Moradores relatam morte e fugas de galinhas, porcos e gado em meio a chuvas no RS

VERA CRUZ, RS (FOLHAPRESS) – Preocupado com a segurança do seu rebanho devido às intensas chuvas na segunda-feira (29) e o consequente prenúncio de enchente, o pecuarista Paulo Fischborn, 58, transferiu suas 213 cabeças de gado bovino de um campo sujeito a cheias na localidade de Mato Alto, distrito de Vera Cruz (RS), para outro mais elevado e supostamente a salvo de inundações.

A medida se revelou inútil. “Às 3h da madrugada de terça-feira (30), fui acordado por amigos que me avisaram que a água havia inundado o piquete”, conta. “Corri para cá e cortei as cercas, para deixar o gado livre para escapar. Ele se espalhou pelos campos ao redor e ainda não sei o que aconteceu com todos.”

Nestas segunda e terça-feira (7), Fischborn voltou à região para contabilizar o prejuízo. “Até agora, encontrei 86 animais mortos”, lamenta. “Calculo meu prejuízo em torno de R$ 300 mil.”

Ainda não há estimativa de quantos animais foram mortos pelas enchentes em todo o Rio Grande do Sul. O que se sabe é alguns números de bichos de estimação, como cães e gatos, resgatados com vida das enchentes. Até esta terça (7), equipes do poder público e grupos de voluntários organizados e liderados por organizações não governamentais já resgataram ao menos 3.500 pets. Eles conseguiram se salvar abrigando-se em árvores, postes, muros, mourões de cercas e outras estruturas elevadas.

No caso dos animais de criação, como bovinos e suínos, ainda não foi possível contar o número de mortos e desaparecidos no estado. Um vídeo, que viralizou na internet, gravado no interior Roca Sales, no Vale do Rio Taquari, a 141 km de Porto Alegre, dá um pálido vislumbre do tamanho da tragédia para os pecuaristas. Num trecho não muito longo de uma estrada rural, ele mostra dezenas de porcos mortos em sua margem.

A impossibilidade de calcular o número de bovinos e suínos mortos também vale para Vera Cruz. “Ainda não é possível fazer uma estimativa dessas perdas”, diz o prefeito do município, Gilson Becker. “Para isso, teremos que esperar as chuvas pararem por completo e as águas baixarem.” Será, então, a hora de contar as mortes e enterrar as carcaças, tarefa que cabe à prefeitura realizar.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar de Vera Cruz, Cristian Wagner, 35 anos, também diz que é “muito difícil” agora ter “um número exato” dos animais mortos. “A região sul do Vale do Rio Pardo, que engloba, entre outros os municípios de Vera Cruz, Rio Pardo e Cachoeira do Sul, que tem o maior número de produtores de gado, continua debaixo d’água”, explica. “Mas pode se dizer que a quase totalidades dos animais dessa área morreram.”

De acordo com Wagner, muitos podem também ter se salvado, no entanto. “Mas não sabemos onde eles estão”, diz. “Podem ter saído de uma região mais baixa, inundada, e terem ido para uma mais alta, livre das águas, mas a qual ninguém hoje tem acesso. Só tenhamos esses números mais perto de quando a enchente baixar e eles voltarem de alguma forma para a sua origem.”

Alguns deles já estão fazendo isso. Wagner cita como exemplo cita os de uma proprietária do Bom Jesus, bairro de Vera Cruz, às margens do Rio Pardinho, que divide o município do de Santa Cruz do Sul. “Os cerca de 80 bois e vacas que ela tinha sumiram quando rio começou a transbordar”, conta. “Agora, devagarzinho eles estão voltando para casa. Até agora, ela conseguiu recuperar 15 animais. Isso deve estar ocorrendo com muitos outros produtores. Por isso, é muito difícil precisar em números as perdas do município de Vera Cruz e da região, mas elas foram significativas.”

O pequeno proprietário Lúcio José Kessler, 67 anos, sabe exatamente o que perdeu. Ele mora com a mulher em Albardão, distrito de Rio Pardo, a 20 km de Vera Cruz, mas tem uma propriedade na várzea de Mato Alto, onde criava galinhas e um porco e passava três ou quatro dias por semana tratando e cuidando dos animais. No final da tarde de segunda-feira, a água começou a chegar no terreiro da casa. “Como em 40 anos ela nunca havia passado dali fui ficando”, lembra. “Mas a enchente subiu tão rápido, que quando percebi, ela estava com quase um metro de altura.”

Então, durante a noite, ele transferiu as 30 aves para um galinheiro no segundo piso, retirou seus dois carros e o porco para um local mais elevado e aguardou seu irmão, que mora na cidade, vir resgatá-lo. “Ainda consegui ver todas as galinhas serem mortas”, conta, com a voz embargada, segurando o choro. “A água chegou quase ao teto da casa. Também perdi três TVs, móveis da cozinha, quarto e sala, tudo. Agora, acho que desistirei dessa propriedade e voltar para Albardão, quando a passagem abrir, e não retornar mais para cá.”

O pecuarista Fischborn, o que perdeu 86 reses, não pensa em desistir da atividade. O gado que ele cria é usado em rodeios, principalmente para torneios de laço. Cada um vale cerca de R$ 3.500. “O jeito é se recuperar do prejuízo e seguir em frente”, diz. “Não dá para largar tudo. Esta é a minha vida.”

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