Existe uma velha piada que atravessa gerações no futebol brasileiro. Nunca se soube ao certo quem foi o autor. Alguns juram que ouviram de um campeão do mundo de 1970. Outros garantem que nasceu numa mesa de bar, dessas em que o garçom já desistiu de anotar a conta porque sabe que ninguém vai embora antes da última discussão sobre futebol.
Conta-se que um repórter resolveu provocar um dos craques da seleção tricampeã.
— Se a seleção de 1970 enfrentasse a seleção de 2026, quanto seria o jogo?
A resposta veio antes mesmo que o gravador terminasse de registrar a pergunta.
— Um a zero... talvez dois a um para nós.
O repórter arregalou os olhos.
— O senhor acredita mesmo nisso?
O jogador nem piscou.
— Claro. Esse placar só seria apertado porque o Pelé, Carlos Alberto, Clodoaldo e o Zagallo morreram, e a maioria de nós já passou dos oitenta anos.
A frase vale mais do que uma biblioteca inteira de análises táticas. Ela resume, com uma dose cavalar de ironia, a distância entre duas épocas do futebol brasileiro.
Em 1970, o Brasil tinha um problema delicioso: havia camisas 10 demais. Pelé, Rivelino, Tostão... qualquer treinador menos inspirado entraria em pânico. Zagallo fez exatamente o contrário. Colocou todos para jogar. Organizou o time sem transformar gênios em operários nem operários em gênios. Cada um sabia exatamente onde deveria estar.
Em 2026, o Brasil conseguiu realizar um feito igualmente extraordinário: reunir jogadores de enorme talento individual e produzir um futebol que, em vários momentos, parecia uma reunião de condomínio sem síndico.
É evidente que não faltava qualidade. O elenco era valio$o. Muitos atletas eram titulares em grandes clubes europeus. O problema era outro. O futebol, esse sujeito teimoso, continua exigindo algo que dinheiro nenhum compra: identidade.
A esperança da vez atendia pelo elegante nome de Carlo Ancelotti. Um currículo que dispensa apresentações. Campeão por onde passou. Respeitado no planeta inteiro. Um verdadeiro técnico de grife.
E talvez tenha sido justamente esse o primeiro erro de avaliação do futebol brasileiro.
Passou-se a vender a ideia de que bastava importar um treinador consagrado para que o velho encanto reaparecesse por decreto.
Como se futebol fosse perfume italiano.
Como se bastasse desembarcar no Galeão com uma mala Louis Vuitton e um contrato milionário para ressuscitar o espírito de 1970.
Não funciona assim.
Ancelotti jamais foi o problema. Nem seria justo responsabilizá-lo sozinho pelo fracasso. O italiano herdou um futebol que há muitos anos tenta esconder seus defeitos atrás da etiqueta dos clubes europeus.
O Brasil passou a acreditar que formar jogadores é suficiente.
Esqueceu que também é preciso formar equipes.
A seleção de 1970 jogava como uma orquestra.
A de 2026, em alguns momentos, parecia um festival de solos simultâneos.
Todos talentosos.
Ninguém tocando a mesma música.
O curioso é observar como mudou o comportamento do futebol brasileiro.
Antigamente discutia-se esquema tático.
Hoje discute-se cortes de cabelo e quantidade de tatuagens.
Antes o centroavante precisava saber fazer gol.
Agora também precisa dominar redes sociais, campanhas publicitárias, séries documentais, podcasts, coleções de roupas, contratos internacionais e coreografias para comemorar gols que, às vezes, nem acontecem.
O futebol virou uma gigantesca operação de marketing.
A bola parece ter recebido função secundária.
Enquanto isso, os velhinhos de 1970 continuam assombrando qualquer comparação.
Carlos Alberto ainda aparece levantando a Jules Rimet na memória coletiva.
Clodoaldo continua driblando italianos.
Gérson continua distribuindo lançamentos de quarenta metros.
Rivelino continua disparando aquele canhão na perna esquerda.
Jairzinho continua marcando em todos os jogos.
E Pelé... bem, Pelé continua fazendo o que sempre fez: vencendo até quando já não está em campo.
Talvez por isso aquela velha piada faça tanto sucesso.
Ela não fala apenas de futebol.
Fala de legado.
De uma geração que ensinou ao mundo que jogar bonito não era um luxo, mas uma obrigação.
É claro que ninguém em sã consciência colocaria hoje aqueles campeões octogenários para disputar noventa minutos contra atletas no auge da forma física.
A graça está justamente aí.
A anedota exagera para revelar uma verdade incômoda.
Quando alguém consegue convencer milhões de brasileiros de que um time formado por senhores de mais de oitenta anos ainda inspira mais confiança do que uma seleção moderna, alguma coisa deixou de funcionar há muito tempo.
Talvez não seja falta de preparo físico.
Nem de tecnologia, nem de estatísticas.
Muito menos de treinadores estrangeiros.
Talvez esteja faltando exatamente aquilo que Zagallo jamais precisou importar.
Personalidade, organização e compromisso coletivo.
E, acima de tudo, aquela antiga mania de tratar a camisa amarela como patrimônio nacional, e não como uniforme de uma temporada europeia.
Enquanto isso não voltar, a velha piada continuará circulando pelos bares, pelas arquibancadas e pelas rodas de conversa.
E sempre haverá alguém disposto a jurar que a seleção de 1970 venceria a de 2026.
Nem que fosse apenas por um a zero.
Ou, quem sabe, por dois a um.
Afinal, como diria o velho campeão, o placar só seria tão apertado porque Pelé, Zagallo e outros tricampeões já partiram, e os demais companheiros de equipe já carregam no RG muito mais experiência do que cartilagem.