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Opinião Pública

Mama África

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

13/07/2026

A humanidade nasceu africana. Essa afirmação não pertence à política nem à literatura; pertence à ciência. Muito antes de existir uma França, uma Inglaterra, um Portugal ou qualquer outra nação europeia, homens e mulheres já percorriam as savanas africanas.

Foi daquele continente que partiram, ao longo de dezenas de milhares de anos, os grupos humanos que ocuparam a Ásia, a Europa, a Oceania e, por fim, as Américas. É curioso que justamente a terra onde começa a história da humanidade tenha sido apresentada, durante séculos, como símbolo de atraso e dependência.

A ironia é inevitável: a humanidade aprendeu a caminhar na África, mas o colonialismo insistiu em ensinar que era a Europa quem deveria conduzi-la.

Talvez seja essa a dimensão mais profunda da canção "Mama África", composta por Chico César em 1995. À primeira vista, trata-se da história de uma mãe solteira que prepara mamadeiras, trabalha o dia inteiro e retorna para casa carregando o peso da sobrevivência. Mas a personagem representa muito mais do que uma mulher brasileira. Ela simboliza a própria África, mãe de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo e, em sentido ainda mais amplo, mãe da própria humanidade.

Durante muito tempo repetiu-se que a África era um continente pobre. A frase, embora amplamente difundida, inverte a ordem dos acontecimentos. A África não nasceu pobre. Ao contrário, foi progressivamente empobrecida por séculos de escravidão, colonização e exploração econômica organizada para beneficiar as potências europeias.

Quando os primeiros navegadores portugueses chegaram ao litoral africano, no século XV, encontraram sociedades organizadas, reinos consolidados, redes comerciais e centros de conhecimento. O Egito, situado no nordeste da África, já havia produzido uma das mais extraordinárias civilizações da Antiguidade.

Na África Ocidental floresceu o Império do Mali, localizado onde hoje se encontram principalmente Mali, Senegal e Guiné, cuja prosperidade era sustentada pelo comércio do ouro. Seu soberano mais famoso, Mansa Musa, tornou-se conhecido pela imensa riqueza que acumulou e pela peregrinação a Meca, durante a qual distribuiu tanto ouro que alterou temporariamente seu valor em algumas regiões do Oriente Médio.

Depois surgiu o Império Songhai, cuja capital era Gao, cidade localizada no atual Mali. Nos séculos XV e XVI, transformou-se em um dos maiores Estados africanos, controlando importantes rotas comerciais através do deserto do Saara. Mais ao sul desenvolveu-se o Reino do Benim, situado no território da atual Nigéria — e não no país moderno chamado Benim —, cujos artesãos produziam esculturas em bronze consideradas, ainda hoje, obras-primas da metalurgia mundial. A Etiópia, localizada no chamado Chifre da África, preservava uma antiga tradição cristã e tornou-se um dos raros países africanos que conseguiram preservar sua independência diante da expansão colonial europeia.

Nada disso, entretanto, despertou o verdadeiro interesse das grandes potências marítimas. O que atraía comerciantes, companhias de navegação e governos europeus não era a riqueza cultural do continente, mas a riqueza que podia ser transformada em lucro. Ouro, marfim, diamantes, cobre, borracha, cacau, café, petróleo e inúmeras outras matérias-primas passaram a abastecer a expansão econômica da Europa. Quando os recursos naturais pareciam insuficientes, milhões de homens, mulheres e crianças africanas foram reduzidos à condição de mercadoria, alimentando durante séculos o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, um dos empreendimentos mais lucrativos da história do capitalismo.

É difícil compreender a Revolução Industrial, a expansão do sistema financeiro europeu ou o enriquecimento de diversos impérios sem considerar o papel desempenhado pela África nesse processo. Grande parte da riqueza acumulada em cidades como Londres, Paris, Lisboa, Amsterdã e Bruxelas teve origem, direta ou indiretamente, na exploração colonial. Ainda assim, o continente saqueado acabaria recebendo o rótulo de continente pobre, enquanto os beneficiários desse sistema passariam a ser apresentados como exemplos de progresso e civilização.

Enquanto Portugal consolidava sua presença ao longo da costa africana por meio de feitorias e fortalezas, outra potência europeia iniciava um modelo distinto de ocupação. Em 1652, a Companhia Holandesa das Índias Orientais instalou uma colônia permanente no Cabo da Boa Esperança, região onde hoje se localiza a Cidade do Cabo, na África do Sul. 

O objetivo oficial era abastecer os navios que viajavam entre a Europa e a Ásia. Na prática, iniciava-se a colonização da África Austral. Colonos holandeses, conhecidos mais tarde como bôeres ou africânderes, expandiram-se sobre terras ocupadas por povos como os khoikhoi, os xhosa e, posteriormente, os zulus. No início do século XIX, a Colônia do Cabo passou ao domínio britânico, mas a presença holandesa marcaria profundamente a formação da futura África do Sul.

O ponto culminante da expansão colonial ocorreu entre 1884 e 1885, quando representantes das principais potências europeias reuniram-se em Berlim, capital da Alemanha, para resolver uma delicada questão diplomática: como dividir a África entre si sem provocar uma guerra entre europeus.

Nenhum africano participou da conferência.

Aparentemente, consultar os habitantes do continente foi considerado um detalhe irrelevante.

Sobre mapas estendidos à mesa, diplomatas traçaram fronteiras que ignoravam rios, montanhas, idiomas, etnias e histórias comuns. Povos que conviviam havia séculos foram separados. Outros, que jamais haviam pertencido ao mesmo Estado, passaram a compartilhar a mesma administração colonial. A régua europeia mostrou-se mais importante do que a geografia africana.

Ao término desse processo, a França tornou-se a maior potência colonial do continente, dominando a Argélia, a Tunísia, o Senegal, a Mauritânia, o Mali, o Níger, o Alto Volta — atual Burkina Faso —, a Costa do Marfim, o Daomé — atual Benim —, o Chade, o Gabão, o Congo Francês — atual República do Congo —, a República Centro-Africana, Djibouti, Camarões e Madagascar. 

O Reino Unido consolidou um vasto corredor colonial que abrangia o Egito, o Sudão Anglo-Egípcio — atualmente Sudão e Sudão do Sul —, Uganda, Quênia, Nigéria, Serra Leoa, Gâmbia, a Costa do Ouro — atual Gana —, a Rodésia do Norte — atual Zâmbia —, a Rodésia do Sul — atual Zimbábue —, a Bechuanalândia — atual Botsuana —, a Niassalândia — atual Maláui — e a União Sul-Africana, origem da moderna África do Sul.

Portugal preservou Angola, Moçambique, a Guiné Portuguesa — atual Guiné-Bissau —, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Bélgica transformou o Estado Livre do Congo, propriedade pessoal do rei Leopoldo II, no Congo Belga, correspondente à atual República Democrática do Congo.

A Alemanha recebeu a África Oriental Alemã — formada principalmente pelos atuais Tanzânia, Ruanda e Burundi —, o Sudoeste Africano Alemão — atual Namíbia — e Togo. 

A Itália ocupou a Eritreia, a Somália Italiana e a Líbia. A Espanha ficou com o Saara Espanhol — atual Saara Ocidental —, a Guiné Espanhola — atual Guiné Equatorial — e pequenas possessões no norte do Marrocos.

Em 1914, aproximadamente noventa por cento da África encontrava-se sob domínio europeu. Apenas dois países conservaram sua independência: a Etiópia, que derrotara a Itália na Batalha de Adwa, em 1896, e a Libéria.

Todo esse processo recebeu um nome respeitável: missão civilizadora. A expressão soa elegante, mas esconde uma realidade menos nobre. As estradas e ferrovias construídas durante o período colonial não tinham como finalidade integrar economicamente os povos africanos. Em sua maioria, ligavam regiões produtoras de minérios e produtos agrícolas aos portos de exportação.

Eram corredores eficientes para retirar riquezas do interior do continente e embarcá-las rumo à Europa. Convém reconhecer: do ponto de vista logístico, o sistema funcionava admiravelmente. Apenas havia um pequeno detalhe. As riquezas permaneciam na Europa. A conta permanecia na África.

Portugal, que a economista Maria da Conceição Tavares costumava definir como um país situado na periferia da Europa, participou intensamente desse processo. Apesar de seu reduzido território europeu, construiu um vasto império colonial em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

As guerras de independência, concluídas na década de 1970, encerraram o domínio político português, mas deixaram marcas profundas. Em numerosas localidades, muitos colonos portugueses abandonaram suas propriedades levando portas, janelas, telhados, instalações elétricas, encanamentos, máquinas, equipamentos e até louças sanitárias.

Não se tratou de uma política oficial do Estado português, nem todos agiram dessa maneira, mas os relatos são numerosos e suficientemente documentados para que essas casas deixadas sem portas, sem janelas, sem fiação elétrica e até sem vasos sanitários tenham se tornado um dos símbolos mais eloquentes do fim do império colonial português. A imagem contrasta de forma contundente com o discurso da chamada missão civilizadora.

As independências políticas representaram uma conquista histórica. Contudo, a emancipação formal não eliminou automaticamente as relações econômicas construídas durante séculos de colonização. Empresas estrangeiras continuaram explorando recursos minerais, multinacionais mantiveram forte influência sobre setores estratégicos e diversos países permaneceram dependentes da exportação de matérias-primas. Em parte da África Ocidental, o franco CFA, moeda criada durante o período colonial francês e ainda utilizada por vários países, permanece no centro do debate sobre soberania monetária e independência econômica.

É nesse contexto que "Mama África" adquire um significado ainda mais profundo. Chico César não apresenta uma personagem derrotada. Sua mãe trabalha, enfrenta dificuldades, cria os filhos e continua caminhando. A metáfora parece adequada para um continente que sobreviveu ao tráfico de pessoas escravizadas, à partilha colonial, às guerras de independência e às novas formas de dependência econômica sem perder sua extraordinária capacidade de produzir cultura, conhecimento, arte e esperança.

Ao concluir esta reflexão, volto inevitavelmente à canção que inspirou estas páginas. Mama África, composta por Chico César e lançada em 1995, não é apenas um retrato sensível de uma mãe que enfrenta sozinha o peso da sobrevivência. É uma obra que permite múltiplas leituras. 

A mãe descrita pelo compositor pode ser também a própria África: um continente que alimentou a humanidade em seu nascimento, acolheu algumas das mais antigas civilizações conhecidas, viu milhões de seus filhos serem arrancados de suas terras, teve suas riquezas apropriadas por impérios estrangeiros e, ainda assim, jamais perdeu sua identidade.

Talvez seja essa a grandeza da poesia. Enquanto a História registra datas, tratados, guerras e fronteiras, a arte consegue condensar, em poucos versos, sentimentos que atravessam séculos. Chico César não escreveu um tratado sobre colonialismo, tampouco um ensaio sobre a formação da humanidade. Escreveu uma canção. Mas sua Mama África acabou se tornando uma poderosa metáfora de um continente que aprendeu a resistir sem renunciar à própria dignidade.

A História, quando observada sem os filtros do colonialismo, conduz a uma conclusão desconfortável para antigas certezas. A África nunca foi um continente vazio esperando pela Europa. Era uma terra habitada por povos que construíram impérios, desenvolveram conhecimento, estabeleceram rotas comerciais, produziram riqueza e contribuíram decisivamente para a formação do mundo moderno. Se existe uma dívida histórica nesse encontro entre África e Europa, ela certamente não pertence ao continente onde a humanidade deu seus primeiros passos. Pertence àqueles que, durante séculos, confundiram conquista com civilização e exploração com progresso.

Talvez seja por isso que o título deste capítulo não poderia ser outro. Mama África não representa apenas uma personagem da música brasileira. Representa um continente que continua sendo mãe: mãe da humanidade, mãe de civilizações, mãe de culturas que ajudaram a formar o mundo contemporâneo. Uma mãe que foi ferida, explorada e repartida, mas que jamais deixou de transmitir aos seus filhos a força necessária para permanecer de pé.

Ao ouvir novamente a canção de Chico César depois de conhecer essa história, talvez ela nunca mais soe da mesma maneira. E esse, provavelmente, seja o maior elogio que um historiador pode fazer a um poeta: reconhecer que, às vezes, uma canção consegue revelar verdades que muitos livros demoraram séculos para contar.


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