‘O Simpatizante’ exagera em Robert Downey Jr. e em humor esquisito

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ambientada no final e logo depois da Guerra do Vietnã –aliás, da Guerra da América, segundo o ponto de vista dos vietnamitas–, a minissérie “O Simpatizante”, em sete episódios, mostra um comunista infiltrado no exército do Vietnã do Sul. Ele é conhecido como Capitão, é meio vietnamita, meio francês, e é Quando entra meio sem querer no grupo que foge de Saigon, então sob bombardeio das forças comunistas do Norte, para tentar nova vida nos Estados Unidos junto de seu general e familiares, Capitão continua informante dos comunistas, ao mesmo tempo em que encontra uma nova vida no país.

Interessado na filha do general e dividido entre continuar como agente duplo ou se livrar do passado e desfrutar as novas condições, Capitão se depara com o pior e o melhor do novo mundo, o que lhe fascina e assusta ao mesmo tempo.

Adaptação do livro homônimo escrito por Viet Thanh Nguyen, vencedor do Pulitzer em 2015, “O Simpatizante” é dirigido, nos três primeiros episódios, por Park Chan-Wook, diretor do recente “Decisão de Partir” e do original “Oldboy”, entre outros longas controversos. Ele divide o posto de criador com o canadense Don McKellar.

No quarto episódio, o brasileiro Fernando Meirelles assume a direção, e os três últimos são assinados pelo inglês Marc Munden. Ambos mantêm o padrão de estilo estabelecido por Chan-wook.

Logo na chegada aos Estados Unidos, pessoas confundem Capitão com um japonês, dentro da ideia de que “oriental é tudo igual”. Pudera, ele está no interior do Oklahoma, um dos estados mais preconceituosos do país, a caminho de Los Angeles.

“Parem de pedir à marinha americana comidas e bebidas. Aqui não é o Burger King”, diz uma voz no alto-falante do local onde os vietnamitas são recebidos.

O humor da série é esquisito e nem sempre funciona. Por vezes é desconcertante, como no momento em que o protagonista conta para sua colega japonesa que se masturbava com um pedaço de lula.

Muitas vezes o humor é centrado em Robert Downey Jr., que se divide em vários personagens. Quem não gosta do ator –há mesmo quem não o suporte– terá problemas com a minissérie. Há muito de Downey Jr. aqui. Talvez demais, já que ele é um dos produtores.

Há ainda o humor do tipo espertinho, que faz menção à própria realização. Em dado momento, o protagonista-narrador admite para nós, o público, que não testemunhou algumas cenas, mas as imaginou para preencher melhor as lacunas de sua história.

Em alguns momentos, percebemos que esse humor faz parte de algo maior, e a série se torna mais interessante: a crítica à guerra, ao capitalismo, ao comunismo, ao medo do comunismo e ao “american way of life”, que à altura estava em crise moral, militar, social e econômica. Até mesmo ao cinema hollywoodiano sobram algumas farpas.

As alusões a filmes e músicos do período, literais ou não, se enfileiram: “Desejo de Matar”, “Zabriskie Point”, “O Poderoso Chefão”, The Isley Brothers, Todd Rundgren. Um banquete cultural americano.

No quarto episódio, o de Meirelles, a produção de um filme sobre a Guerra do Vietnã se torna central no enredo, com o protagonista trabalhando como consultor vietnamita, em nome de um suposto realismo pretendido pelo diretor, um dos personagens interpretados por Downey Jr.

Do quinto em diante, já distante de seu trabalho como consultor, a indecisão do protagonista volta a se acentuar, ao mesmo tempo que as possibilidades que via nos EUA ameaçam ruir.

Há aspectos interessantes espalhados pelos sete episódios, mas também é notório o enfraquecimento do humor nos capítulos finais, o que acaba por enfraquecer também a violência que rodeia os personagens e o tom mais sóbrio –e sombrio– de algumas cenas, além do fôlego curto que a direção cheia de truques de estilo, imitações e excessos revela.

Os fantasmas que o protagonista vê, por exemplo, não alcançam nem uma dimensão humorística, nem a gravidade do remorso pelo mal causado.

Os espectadores que se deleitarem com os dois ou três primeiros episódios, talvez até o quarto, pela curiosidade da produção do filme, vão seguir antenados, pois a série não cai o bastante para perder quem já foi conquistado.

Os demais talvez prefiram ver ou rever os filmes citados direta, ou indiretamente na série. Uma pena, pois o material literário de origem, que permite uma representação frontal do mal-estar daquela época, e o que se mostra acertado na direção arriscada sugerem que “O Simpatizante” poderia ter sido melhor.

O SIMPATIZANTE

Quando: Estreia no dom. (14) no Max

Elenco: Robert Downey Jr., Hoa Xuande, Scott Ly

Produção: EUA, 2024

Criação: Park Chan-Wook e Don McKellar

Avaliação: *Regular*

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