As árvores e as cidades

    É quase uma unanimidade: árvores são necessárias nas cidades! Refrescam, fazem sombra, embelezam a paisagem, protegem o solo de chuvas torrenciais e por aí vai. No entanto, noto que pouca gente percebeu que as árvores também provocam incômodos às cidades e seus moradores. É preciso que as autoridades municipais tomem maior conhecimento dessa realidade para melhor atenderem às demandas de corte e poda de árvores.

    Cidades muito populosas e com boa arborização, como São Paulo, por exemplo, têm frequentes registros de quedas de árvores que matam pedestres e ocupantes de veículos ou que provocam danos na lataria de carros com a queda de frutos e galhos. Rotineiramente, as cidades em geral assistem a acidentes com fraturas de pedestres e danos em calçadas causados por raízes de árvores mal escolhidas pelas prefeituras. E a quantidade de folhas que caem de uma castanheira durante o outono? Uma sujeira grande.

    Mas há um aspecto pouco percebido das árvores nas cidades que é da maior relevância, já que gera muito prejuízo e desgosto aos cidadãos. E infelizmente, os serviços de atendimento de reclamações das prefeituras não dão importância a ele. É o desgosto que uma árvore provoca tapando lindas paisagens que podem ser vistas das casas dos moradores. De minha residência conseguia ver quatro cartões postais da minha cidade. Os quatro foram tapados, total ou parcialmente, por árvores plantadas pela prefeitura (sem qualquer consulta aos moradores) . Reclamei pela última vez há mais de 90 dias e nada aconteceu: nenhum servidor me ligou ou veio me dar uma satisfação sobre o que eu desejava que fosse feito.

    Sou um dos primeiros moradores do bairro em que vivo há mais de 45 anos. Tinha uma vista ampla e linda à minha frente: uma pracinha e uma rua margeando um canal de mar que dá acesso ao porto mais antigo da minha cidade. Pois bem, hoje frondosas castanheiras, arredondados mulembás e outras variadas árvores na calçada da rua à beira mar já tapam mais da metade da paisagem. E todas essas árvores vão continuar crescendo. Agora vejo, como um tomógrafo, em fatias, lindos navios atrás das árvores da pracinha. A visão linda, inteira, de um navio de passageiros, especialmente à noite, ficou comprometida em razão da presença das árvores.

    Ligo para a prefeitura, anotam a minha reclamação, solicito uma poda nas árvores que estão atrapalhando escondendo a paisagem e ninguém aparece. Francamente, tal tipo de solicitação deve ser até motivo de chacotas. “Tanta coisa importante para ser feita na cidade e esse cidadão vem reclamar que perdeu a paisagem. Falta do que fazer!” É a intuição que tenho. Vocês, servidores públicos, estão errados. Tiraram de alguém que chegou antes a valiosa paisagem que tinha quando da compra do imóvel, sem que qualquer tipo de consulta fosse feita. Se para vocês é irrelevante, para o morador não é. Na verdade, significa uma importante redução de seu bem-estar e uma desvalorização de seu imóvel. E a incrível contradição é que a maior obrigação dos políticos e da administração pública é aumentar o bem-estar dos cidadãos.

    Acredito que muita gente tenha este tipo de problema nos mais de 5.000 municípios Brasil afora. Que fazer? Continuar conversando com autoridades municipais para que deem mais atenção ao tema da arborização. É preciso que haja um planejamento elaborado com a ajuda de engenheiro florestal e paisagista, que seja capaz de corrigir quadros em que a arborização esteja gerando desconforto e prejuízo aos moradores. Um Projeto de Lei para que árvores só sejam plantadas pelas prefeituras em calçadas e praças das cidades com consulta prévia e autorização dos donos dos terrenos das calçadas e vizinhos às praças também parece sensato.

    Uma coisa é certa: não tente cortar ou podar as árvores por conta própria. A tão esperada eficiência da gestão pública fará com que, rapidamente, chegue à sua porta uma pilha de autos de infração com pesadas multas e ameaças de prisão por crime ambiental, neste caso a maioria das vezes nem cabe fiança.

    Isso não precisa mudar?

    *Sérgio Rogério de Castro é engenheiro mecânico, economista e diretor da Escola de Associativismo