Modi vence na Índia, mas sai enfraquecido com margem menor no Legislativo

NOVA DÉLI, ÍNDIA (FOLHAPRESS) – A apuração dos votos da eleição na Índia aponta para uma vitória da aliança liderada pelo primeiro-ministro Narendra Modi, no poder desde 2014, mas com um número de assentos muito menor do que no pleito de 2019, ao contrário do que previam as pesquisas de boca de urna.

O BJP, partido do premiê, não obteve a maioria da Lok Sabha (Câmara baixa) sozinho, o que deve enfraquecer muito a legenda. Analistas políticos falavam no “fim da aura de invencibilidade”. Com a vitória, ainda que desidratada, Modi será o primeiro premiê a obter três mandatos consecutivos desde Jawaharlal Nehru, primeiro a governar após o país declarar independência do Reino Unido, em 1947, e que ficou no poder até sua morte, em 1964.

Esse feito está ofuscado pela reversão de expectativas —o BJP esperava conseguir uma maioria histórica de 400 deputados na Câmara, que tem 543 assentos, para implementar grandes mudanças na Constituição, mas deve ficar muito abaixo disso.

Com quatro distritos ainda sem resultado confirmado, a coalizão de Modi liderava com 293 assentos, e a oposição tinha 233. Em 2019, os governistas obtiveram 353 cadeiras, das quais 303 apenas do BJP. O arco opositor, liderado pelo Partido do Congresso (de composição diferente da atual), obteve apenas 91.

“Hoje temos uma vitória para a maior democracia do mundo”, disse Modi a apoiadores. Ele chegou ao quartel-general do BJP e foi recebido por uma multidão de militantes e funcionários do partido que gritavam “Vida longa a Modi” e jogavam confetes. Estava acompanhado de seu braço direito, Amit Shah, ministro de Assuntos Domésticos.

Muitos simpatizantes usavam roupa ou acessórios laranja, a cor identificada com o hinduísmo, que também é adotada pelo partido. Em seu discurso, ele agradeceu aos indianos que trabalharam na eleição sob calor excessivo.

Modi afirmou que, em seu terceiro mandato, a Índia se tornará a terceira maior economia do mundo —hoje ocupa o quinto posto, atrás de EUA, China, Alemanha e Japão. “Não vamos parar até que o setor de defesa seja autossuficiente e vamos incentivar a criação de empregos para os jovens”, disse. Em nenhum momento do discurso ele mencionou a perda da maioria pelo BJP nem de cadeiras pela coalizão.

Mais cedo, em mensagem postada no X, Modi tampouco passou recibo —apenas comemorou a vitória e agradeceu aos apoiadores. “As pessoas acreditaram no NDA [a coalizão] pela terceira vez consecutiva! Isso é um feito histórico na história da Índia”, disse. “Agradeço ao Janata Janardan [maioria do público, em hindi] por seu apoio e asseguro que vamos continuar com o bom trabalho que fizemos nos últimos dez anos.”

A vitória mais apertada que emerge das projeções suscita especulações sobre o futuro da aliança governista. Dois partidos da coalizão de Modi vieram a público declarar que se manteriam coligados. Em entrevista coletiva, no entanto, o presidente do opositor Partido do Congresso, Mallikarjun Kharge, disse que sua coalizão discutiria nesta quarta-feira (5) a entrada de novos aliados para obter maioria no Parlamento.

Em entrevista coletiva, o líder do Partido do Congresso e deputado reeleito, Rahul Gandhi, disse que o resultado era um recado claro para Modi. “Os mais pobres salvaram a Constituição”, disse, referindo-se à votação das castas mais baixas, principalmente no estado de Uttar Pradesh, mais populoso do país.

Os mercados financeiros desabaram em reação ao provável resultado decepcionante do BJP —empresários veem Modi, um defensor das privatizações, como pró-mercado.

Os números expõem, por ora, um erro por larga margem das pesquisas de boca de urna, que projetavam de 353 a 401 cadeiras para a coalizão governista. Para a aliança opositora a previsão era de 125 a 182 assentos.

“As projeções de todos os 543 assentos estão disponíveis. Há duas coisas claras: 1. Será uma derrota política e moral fragorosa para Narendra Modi. 2. Foi revelado que as pesquisas de boca de urna que ele orquestrou eram uma fraude completa”, disse o secretário-geral do Partido do Congresso, Jairam Ramesh, no X.

Em entrevista à NDTV, um porta-voz do BJP, RD Singh, admitiu que o resultado era frustrante. “O estado de Uttar Pradesh realmente foi uma surpresa negativa, mas o BJP avançou no sul e no oeste [do país]”, disse.

Para Yogendra Yadav, um dos poucos analistas políticos a prever um enfraquecimento do BJP no pleito, os eleitores deixaram de votar guiados por questões divisivas, como temas religiosos abordados pelo BJP, e se guiaram pelo bolso. “Foi uma eleição da volta à política da normalidade. As pessoas votaram contra o incumbente por causa do desemprego, da inflação, os problemas dos agricultores”, disse Yadav, que também é pesquisador do instituto CSDS.

Pesquisa de março do instituto indicava que o desemprego e a inflação eram a principal preocupação de mais de 60% do eleitorado. Questões polêmicas como a construção do templo de Ram em Ayodhya, uma reivindicação do eleitorado hindu mais religioso, eram citadas como prioritárias por menos de 10%.

A taxa de desemprego no país fechou em 8,1% em abril, mas entre jovens supera os 40%. A inflação estava em 5% em fevereiro, mas a de alimentos supera 8%.

Determinante para o quadro de frustração do partido de Modi foi a perda de muitos assentos no chamado Cinturão Hindi, região dos estados populosos do norte que o BJP dominou nas últimas eleições.

A legenda esperava que temas religiosos e programas sociais garantissem uma vitória avassaladora como em 2019. Mas as projeções indicavam que a aliança do BJP pode ser derrotada pela coalizão entre o Partido do Congresso e a legenda regional Samajwadi (SP), que liderava em inúmeros distritos.

Modi dobrou a aposta no sectarismo para mobilizar sua base na campanha deste ano. Fez diversos ataques diretos aos muçulmanos, algo que costumava terceirizar para aliados. O premiê se referiu à minoria muçulmana, que corresponde a 14% da população frente os 80% de hindus, usando expressões como infiltrados. Em comício, dirigiu-se a hindus dizendo que a oposição queria “reunir a sua riqueza e distribuir entre aqueles que têm mais filhos”.

O Partido do Congresso acusou a Comissão Eleitoral da Índia de omissão, porque ela não teria agido diante do suposto discurso de ódio de Modi, proibido pelas regras eleitorais.

Segundo Manoj Kumar Singh, editor do jornal Gorakhpur News Line, de Uttar Pradesh, havia enorme frustração dos jovens contra Modi e contra o governador do estado, Yogi Adityanath, devido ao desemprego, à alta de preços e a problemas no programa de recrutamento militar e nos exames para entrada no setor público.

“Não existe mais a mágica de Modi; as pessoas estavam cansadas de só ouvir falar de temas emocionais e religiosos nos últimos dez anos e sentiam que o governo não estava abordando as questões de seu dia a dia”, diz.

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