Esquerdopatas, direitopatas, idiotas e a igreja - Vitória News
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Opinião Pública
Esquerdopatas, direitopatas, idiotas e a igreja
Marcelo Rossoni
Um boletim, o mais recente da Igreja Batista Evangélica de Vitória, IEBV, publica texto em que ataca a esquerda do Brasil, com o título “O vírus esquerdopata e o vírus do sarampo”

O texto é assinado por um pastor conhecido pelo público em geral e uma figura também muito conhecida no meio evangélico. Pregou na Igreja Batista da Praia do Canto e transferiu-se depois para a Igreja Batista Evangélica de Vitória, IEBV, onde deve ter convertido e levado à prosperidade milhares de fiéis.

Aqui não vai uma crítica à Igreja Batista Evangélica de Vitória, IEBV, uma instituição séria até que se prove o contrário, mas sim a quem dela faz uso para formular uma crítica grosseira e sem fundamento justo.

As pedras que o pastor atira não atingem o alvo, porque o seu público não se interessa por questões políticas. Seu comportamento lembra o sopro do vento daqueles tempos difíceis.

Quem frequenta esse tipo de igreja vai em busca de conforto espiritual, alguns desesperados por não encontrarem na medicina solução para seu problema de saúde; de um milagre para dar fim à sua crise financeira, ou solução para uma crise matrimonial.

“Esquerdopatas” ou “direitopatas” não importa a condição ideológica. São cristãos que seguem o líder, são ou insano, de sua igreja, que prega na vida após a morte.

Em pleno Século XXI, na Era do Conhecimento, com espaçonaves reduzindo as distâncias no cosmo, a Ciência prolongando a vida com qualidade, com a Medicina fazendo “milagres”, também é inaceitável que um prefeito eleito, como ocorrido no Rio de Janeiro, nos remeta ao pior da Idade Média, e determine o recolhimento de obras literárias na Bienal do Livro por não concordar com o conteúdo delas.

Para quem sobe ao púlpito, numa condição superior para pregar numa igreja, seja ela qual for a sua denominação, tem por direito e dever pregar a harmonia, a paz e não acirrar ânimos, estimular bravatas ou provocar divisões.

Tem que fazer uma pregação cristã. Não pregar o ódio e muito menos a divisão entre “esquerdopatas” e direitopatas” idiotas.

Não é de hoje que algumas instituições chamadas cristãs ditam as regras de comportamento de seus seguidores. E, de acordo com essas regras, o perfil do verdadeiro cristão vem mudando com o passar dos séculos.

Não estou mencionando os conhecidos mandamentos bíblicos, estes sim, permanentes e impregnados de puro cunho moral. Estou me referindo a regras de ordem prática, mais objetivas, que existem - acreditem - desde o tempo em que o paraíso era reservado aos ricos pagadores de indulgências, enquanto o inferno ameaçava chegar rápido aos apóstolos da atrevida pesquisa científica.

Regras práticas, cotidianas, que se enlaçam com o dia-a-dia dos fiéis e, por isso mesmo, transmutam de acordo com a época e a instituição religiosa.

Mesmo hoje, com as variadas opções de igrejas que este século XXI conhece, tais regras práticas não se tornaram procedimento obsoleto. Ao contrário, talvez até para facilitar a compreensão de seus fiéis diante da numerosa gama de vertentes do Cristianismo, as igrejas não têm poupado esforços em divulgar as normas de conduta dos seguidores de Jesus. E, fazendo um apanhado abrangente, poderíamos chegar mais ou menos a um “Manual Contemporâneo do Cristão”.

O bom cristão, em geral, é aquele que frequenta regularmente os cultos da igreja - qualquer que seja ela.
Para algumas religiões, o real seguidor é também aquele que sabe fazer penitência, que tem o hábito do jejum, que cumpre à risca as promessas negociadas em troca dos favores celestiais.

Soma-se ainda ao perfil do bom discípulo de Cristo, de acordo com as normas de conduta moral da maioria dessas instituições, a prática da confissão dos pecados. E, é claro, a oração fervorosa ou, pelo menos, repetida sistematicamente - uma das máximas divulgadas nos templos para os que almejam o reino dos céus.

Outras das normas constantemente associadas ao verdadeiro seguidor de Jesus vêm de tempos tão remotos que possivelmente foram herdadas de doutrinas anteriores ao nascimento dele.

Mas, ainda assim, são parte das características que qualificam o cristão do século XXI. Acender velas aos santos, engolir hóstias e iluminar os altares.
Pagar o dízimo em dia - esta última, verdadeira bênção de Deus às igrejas cristãs, mas nem tanto.

E com o advento da modernidade, as regras não param de crescer. Nem sonhe o tradicional cristão em usar os modernos métodos anticoncepcionais, ou em se interessar pelas curiosidades da clonagem. Ou, se adepto das crenças mais radicais, enfrentar as proibições severas quanto a transfusões de sangue e órgãos, mesmo com o objetivo de salvar vidas.

Como se pode observar, nosso hipotético manual não seria pequeno. Mas também não faz sentido que percamos ainda mais tempo em buscar as características que vão tornar reconhecíveis os discípulos do Mestre, aquele que ousou um dia mandar atirar a primeira pedra quem não tivesse pecado.

Porque esta pergunta foi feita pelo próprio Jesus, quando este ainda honrava o plano terreno com sua presença física e assistia a uma tentativa de um linchamento.
Em determinado momento, um seguidor inspirado teve a perspicácia de perguntar ao próprio Mestre como poderiam ser reconhecidos seus discípulos.

E o mais curioso é que a resposta de Jesus - aquele que, pelo menos em tese, deveria ser o inspirador das pregações das instituições cristãs - invalida quase que por completo todas as regras que mencionamos acima.

Jesus foi ao mesmo tempo muito mais abrangente e seletivo ao usar de divina simplicidade: “serão reconhecidos por muito se amarem”, disse.

Suspirem aliviados os que, mesmo sem inflamar velas, aquecem no coração o cuidado com o próximo. Durmam em paz os que, embora não engulam hóstias, têm fome e sede de justiça. Aliviem-se os que, sem voluntárias penitências, deixam vazar de si gotas de suor e lágrimas em favor de um mundo bem-aventurado; os que, antes dos dízimos, doam um pouco de si àqueles que os procuram.

Porque o Homem que dividiu a história em antes e depois dele é o mesmo que veio resumir todos os mandamentos em um só: “amai-vos uns aos outros”.

É o amor, e só ele, o unguento dos que carregam erros e culpas, o bálsamo que lava os ódios e medos, o escudo que afasta as tristezas, a luz que desembaça as dúvidas, colorindo verdades cheias de graça. É o amor, irreversível e incorruptível, o único (e nem por isso, fácil) pré-requisito mencionado por Jesus.

Se você respeita as regras de conduta da instituição a que segue, tanto melhor. Isto lhe faz um bom católico, protestante exemplar, espírita precioso - o que de forma alguma é demérito. Mas quiséramos nós o título de cristão pudesse estar associado a tão objetivos procedimentos de conduta cotidiana.
Ser verdadeiramente cristão exige de nós aprimoramentos bem mais profundos, num caminho lento em que, na melhor das hipóteses, prosseguiremos por toda a vida.

Para que, quem sabe no futuro, possamos nos reconhecer cristãos como um dia reconheceu-se Paulo de Tarso, entendedor da linguagem que há de resistir ao tempo: “ainda que eu falasse a língua dos anjos e dos homens, sem amor eu não seria nada.”

Nada mais justo e perfeito!