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Nobel da Paz denuncia 'tortura branca' contra mulheres confinadas em prisões do Irã

FolhaPress 18/06/2024 17:12

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A tortura branca consiste em submeter os prisioneiros a confinamento solitário durante semanas, meses ou até anos, sem poder distinguir se é dia ou noite, em silêncio absoluto, privados de qualquer contato com familiares ou advogados.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Os detentos são vendados toda vez que saem da cela para interrogatórios. Eles só têm a sensação tátil do chão, das paredes e do cobertor áspero da cela. O único cheiro vem da privada imunda.

A ativista iraniana Narges Mohammadi, vencedora do prêmio Nobel da Paz em 2023, passou 135 dias em prisão solitária ao longo de seus quase 20 anos de encarceramento, entre idas e vindas. Foi a partir dessa experiência que Mohammadi, ainda presa em Teerã, resolveu fazer o livro-denúncia "Tortura Branca – Entrevistas com Prisioneiras Iranianas", lançado no Brasil pela editora Instante.

O livro reúne 13 relatos de tortura branca de mulheres que ainda estão detidas ou foram libertadas recentemente no Irã, a maioria ativistas políticas e defensoras de direitos humanos.

"É impossível imaginar como não ver o sol, não sentir a brisa na pele e ter ao seu redor apenas silêncio ininterrupto abalam a vontade de lutar e continuar vivendo", escreve Mohammadi. "Às vezes, as bolhas das feridas do confinamento solitário estouram, às vezes infeccionam, às vezes queimam e, às vezes, o medo vaza em minhas veias. Ainda não existe fim para as feridas invisíveis e não curadas."

Mohammadi recebeu o Nobel da Paz por "sua luta contra a opressão das mulheres iranianas e sua batalha para promover direitos humanos e liberdade para todos". Ela já foi presa 13 vezes e condenada a um total de 31 anos de reclusão.

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A ativista hoje está na famigerada prisão Evin, onde o regime do aiatolá Ali Khamenei mantém muitos dissidentes políticos, alguns deles sem julgamento há anos. Em agosto do ano passado, Mohammadi foi condenada a mais um ano de prisão por ter escrito uma carta denunciando os maus-tratos e abusos sexuais contra mulheres presas nos protestos após a morte de Mahsa Amini. Em setembro de 2022, Amini, 22, morreu sob custódia, após ser presa por ter violado as leis islâmicas que exigem o uso de hijab.

Nesta terça-feira (18), Mohammadi foi novamente condenada pela Justiça do Irã a mais um ano de prisão, dessa vez por "propaganda contra o Estado", segundo uma publicação de seu advogado no X.

Ela não tem contato com seus filhos gêmeos adolescentes, Ali e Kiana, 17, há dois anos. Nenhum telefonema, nenhuma carta. Nos últimos sete meses, não pôde nem sequer falar com seus advogados.

Em entrevista por email à Folha, o marido de Mohammadi, o ativista Taghi Rahmani, relatou o impacto da prisão da ativista. Ele vive exilado em Paris com os dois filhos.

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"A família paga um preço alto pela ausência dela. Ela está separada dos filhos há mais de dez anos, o impacto na vida deles é profundo. Apesar de eles entenderem, o vazio deixado pela ausência dela é inegável e demonstra a crueldade de um sistema que tenta calar qualquer dissidência", diz Rahmani.

Foram os gêmeos Ali e Kiana que leram o discurso de agradecimento da mãe na cerimônia de entrega do prêmio Nobel da Paz, em dezembro do ano passado. O discurso foi contrabandeado de dentro da prisão.

Também foi uma missão de alto risco obter e publicar as entrevistas que constam no livro. Segundo Rahmani, "apesar do enorme aparato de segurança, o livro conseguiu chegar até o público e se tornou uma voz poderosa contra o confinamento solitário".

"A cela tinha apenas três passos de largura. Quando permanecia muito tempo sentada, sentia as paredes se fechando ao meu redor", conta Mohammadi no livro. Ela relembra que à noite, antes de dormir, praticava as lições que havia aprendido nas aulas de canto. "Não ouvia a voz de ninguém havia muito tempo, por isso, quando levantava um pouco a minha voz, ficava surpresa." E acrescenta: "Eu desejava ter um ataque cardíaco só para sair dali."

Outra das prisioneiras, Nigara Afsharzadeh, conta que, quando seu almoço era levado para a cela, ela cortava pedacinhos de arroz e os jogava no chão, "a fim de atrair formigas ou qualquer outra coisa, para me entreter".

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"Eu queria um ser vivo na cela comigo", relembra no livro. "Fiquei muito feliz quando uma mosca apareceu. Tive o cuidado de não a deixar sair quando a porta estava aberta. Eu a seguia e conversava com ela."

A socióloga Zahra Zehtabchi foi mantida em confinamento solitário durante 14 meses. Ela só tinha o Alcorão, que leu 14 vezes. Achou uma caneta escondida em sua coberta e escrevia na parede da cela.

Por ter se convertido ao cristianismo, Fatemeh Mohammadi foi condenada a seis meses de prisão sob a acusação de "atividade cristã e de agir contra a segurança nacional por meio de propaganda contra o Estado". Além disso, foi proibida de frequentar a faculdade de tradução e inglês em Teerã.

Ficou em solitária em uma cela tão pequena que nem dava para andar. Ela tinha depressão, e o silêncio absoluto e a falta de mobilidade pioraram sua condição. Os carcereiros não deixavam que ela tivesse acesso a sua medicação.

"Estas mulheres deixam para a posteridade a maneira como o Estado iraniano tenta separar a alma do corpo de cada prisioneira por meio da tortura branca", diz a historiadora Shannon Woodcock na introdução do livro.

Rahmani, marido de Mohammadi, afirma estar preocupado com a saúde da esposa. "Ela tem 52 anos, passou por uma cirurgia cardíaca há um ano, tem arritmia e precisa de cuidados médicos que as autoridades se recusam a dar."

TORTURA BRANCA: ENTREVISTAS COM PRISIONEIRAS IRANIANAS

Preço R$ 74,90 (208 págs.)

Autoria Narges Mohammadi

Editora Instante

Tradução Gisele Eberspächer

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