Por Walter Conde
O pó de minério de ferro é apenas a partícula bruta e específica do próprio minério extraído, enquanto o chamado "pó preto" é um termo genérico usado para definir o material particulado acumulado nas cidades portuárias e siderúrgicas, que consiste em uma mistura complexa de partículas de minério de ferro, carvão mineral (usado na siderurgia) e outros óxidos ou resíduos metálicos.
O presidente da ONG Juntos SOS ES Ambiental, Eraylton Moreschi Junior, criticou a forma como o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) apresenta os dados da qualidade do ar na Região Metropolitana da Grande Vitória (ES). Segundo ele, o Índice de Qualidade do Ar (IQAr) divulgado pelo órgão não considera a poeira sedimentável, conhecida popularmente como "pó preto", principal alvo das reclamações de moradores de Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica.
Em entrevista ao Vitória News, Moreschi afirmou que a divulgação do índice pode induzir a população a acreditar que a qualidade do ar está dentro de padrões satisfatórios, quando um dos principais problemas ambientais da região permanece sem a mesma visibilidade.
"O pó preto nunca fez parte do Índice de Qualidade do Ar. Quando o Iema divulga que a qualidade do ar está boa, esse indicador não considera justamente o poluente que mais incomoda a população da Grande Vitória", afirmou.
Segundo o ambientalista, o IQAr é baseado em parâmetros estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), mas não segue as recomendações mais restritivas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para ele, isso dificulta uma avaliação mais fiel dos impactos da poluição atmosférica sobre a saúde da população.
Falta de identificação das fontes
Moreschi afirma que o Estado ainda possui lacunas importantes para identificar a origem do pó preto. Entre elas, cita a ausência de atualização do inventário de fontes industriais, que, segundo ele, não é revisado desde 2015.
Ele também defende a realização do chamado "DNA do pó preto", estudo capaz de identificar a composição das partículas e apontar quais atividades industriais contribuem para sua formação.
"O cidadão conhece os números da poeira sedimentável, mas não conhece exatamente a origem desse material. Esse estudo foi prometido há muitos anos e nunca foi concluído", declarou.
O presidente da ONG também cobra a atualização dos levantamentos sobre qualificação e quantificação da poeira sedimentável, além da implantação de sistemas de videomonitoramento das estações responsáveis pela medição do material particulado.
Dados de fevereiro preocupam
De acordo com Moreschi, os dados oficiais do próprio Iema indicaram aumento significativo da poeira sedimentável em fevereiro deste ano. Segundo ele, a média registrada nas estações de monitoramento ultrapassou 9 gramas por metro quadrado em 30 dias, enquanto algumas estações costumam registrar entre 3 e 4 gramas no mesmo período.
“No mês de fevereiro de 2026, desde setembro de 2018, foi registrado o maior valor somatório de poeira sedimentável nas estações com informações para o período :- 90,16 g/m2.30 dias”, assinalou Moreschi. No Espírito Santo, o Decreto Estadual nº 6.076-R/2025, que regulamenta a política de qualidade do ar, estabelece limite de 10 g/m² em 30 dias. Já em Vitória, a legislação municipal é ainda mais rigorosa, fixando o teto em 5 g/m² no mesmo período.
Para o ambientalista, os números superariam o patamar recomendado pelo Ministério Público do Espírito Santo em orientação expedida em 2023. Ele defende que a redução das emissões ocorra durante todo o ano, independentemente das condições meteorológicas. "A população continua convivendo com gastos extras para limpeza das residências e com problemas respiratórios, como rinite, sinusite e bronquite", afirmou.
Foi diante desses números, tidos por ele como sendo assustadores, que acionou os Ministérios Públicos Federal e Estadual, além de ofício enviado ao governador Ricardo Ferraço (MDB). No documento adverte que o elevado índice de poluição afeta a saúde e qualidade de vida dos moradores da Região Metropolitana, “afetados pela poluição da poeira sedimentável (pó preto)”
Questionamentos sobre novo equipamento
Durante a entrevista, Moreschi também questionou a eficácia de um equipamento de monitoramento contínuo da poeira sedimentável apresentado recentemente. Segundo ele, o sistema ainda não possui certificação ou acreditação técnica que permita sua utilização como instrumento oficial de fiscalização ambiental. Ele afirmou ainda que o equipamento teria sido financiado por empresas do setor siderúrgico.
A Juntos SOS ES Ambiental defende que o Governo do Estado, o Iema e os órgãos de controle adotem, com urgência, medidas como:
atualização do inventário de fontes emissoras de poluentes da região da Ponta de Tubarão;
realização do chamado "DNA do pó preto";
nova qualificação e quantificação da poeira sedimentável na Grande Vitória;
implantação de videomonitoramento das estações de medição;
cumprimento das recomendações expedidas pelo Ministério Público do Espírito Santo sobre o controle da poeira sedimentável.
Outro lado
O espaço permanece aberto para manifestação do Iema, da Vale, da ArcelorMittal e do Ministério Público do Espírito Santo sobre os pontos levantados pela ONG, especialmente em relação aos critérios utilizados para o cálculo do Índice de Qualidade do Ar, às ações de controle da poeira sedimentável e ao andamento dos estudos e programas de monitoramento ambiental na Grande Vitória.