais causaram frisson nas redes sociais ano passado foi o "selinho" que trocou com o cantor e compositor Caetano Veloso, de quem se tornou amigo pessoal, ao ponto de conseguir que o amigo baiano mandasse um vídeo em apoio ao seu candidato à prefeito de Vila Velha, Rafael Primo (IRede) que teve uma votação pífia. Um de seus objetivos no Senado é aumentar o rigor da legislação contra os motoristas que causam acidentes embriagados, que sempre acham um jeitinho para responder ,processos em liberdade após pagamento de fianças arbitradas em audiências de custódia, o que conta com apoio popular, embora seja duvidoso o apoio das bancadas BBB (Bíblia, Boi e Bala).

Ao lado de Contarato foi eleito o homem da SWAT (eleito pelo Cidadania de Roberto Freire e logo se transferindo ao Podemos sem punição - Pode? fazem qualquer negócio), Marcos Do Val, que passou anos de sua vida visitando redações e proclamando que era instrutor da SWAT (quando a sigla estava no auge da fama). Luciano Resende, ex-prefeito de Vitória por oito anos e presidente vitalício do Cidadania) certamente algum dia terá que explicar esta temeridade bélica que legou ao povo capixaba, pois Do Val não teve nenhum pudor de se aliar a Bolsonaro e sua política armamentista desde o início do mandato. Arrisco até a dizer que esta aliança de Luciano com Do Val lá atrás comprometeu o desempenho do Cidadania na eleição municipal do ano passado, diante do resultado pífio de seu candidato Gandini, em Vitória, onde chegou a ser favorito, e em Vila Velha onde não teve nenhum pudor em se aliar a Neucimar Fraga, dando de bandeja seu candidato a vice, Ricardo Chiabai. Só quem lucrou com esta temeridade eleitoral foi Neucimar mesmo sem chegar ao segundo turno, pois era suplente do deputado federal Sergio Vidigal, eleito prefeito da Serra num revezamento com Audifax Barcellos (Rede) que já dura 28 anos.

No Senado pelo menos temos a experiência de Rose de Freitas -- que conhece o Congresso como poucas pessoas e sobreviveu a todas as crises do Legislativo brasileiro, inclusive a dos Anões do Orçamento quando alguns jornais chegaram a suspeitar que ela fosse a Branca de Neve. Não era, como mostraram as apurações da época. Eleita pelo PMDB em 2014, Rose tentará renovar o mandato em 2022, de volta ao MDB de suas origens, do qual pretende defenestrar definitivamente seu velho inimigo dos tempos do PSDB, o indefectível Lelo Coimbra, cujo menor problema é ser um hartunguete de carteirinha, tendo sido inclusive vice em seu governo de 2003 a 2006, quando foi trocado à revelia por Ricardo Ferraço. Como não se reeelegeu em 2018, Lelo tentou brilhar no Ministério das Cidades quando ocupado por seu amigo gaúcho Osmar Terra, mas o ostracismo parece ser seu destino político.

A bancada do Espírito Santo na Câmara trilha caminhos diversos: Neucimar tratou logo de conseguir audiência com Bolsonaro a pretexto de pedir verbas para concluir o Contorno do Mestre Álvaro, na Serra, uma retribuição a Vidigal, além de hipotecar seu apoio incondicional, não fosse ele do PSD de Gilberto Kassab, uma pessoa que está sempre pronta a aderir a quem está no poder.

Há outro adesista de primeira hora a Bolsonaro chamado Evair de Melo, vice-lider do Governo na Câmara que recentemente teve a cara de pau de pedir ao governador Casagrande que agradecesse ao presidente o envio das vacinas Coronavac. Mas, deputado, com todo o respeito, Bolsonaro não dizia publicamenmte que jamais compraria a "vacina chinesa do governador de São Paulo João Dória"? Outra bolsonarista de primeira hora, a deputada Soraya Manato, deve ter aprontado alguma para seu marido perder abruptamente o comando do Sebrae no Espírito Santo. Temos ainda o coordenador da bancada, o militar reformado Josias da Vitória (PDT) que também se perfila entre os adesistas ao capitão.

Norma Ayub (DEM), mulher do cacique Teodorico de Assis Ferraço ainda espera o resultado de um recurso impetrado no TRE para reverter a derrota que sofreu para a prefeitura de Marataízes no ano passado, o que abriria nova vaga de suplente na bancada. A cantora gospel Lauriete recuperou o fôlego político após separar-se de Magno Malta, e acaba de assumir a vice-presidência do PSC do Espírito Santo, aqui comandado pelo seu primeiro ex-marido, Reginaldo Almeida.

Helder Salomão, único representante do PT no ES, mostra-se vítima do desgaste interno e externo que a sigla enfrenta, mas é o melhor interlocutor das organizações sociais e dos pleitos da sociedade civil organizada. Restaram os dois do PSB (partido do governador): o primeiro suplente a assumir a cadeira no Estado, o apresentador de televisão Ted Conti (ocupou a vaga de Paulo Foleto, nomeado secretário de Agricultura desde o início deste segundo governo Casagrande), que precisa de mais desenvoltura e independência para abordar os grandes temas nacionais, e o deficiente visual Felipe Rigoni, que demonstra preparo intelectual mas pouca interação com o eleitorado, embora ambos mantenham sintonia partidária e fidelidade ao programa do partido.

Uma incógnita é o do dublê de deputado federal e apresentador de TV de sucesso, Amaro Neto (Republicanos), que parece cuidar mais de seu programa policialesco Balanço Geral, na Tv Vitória, que passou a fazer ao vivo apenas aos sábados, do que do mandato que conquistou certamente pela fama que obteve através dele. Após mudar seu domicilio eleitoral de Vitória para a Serra no início do ano passado, Amaro surpreendeu os analistas políticos ao desistir de disputar a eleição, ele que em 2016 perdera a prefeitura em Vitória por estreita margem para Luciano Rezende.

Finalmente, um alento no final da semana passada: Rose e Contarato salvaram a honra capixaba ao assinarem a CPI da Covid no Senado, que promete investigar a flagrante omissão de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia. A conferir.