A hipocrisia veste verde e amarelo

    Hipocrisia. Não há palavra melhor para entender a “Marcha para Jesus” do último sábado (24 de julho), que se transformou em um acontecimento político de repercussão nacional. Foram milhares de participantes formando uma onda de claridade étnica e de grupo social privilegiado que bradavam palavras de louvores a um político militar classificado como “mito”, o qual receberam com júbilo e orgulho.  

    Etimologicamente, hipocrisia corresponde ao ato de dissimular, de falsificar, ou seja, que distorce a realidade e a mistifica. No Velho Testamento o hipócrita foi a qualificação dada aos ímpios, àqueles que se afastaram de Deus e, no Novo Testamento encontra-se a citação de que os hipócritas são aqueles que expressam sentimentos e emoções fingidas. Hipócritas foram os fariseus que propunham fidelidade à tradição. 

    É triste constatar a pregação cristã em nome do Senhor Jesus, a corporificação de Deus, que se fez homem para nos salvar, associado com discursos de intolerância e ameaças aos que com eles não se identificam. Dentre os organizadores, um grupo se destacou pela defesa da difusão de armas para a sociedade e, para fortalecer esta mensagem, desfilaram com um carro alegórico de revólver 38. Quanta hipocrisia! Negam o sagrado mandamento “Não matarás!”.

    Grupos de evangélicos neopentecostais e católicos conservadores se uniram para exaltar um chefe que elegeram como um ser especial, um “mito”, que os lidera em nome dos bons costumes e dos valores cristãos. Quanta hipocrisia! Um dirigente que assusta o mundo por suas atitudes e manifestações; que fez loas à tortura; que agrediu mulheres e minorias; que rispidamente respondeu a um concidadão que deixasse de comprar feijão para comprar fuzil; e que ameaça diuturnamente a democracia e as instituições que a integram, avançando sem acanhamento numa escalada golpista. 

    A opção por um Brasil em que predomina a perigosa divisão na sociedade entre um pseudo “bem” contra um pseudo “mal” poderá levar a consequências imprevisíveis e aqueles que a fortalecem serão responsáveis pelo que vier. 

    O passado do dirigente endeusado o condena. Oriundo da caserna, teve uma carreira pouco exemplar, interrompendo-a como oficial de baixa patente, sujeito de um inquérito militar e de palavras nada elogiosas de generais na etapa final dos governos militares. Depois, foi um político sem expressão por 28 anos, destacando-se por eleger seus filhos na “velha política”, a qual passou a denunciar em nome de uma irreal renovação. Uma grande farsa!  

    O verde e amarelo que predominou, inclusive colorindo e agredindo pombas – símbolo da paz – encobre comportamentos que agridem a nossa história. O entusiasmo com os EUA e com Trump sustentou até mesmo o gesto de continência para uma bandeira que não é a nossa. Um dirigente que tem como principal condutor da economia uma pessoa que mantém no exterior suas riquezas financeiras pessoais; que adota discursos e gestos constantes de agressão a líderes internacionais. Que fez do Brasil um pária internacional. Quanta hipocrisia!