O ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), Rubens Barbosa, avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou a defesa da soberania na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e fez um discurso voltado em parte ao público interno. Uma das principais falas do presidente foi a de que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém".
"Ele reitera a posição interna de defesa da soberania, de não aceitar essas áreas de influência. Isso tem de se opor à fala do Trump de usar força militar para preservar interesses dos Estados Unidos. Trump também respondeu indiretamente a isso", avaliou Barbosa. "Isso é retórica de Lula e de Trump. É preciso ver o que vai ocorrer", pontuou.
Para Barbosa, Lula está correto quanto à defesa da soberania e dos interesses do Brasil, evitando interferências externas. Mas, pondera, que o Itamaraty seria mais cauteloso no tom do discurso. "O discurso do presidente representa o que ele fala aqui internamente, uma posição da Presidência da República. O Itamaraty está marginalizado internamente. Muitas coisas que o presidente fala, sobretudo quanto aos Estados Unidos, o Itamaraty não falaria para não acirrar a tensão, como chamar de imperador e que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, o que são recados claros a Trump", analisou o diplomata.
Apesar dos recados de Lula aos Estados Unidos, defendendo o Pix, minerais críticos, citando ingerência externa no processo eleitoral, sem citar diretamente Trump, Barbosa acredita que o discurso do líder brasileiro não agrava a relação já deteriorada com os Estados Unidos. "Depois das eleições, o Brasil precisará começar a negociar com os EUA, inclusive essa questão das áreas de influência, porque o Brasil único país que pode se opor a isso, mas não temos força e excedente de poder, tem de ser conversado. Estamos passando por uma situação complicada na negociação comercial e na crise política diplomática, mas isso não impede o relacionamento, comércio e outros canais de comunicação. Essa situação vai perdurar até sentarmos para negociar com os EUA", defendeu o ex-embaixador do Brasil em Washington (1999-2004).
Para Barbosa, o discurso de Lula não foi uma surpresa e citou ações em curso do governo. "Uma parte do discurso foi sobre a política interna aqui no Brasil, falando para o público brasileiro, citando as eleições. A maior parte foi sobre coisas que o Brasil está fazendo e outra parte foi com comentários sobre a crise internacional, defendendo a ONU, o multilateralismo, os palestinos, criticando Israel e mencionou Venezuela, Cuba e Nicarágua", observou o diplomata.
Barbosa destaca que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também fez um discurso voltado ao público interno. "Trump fez igual com metade do discurso sobre a situação interna dos EUA. Os líderes aproveitam a tribuna da ONU para falar internamente. Lula fez isso, Trump fez isso e todos presidentes do Brasil que passaram pela Assembleia Geral fizeram comentários sobre a política interna", pontuou o ex-embaixador.