A cultura digital mudou a relação com o tempo. Filmes, músicas, notícias, cursos e livros estão disponíveis em poucos cliques, em diferentes dispositivos e praticamente a qualquer hora. Mais do que alterar hábitos de consumo, essa transformação criou novas expectativas sobre como buscamos informação, estudamos e nos relacionamos com o conhecimento.
No Ensino Superior, a mudança já aparece nos números. Pela primeira vez, o Brasil registrou mais matrículas de graduação na educação a distância do que no ensino presencial. Segundo o Censo da Educação Superior 2024, divulgado pelo Inep, eram 5,19 milhões de alunos na modalidade a distância, contra 5,04 milhões no presencial. Ao todo, o país ultrapassou 10,2 milhões de matrículas.
O dado nos mostra que a experiência universitária deixou de estar restrita a um único local, a um horário ou a uma única forma de interação. A mudança também redefine o papel da biblioteca. Durante décadas, ela foi associada às estantes, aos exemplares impressos e ao espaço físico. Esses elementos continuam importantes, mas já não são suficientes para uma comunidade acadêmica mais virtual.
Um aluno pode iniciar uma leitura no campus, retomá-la em casa e consultar uma referência pelo celular no intervalo entre duas atividades. A possibilidade de acessar uma obra quando e onde for necessário deixa de ser apenas uma conveniência e passa a fazer parte da infraestrutura de aprendizagem.
Mas ampliar a oferta de conteúdo não resolve, por si só, o desafio educacional. Em um ambiente marcado pelo excesso de informação, surge uma das principais contradições da era digital: nunca foi tão fácil encontrar conteúdos e, ao mesmo tempo, tão necessário aprender a selecionar, interpretar e distinguir o que realmente merece atenção.
Por isso, a discussão sobre bibliotecas digitais não se limita à quantidade de títulos disponíveis. Curadoria, atualização, confiabilidade das referências e ferramentas que favoreçam uma leitura ativa são aspectos igualmente importantes. Recursos de busca, marcação de trechos e acessibilidade podem facilitar a navegação, mas não substituem a concentração necessária para compreender um texto.
A chegada da inteligência artificial torna essa questão ainda mais evidente. A pesquisa TALIS 2024, da OCDE, divulgada em 2025, mostra que 39% dos professores brasileiros relatam alta necessidade de formação para utilizar IA no ensino e na aprendizagem. O desafio, portanto, não está apenas em disponibilizar novas ferramentas, mas em preparar professores e alunos para fazer escolhas responsáveis diante delas.
É por isso que a cultura do streaming não deve ser simplesmente transportada para a educação. Estudar não é consumir conhecimento como quem assiste a uma série; há diferenças fundamentais de propósito, profundidade e envolvimento. No entanto, a comparação ajuda a entender como as pessoas passaram a esperar acesso flexível e integrado às suas rotinas — uma transformação que a educação precisa acompanhar.
Para as Instituições de Ensino Superior, o desafio é acompanhar essa realidade sem transformar a tecnologia em um fim. Isso significa repensar espaços, acervos e ferramentas, mas também preservar aquilo que continua essencial: professores preparados, leitura aprofundada, curadoria e autonomia intelectual.
A biblioteca do futuro talvez não seja a que reúne mais livros ou recursos tecnológicos. Será aquela capaz de aproximar pessoas e conhecimento no momento em que essa conexão é necessária, seja diante de uma estante, ou de uma tela.
A transformação digital da educação acontece quando usamos os recursos disponíveis para ampliar possibilidades de aprendizagem sem abrir mão daquilo que dá sentido à própria educação: pensar, compreender e formar pessoas capazes de ir além da informação.