A retórica dos imbecis - Vitória News
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Opinião Pública
A retórica dos imbecis
Rubinho Gomes
Toda vez que um vereador do Espírito Santo aparece na mídia nacional geralmente a questão envolve casos policialescos como ocorreu esta semana com um primeiro suplente de vereador de Brejetuba, que sequestrou um colega eleito na quarta-feira de cinzas e o manteve durante seis horas em um cativeiro exigindo que assinasse a renúncia para que ele assumisse o mandato. O titular fingiu que concordava e, uma vez libertado, foi direto à Polícia, enquanto o sequestrador fugia para a localidade de Paciência (RJ).onde foi preso por policiais cariocas e recambiado para o Estado por policiais capixabas. A ignorância da ex-possível excelência foi sua perdição. E notem que os dois são filiados ao Cidadania, um partido nascido das cinzas do antigo Partidão (PCB), presidido nacionalmente pelo correto Roberto Freire. Resolvi escrever sobre eles, os vereadores, pois a desmoralização do Legislativo em todos os níveis faz parte de uma estratégia traçada por pessoas de má indole e maus bofes para reduzir a pó todas as instituições brasileiras.

Outro caso que ganhou destaque na mídia nacional esta semana foi o relacionado com o comportamento repugnante do vereador de Vitória Gilvan da Federal (Patriota) -- alguém que deslustra uma instituição que se notabilizou nos últimos anos pelo combate sério à corrupção em todo o país . Na última segunda-feira, em plena sessão comemorativa ao Dia Internacional da Mulher, quando a presidência da Câmara de Vitória foi entregue às duas mulheres eleitas vereadoras na Capital no ano passado, Karla Coser (PT) e Camila Valadão (PSOL), para conduzirem.os trabalhos em comemoração à data. Pois o troglodita maleducado resolveu implicar com a roupa da vereadora, como se fosse um censor de costumes no tempo da ditadura: "Na minha opinião, a vereadora não está com traje formal para a sessão". Camila Valadão disse que aquela não era a primeira vez que usava aquela roupa em plenário e jamais recebeu qualquer tipo de questionamento por causa da forma de se vestir. Era pura implicância...

Camila explicou que "a intervenção do vereador aconteceu logo depois que eu e a minha colega Karla Coser assumimos o comando da Mesa Central, a convite do presidente da Casa, Davi Esmael, como um gesto simbólico pelo Dia da Mulher", comentou Camila, a segunda vereadora mais votada em Vitória na última eleição e também a primeira mulher negra eleita na Capital capixaba. "Cheguei a olhar para minha roupa e depois vi que nada havia de errado com ela, talvez ele tenha se irritado com meu "bom dia a TODES", que foi como iniciei os trabalhos. Em sua questão de ordem, ele também reclamou do adesivo "Fora Bolsonaro" que Camila usava, enquanto ele estampava uma máscara com o rosto do presidente, então a gente não deixa de se chocar e se indignar com esses ataques, ainda mais numa sessão comemorativa do Dia da Mulher.

Em Vila Velha, a baixaria também é prática comum e propostas inconstitucionais por falta de competência legislativa municipal são propostas corriqueiramente, como a do vereador do Republicanos que propos a "castração química para autores de crimes sexuais", esquecendo que isto se trata de uma prerrogativa do Congresso Nacional: a legislação sobre os temas e as formas de punição a criminosos deve ser aprovada pela Câmara e pelo Senado, em certos casos com maioria de 2/3 de seus integrantes (caso das Propostas de Emendas Constitucionais, mais conhecidas como PECs). O nivel de qualificação dos atuais ocupantes de mandatos de vereador chega a ser preocupante e nada devemos esperar em termos de melhorias para a população. A maioria está em busca de empregos para parentes, seja no Legislativo, no Executivo ou no Judiciário.

Confesso que senti saudades dos tempos em que fui designado por O Diário, ainda nos anos 60, para cobrir a Câmara de Vitória e me deparei com vereadores como Apolinário Marinho Delmaestro que protestava contra "os cães hidráulicos" (ele queria dizer hidrófobos) que infestavam as ruas da cidade mas depois fez durante mais de 10 anos uma campanha maravilhosa contra o tabagismo e para arrecadar recursos destinados à construção do Hospital Santa Rita de Cássia (que ele denominava Hospital do Câncer), uma obra que tinha à frente o médico Affonso Bianco. Além de Marinho, esta Câmara de Vitória contava com o primeiro vereador gay do Estado, Atharé Stamato da Fonseca e Castro, eleito pela Arena usando o slogan "de frente ou de ré, vote em Atharé". Assisti a embates e duelos verbais entre Boécio Pache de Faria e Adir Sebastião Baracho, conciliações mediadas por Nenel Miranda ou pelo sizudo Nicanor Alves dos Santos mas todos tinham formação acadêmica e eram extremamente educados.

Pela Câmara de Vitória tivemos exemplos de mandatos edificantes como o de Hermógenes Lima Fonseca, pelo PL (Partido Libertador) já que o PCB ao qual ele pertencia havia sido colocado na ilegalidade. Proporcionalmente à população de Vitória, o folclorista na época foi o mais votado do Brasil. Outro bom de voto e de discurso foi Teodorico de Assis Ferraço Filho, que iniciou sua vida política como vereador eleito na Câmara de Cachoeiro pelo Movimento Trabalhista Renovador (MTR). na nacionalmente vitoriosa Campanha das Mãos Limpas contra a corrupção, liderada pelo deputado trabalhista gaúcho Fernando Ferrari.

Mas temos também exemplos deprimentes como o do ex-vereador Felicio Correia, eleito com mais de 5 mil votos em Vila Velha em 1982, e nunca mais se elegeu para mandato nenhum, pois a primeira coisa que fez depois de eleito foi se mudar da Gloria para um apartamento de luxo na Praia da Costa, decepcionando o eleitorado que nele acreditara para servir aos seus eleitores. E temos ainda o caso deplorável do antigo investigador da Polícia Civil Clerio Falcão, que se elegeu vereador e depois deputado estadual pelo MDB arrastando pelas ruas de Vitória o cadáver da menina Araceli, encontrada morta em 1973.

A prática de conseguir emprego para parentes sofisticou-se ao longo dos tempos mesmo com muitas ações de combate ao nepotismo no serviço público.. O caso das rachadinhas no gabinete de Flavio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio virou uma bola de neve e pariu uma mansão de R$ 6 milhões em condomínio de luxo em Brasília. Num levantamento feito pelo repórter João Domingos e publicado no Jornal do Brasil em 13 de junho de 1990 o Espírito Santo aparece com outro recorde negativo: "o deputado federal Pedro Ceolin (PFL-ES) conseguiu efetivar seis parentes lotados no Senado, tendo ainda a mulher Alair e os filhos Placido e Nelma trabalhando na Câmara". Sem esquecer suas profundas ligações com o ex-senador Moacir Dalla, que efetivou o maior trem da alegria da história do Senado em 1984 para conseguir rejeitar no plenário a Emenda Dante de Oliveira, que restabelecia eleições diretas em todos os níveis, inclusive para presidente da República na sucessão do general João Batista Figueiredo.

Para finalizar, minha total solidariedade ao jornalista George Bitti, da Tv Tribuna, também atacado em sua honra pelo tal Gilvan da Federal (Patriora), alguém que me parece mais próximo desse Daniel Silveira boquirroto que atacou os ministros do STF, em quem mandou bater "com um gato morto". George foi atacado por comentários feitos em suas redes pessoais e não no veículo em que trabalha, ou seja, suas opiniões pessoais não podem ser objeto da censura de vereador nenhum ou de quem quer que seja, ainda mais que ele é regularmente filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Espírito Santo e à Fenaj, que inclusive emitiram nota de repúdio ao ignóbil edil.

Esse pessoal precisa aprender que o papel do legislador é fiscalizar o Executivo e criar leis que beneficiem de fato os cidadãos. Embora tenha parecido muitas vezes a tal "casa de mãe joana", o Parlamento quando levado a sério no exercício dos mandatos é um instrumento fundamental para a plenitude da democracia. Os discursos debilóides, homofóbicos, misóginos, caluniosos e depreciativos precisam ser banidos para não aprofundar ainda mais o abismo com uma população cada vez mais descrente de soluções, enquanto a fome, a miséria e o obscurantismo dominam o cotidiano da população brasileira.