Depois da escatologia - Vitória News
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Opinião Pública
Depois da escatologia
Rubinho Gomes
O estilo desbocado e escatológico de Jair Bolsonaro teve que passar quatro dias internado num hospital em São Paulo quando o país ficou em suspense, até porque o vice general Hamilton Mourão estava numa burocrática viagem, à África para participar de uma reunião com os países de língua portuguesa. Emtão, mesmo em coma induzido, o país ficou sob comando dos generais de plantão no Palácio do Planalto. Já somam mais de 6 mil os militares convocados por Bolsonaro para cargos em Ministérios e autarquias e, portanto, ninguém prestou muita atenção. Mas as apostas de que ele não emplaca 2022 continuam pois não param de borbulhar suspeitas de corrupção e casos de propina na aquisição de vacinas, ora negociadas por um grupo ora por outros, todos com sua cota básica de militares. Se for por impeachment ou renúncia, claro que cairemos nas mãos do general Mourão. Mas o falso messias saiu do hospital dizendo que "só Deus me tira daquela cadeira (presidencial)", então é com ele mesmo.

Quem sabe a reza de um "Pai Nosso" coletivo nos traga esta benção, sempre lembrando que agosto é um mês marcado por muito simbolismo na vida política nacional, desde o suicídio de Getulio Vargas em 1954 até a renúncia de Janio Quadros em 1961. Em todos estes dois casos temos capixabas testemunhas oculares da história: na morte de Getulio, que saiu da vida para entrar na história, como disse em sua carta-testamento onde sintetiza: "O povo de quem fui escravo nunca mais será escravo de ninguém", Getulio tinha como ajudante de ordens em sua Casa Militar o então capitão Joaquim Leite de Almeida, que os capixabas conheceram como Kinkas, candidato a prefeito de Vitória pelo PSP de Adhemar de Barros em 1958, a quem atrelou sua carreira política.

Quanto a Janio Quadros, ele tinha em seu staff o professor Adhemar Martins, subchefe de Darcy Ribeiro na Casa Civil da Presidência, além outros nomes que se destacaram na campanha do homem da "vassoura" devido ao jingle de sua campanha presidencial:

"Varre, varre, vassourinha
Varre, varre a bandalheira
Que o povo já está cansado
De sofrer desta maneira

Janio Quadros é a esperança
Desse povo abandonado
Janio Quadros é a certeza
De um Brasil moralizado

Alerta meu irmão
Vassoura conterrâneo
Vamos vencer com Janio"

Havia indícios de corrupção no Governo Juscelino Kubitschek de Oliveira, sobretudo nas obras para a construção de Brasília, tocadas por várias empreiteiras sob o comando de Israel Pinheiro. Mas também havia o carisma, a simpatia e iniciativas populares no governo do pessedista JK. Mas ele não conseguiu repassar isto para o Marechal Henrique Lott, apesar do seu nacionalismo e defesa da campanha "O Petróleo é Nosso", que lhe valeu o apoio velado dos comunistas. Outros detalhes: na eleição de 1960, votava-se separadamente para presidente e vice-presidente, de modo que o eleito vice não foi o companheiro de chapa e partido de Janio, Milton Campos, mas o lider petebista e herdeiro do trabalhismo de Vargas, Jango Goulart, que por ocasião da renúncia se encontrava em visita oficial à China Comunista. Outro fato é que a renúncia de Janio só se consumou porque a carta-renúncia chegou à Câmara numa sexta-feira tradicionalmente de poucos deputados. O capixaba Dirceu Cardoso, deputado do PSD, passou a mão na carta e se dirigiu à tribuna, onde leu o documento, oficializando a renúncia que causou enorme perplexidade nacional. Se tivesse ficado para a segunda-feira, talvez a renúncia jamais se consumasse. Mas ela se consumou com a leitura na Câmara por Dirceu Cardoso, a Cadeia da Legalidade lançada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que contagiou o país e o longo tempo da viagem de volta de Jango da China serviu para as negociações políticas que desaguaram na aceitação da efêmera experiência do Parlamentarismo brasileiro, afinal sepultado pela vitória do Presidencialismo no plebiscito convocado por Jango.

Foi por esta época que Juca Chaves lançou uma pérola que continua atual, abrindo seu LP "As músicas proibidas de Juca Chaves": "Dona Maria Teresa".

"Dona Maria Teresa,
Diga ao seu Jango Goulart
Que a vida está uma tristeza
Que a fome está de amargar
Que o povo necessitado
Precisa um salário novo
Mais baixo pro deputado
Mais alto pro nosso povo.

Dona Maria Teresa,
Diga ao seu Jango porque
O povo vê quase tudo
Só Parlamento não vê
Enquanto o feijão dá sumiço

E o dólar se perde de vista
O Globo diz que tudo isso
É culpa de comunista

Dona Maria Teresa,
Diga ao seu Jango Goulart
Lugar de feijão é na mesa
Lacerda é noutro lugar
Rá rá rá"

Como se depreende ao final da letra de Juca Chaves, Bolsonaro não foi nem original quando apelou para a escatologia... Aliás, depois dela, podemos esperar o que?