Ministro da Agricultura diz que governo ‘não tem compromisso com o erro’ em leilão do arroz

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O ministro Carlos Fávaro (Agricultura) afirmou nesta quarta-feira (12) que o governo cancelou o leilão de importação por não ter “compromisso com o erro” e disse que um outro certame será realizado por meio da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Fávaro disse que não há “caça às bruxas” ou “julgamento precipitado” na demissão do secretário de Política Agrícola, Neri Geller, após o episódio. Segundo ele, trata-se de “tolerância zero com o erro”.

“Nós fomos surpreendidos, com as notícias pela imprensa, de uma tendência de informação privilegiada ao ter, no secretário de Política Agrícola, um vínculo familiar entre o presidente da Bolsa de mercadorias do Mato Grosso além de corretora. Ora, não temos compromisso com o erro, infelizmente”, afirmou Fávaro após participar de painel no FII Priority Summit, encontro organizado pelo principal fundo da Arábia Saudita, realizado no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.

O governo federal decidiu anular o leilão de importação de arroz feito neste mês, após indícios de falta de capacidade técnica e irregularidades.

Em entrevista à BandNews TV, nesta quarta, Geller negou ter pedido demissão do cargo e disse que não será “bode expiatório” do leilão de arroz. Ao rejeitar qualquer suspeita de irregularidade no processo, o ex-secretário afirmou que não permitirá que seja jogada no “lixo” a sua experiência de 30 anos junto ao setor agropecuário.

Reportagem do site especializado The Agribiz mostrou que a Bolsa de Mercadorias de Mato Grosso (BMT) e a Foco Corretora de Grãos, que foram criadas no ano passado pelo ex-assessor do então deputado federal Neri Geller Robson Luiz de Almeida França, intermediaram a venda de quase metade do arroz importado que foi vendido no leilão da Conab.

O filho de Neri Geller, Marcelo Piccini Geller, é sócio em outro empreendimento de Robson Luiz de Almeida França.

No evento desta quarta, Fávaro minimizou a possibilidade de instalação de uma CPI no Congresso em razão do caso. Segundo ele, o governo não gastou dinheiro público no leilão.

“CPI é um processo natural do Congresso. Prerrogativa da minoria. Não há o que temer. Só não podemos fazer de algo tão importante, que é alimentação, se torne motivo de palanque político. Não houve R$ 1 de dinheiro gasto”, afirmou.

O ministro afirmou ver “posicionamento ideológico” da indústria por não ter realizado, ela própria, a importação de arroz para garantir o abastecimento em caso de impacto causado pelas enchentes no Rio Grande do Sul.

“Fica muito claro que há um posicionamento ideológico por parte da industria em não querer colaborar com o bom abastecimento de arroz para a população brasileira. Antes da tragédia no Rio Grande do Sul, já temos reportada 72 mil toneladas de arroz da Tailândia ainda assim pagando imposto de 12%, pela iniciativa privada. Se o governo facilitou essa importação, tirando o imposto, não seria mais fácil e equilibrado a própria indústria importar um pouco mais, acelerar o processo, manter um bom abastecimento e garantir estabilidade. Fizeram isso no governo passado”, afirmou ele.

“Por que ninguém tomou uma atitude de importar um pouquinho, se tivesse com dificuldade logística, para sair com o arroz do Rio Grande do Sul nesse momento, ao invés de sobrepreço? Por que a indústria não importou? Por que não cumpriu seu papel de garantir o abastecimento tranquilo e seguro?”

O ministro afirmou que a Conab vai assumir a organização do certame a ser realizado, em vez de repetir o modelo do leilão por meio de Bolsas de mercadorias e cereais.

“A prerrogativa dada no edital que a Bolsa cadastre os possíveis interessados causa ao governo e ao mercado uma surpresa de saber quem operou só depois de o leilão acontecer. A Conab vai trazer para si esse cadastro, a habilitação dos ‘players’, para que a gente possa ter um leilão mais eficiente com mais efetividade para chegar e cumprir o papel de não deixar faltar arroz para a população brasileira com preço equilibrado”, disse ele.

O ministro criticou o que considera um movimento especulativo no preço do grão.

“Governo não tem compromisso com o erro. É fato que estamos diante de um momento excepcional. Reconhecemos que a safra brasileira é mais ou menos suficiente com a demanda brasileira. Portanto não faz sentido nenhum, ao final da safra, no momento que os estoques estão postos, ter aumento de preços exacerbados como tivemos, logo após a tragédia. 30%, 40%”, afirmou ele.

“Há evidentemente um movimento especulativo, de ganhar dinheiro com a tragédia. Um movimento de desestabilização da economia, da população. O governo tem que, com cautela, com responsabilidade, responder à altura da população como vai fazer.”

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