Mães de primeira viagem precisam se informar sobre violência obstétrica e direitos, dizem especialistas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A decisão de gestar é algumas vezes natural, outras simplesmente acontece. Quando a pessoa engravida, há uma explosão de transformações físicas e mentais. Estar bem informado sobre gravidez, parto e puerpério é a melhor forma de se preparar para passar por esse período –principalmente para pais de primeira viagem.

“É preciso entender que existem aspectos que podemos ajustar durante a gestação, mas também reconhecer que muitas coisas estão fora do nosso controle, especialmente para quem está tentando engravidar. O tempo varia muito de pessoa para pessoa –algumas engravidam rapidamente, enquanto outras não, porque esses fatores não estão completamente sob nosso controle. É fundamental se informar sobre o processo”, diz a obstetra Larissa Cassiano.

A educadora perinatal Mariana Coraiola e a médica destacam que, de maneira geral, a informação é um recurso valioso nessa fase.

Entenda seus direitos

Durante a gravidez, é essencial conhecer as leis trabalhistas que contemplam gestantes, como a licença maternidade de 120 dias, que pode ser estendida por mais 60 dias após a alta hospitalar caso o bebê seja prematuro.

E desde o começo da gestação até cinco meses após o parto, é um direito a estabilidade no emprego e não é possível a demissão sem justa causa. A gestante também tem direito a faltar ao trabalho para consultas e exames médicos, com devida justificativa.

Além disso, caso a função exercida ofereça algum risco à saúde da gestante ou do bebê, é possível solicitar uma mudança temporária de cargo. Em termos de saúde pública, a gestante tem direito a acompanhamento pré-natal pelo SUS (Sistema Único de Saúde) ou pelo seu plano de saúde.

Desde de 27 de novembro de 2023, a Lei Orgânica da Saúde “permite a presença de um acompanhante tanto nas consultas pré-natais quanto no parto. Muitas pessoas pensam apenas na presença do acompanhante durante o parto, mas ele também pode estar durante as consultas”, afirma Cassiano.

Ela diz que isso pode “pode ajudar a inibir a violência obstétrica, pois a presença de uma segunda pessoa, que observa a situação de uma perspectiva diferente, pode proporcionar suporte e aumentar a segurança da gestante”.

Violência obstétrica não é apenas física

“Eu considero que a violência obstétrica tem um lugar muito sutil e que vai muito mais da percepção da pessoa, do que ela sente, para o entender o contexto”, explica Larissa Cassino. Práticas obstétricas como episiotomia, manobra de Kristeller e uso de ocitocina sem indicação são comuns “mas também existem formas de violência obstétrica mais sutis”, completa

Existem vários tipos de violência obstétrica, incluindo física, discriminatória (por cor, religião, etnia, gênero, classe, idade, doenças, instrução), verbal e psicológica. “Infelizmente, a gente ainda tem muita violência verbal e psicológica no Brasil. Há também violências de gênero, não só contra as mulheres, mas homens trans que estão gestando”, afirma Mariana Coraiola.

“Neste caso, temos um acúmulo de violência. Além de violência obstétrica, há também a transfobia. Isso acontece tanto no SUS como no sistema privado e não está ligada exclusivamente ao status financeiro, mas a diversas camadas da sociedade.”

Coraiola cita, inclusive, a importância de entender os processos do parto, algo fundamental também para compreender os tipos de violência que podem ocorrer neste contexto. Ela cita que no Brasil há uma tendência de focar preparativos como enxoval e chá revelação, enquanto o parto é deixado nas mãos dos profissionais de saúde, o que pode ser problemático.

“A única pessoa que vai passar pelo parto é a gestante, e ela precisa se preparar e entender o processo. Na humanização do parto, enfatiza-se que quem ‘faz’ o parto é a pessoa que está parindo, não os profissionais de saúde que apenas assistem”, completa.

Coraiola afirma que a preparação, além de importante para uma boa experiência de parto, é fundamental para reduzir a violência obstétrica. O pós-parto é outro ponto que precisa de atenção, principalmente em gestações de primeira viagem.

Rede de apoio é fundamental

A especialista de marketing e bióloga Giovanna Cancian, 30, mãe de Filippo, conta que sentiu falta de informação sobre o puerpério e gestações reais. “Descobri o puerpério quando comecei a trabalhar no SUS, nunca tinha ouvido falar disso antes”, conta.

Ela também destacou a pressão social para minimizar os desafios da maternidade e como a realidade é diferente do que muitas vezes é dito. “Especialmente sobre os desafios que surgem após o nascimento do bebê.”

Cancian menciona que foi atrás de entender mais sobre o parto e pós-parto, e recomenda que gestantes assistam à série de documentários “O Renascimento do Parto”, indicado também pela doula Mariana Coraiola.

A especialista destaca que planejamento e rede de apoio são grandes aliados do puerpério. Ela ressalta que o choque com a realidade desse período pode ser mitigado com a ajuda de doulas, consultoras de amamentação e psicólogos perinatais, e enfatiza a necessidade de validar os sentimentos ambíguos que muitas mães experimentam nesse período.

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