Madonna fez da praia de Copacabana a maior pista de dança do mundo

Foto: Fabio Motta/FP

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Se Madonna não tivesse subido ao palco gigante montado na praia de Copacabana, neste sábado (4), só sua presença no Brasil, e a iminência do show, já teriam sido suficientes para chacoalhar o país. Mas, com quase uma hora de atraso, ela estava lá, reluzente, recebida sob os berros de uma multidão de dimensões raras nas areias do Rio de Janeiro –cerca de 1,6 milhão de pessoas, segundo a Riotur, empresa de turismo vinculada à prefeitura.

Começou com Bob the Drag Queen, companheiro de Madonna nesta turnê, pedindo para a música parar. Ele então fez um breve discurso sobre a vida da cantora, enquanto o telão mostrava imagens de momentos icônicos de sua carreira.

O show seguiu o roteiro já conhecido da turnê “The Celebration Tour”, em que Madonna faz uma espécie de teatro, dividido em atos, da própria trajetória, sua primeira apresentação de retrospectiva da carreira. Até as surpresas para o público brasileiro eram conhecidas, já que ela não teve como ensaiá-las de maneira privada, e tudo que ela preparou virou notícia.

Foi o caso das homenagens a Cazuza e Renato Russo, entre outras personalidades, que morreram em decorrência da Aids, em “Live to Tell”. As imagens deles surgiram no telão enquanto Madonna era suspensa por uma plataforma no palco.

Antes disso, ela já havia cantado “Nothing Really Matters” e seu primeiro single, “Everybody”, antes de parar para conversar com a plateia. Com uma cerveja na mão, disse que seu português era “uma merda”, mas disse “caralho” na língua falada no Brasil.

Disse que o show era mágico, que o Rio é o lugar mais lindo do mundo, e que iria contar a história de sua vida. Lembrou-se de quando chegou em Nova York, com pouco dinheiro e muitos sonhos, quando era uma pessoa “brava, corajoso, ingênua, idealista, ridícula”, mas que tinha um sonho.

Cantou “Burning Up” e “Into the Groove”, recordou de quando tinha uma banda punk e cantava no CBGB. Não foram as músicas mais cantadas pelo público no Rio, mas deram uma ideia da garota inquieta e desbocada que queria fazer –e fez– o mundo dançar.

Se em “Hung Up” Madonna já havia causado alvoroço em Copacabana, a performance de “Vogue” foi a mais bem acabada representação do seu poder de fazer dançar. Ela chamou Anitta para atuar como jurada de uma espécie de desfile de ballroom, em que seus dançarinos –e uma de suas filhas, Estere– deixaram o público boquiabertos com os movimentos no palco.

Em termos de visual, o show de Madonna é também impressionante. Há fogo contínuo, plataformas suspensas e passarelas que se relacionam com as músicas que ilustram. A estrutura de “Like a Prayer”, com homens suspensos pelos braços em uma plataforma que rodava, foi especialmente impactante.

Mas mais que ferro e madeira, o que importou foi como a parafernalha ficou encantada com os movimentos da cantora e seus dançarinos. Os movimentos milimetricamente ensaiados fazem justiça à dimensão artística de Madonna, que sempre se definiu como artista performática –faz música, artes cênicas, dança, audiovisual, tudo isso misturado.

Como uma criança levada, ela se lembrou que esteve no Rio algumas vezes e conheceu algumas palavras –citou “safada” e “bunda suja”. Disse ainda que o show em Copacabana não tinha a ver com dinheiro e que sentia o amor dos fãs brasileiros “no coração e na boceta”.

Foi saudada em resposta com gritos de “Madonna, eu te amo”, no ritmo dos leques batendo.

O Brasil também surgiu vibrante no palco na bateria de crianças de escola de samba e na bunda de Pabllo Vittar. A drag queen maranhense dançou com e levantou Madonna, ambas vestidas de camisetas verde e amarelas, em cenas que ficarão marcadas nas retinas dos brasileiros.

A americana cantou “Music” em versão incrementada pela bateria de escola de samba, num encontro nada usual entre a polirritmia acústica do ritmo brasileiro e a dureza seca do hit eletrônico. Celebrar a vida pela música, como nos desfiles na Sapucaí, ou no pop de Vittar, é a cara de Madonna.

Em um dos momentos mais emocionantes da noite, Madonna se lembrou do amigo Keith Haring, artista que morreu vítima da Aids e faria aniversário neste fim de semana. Ela falou diretamente aos gays brasileiros, e disse que “vou lutar por vocês até o dia que morrer”.

Puxou em seguida “Express Yourself” em versão acústica. Era possível ouvir a plateia gritando a letra enquanto a praia de Copacabana estava iluminada pelas lanternas dos celulares.

Musicalmente, ela entrega o que promete. Usa backing tracks –faixas de backing vocal pré-gravadas– e canta por cima delas, como é comum na música pop. Se não tem banda ao vivo, os graves eletrônicos são um primor –bem, pelo menos para quem estava perto de uma das torres com caixas de som.

É bem verdade, e bastante natural, que Madonna, aos 65 anos, não mexe o corpo como em décadas anteriores. Algumas de suas músicas também soam apenas como uma sombra das versões originais nos remixes apresentados no palco –caso de “Ray of Light” e “Into the Groove”–, ou são cortadas de modo anticlimático –como “Like a Virgin” entremeada em “Billie Jean”, de Michael Jackson.

No show em Copacabana, contudo, foi como se isso pouco importasse. Em carne e osso, para quem estava na área VIP, ou como pixels num telão, para quem estava longe, mais urgente foi o que sua figura e toda a arte que emana dela representam.

É difícil mensurar o impacto de Madonna. Nos últimos dias, a cidade do Rio –recheada de turistas de dentro e fora do país– se transformou a partir da presença da estrela pop. Pessoas se fantasiaram, as ruas foram tomadas por música, festa e uma alegria despudorada que é a cara da artista.

Madonna nunca teve a ver só com canto, dança, videoclipes ou indústria do entretenimento. Na verdade, em seu documentário “Na Cama com Madonna”, de 1991, ela afirma saber que não é a melhor cantora, nem a melhor dançarina. “Estou interessada em mexer com as pessoas, em ser provocativa e política.”

Quando veio ao Brasil pela primeira vez, há 30 anos, Madonna representava um choque para os costumes da sociedade vigente. Parece pouco tempo, mas quando a cantora estava no auge, seu trabalho foi boicotado por uma Igreja Católica mais influente que hoje em dia, além de massacrada de diversas formas pela opinião pública.

Se hoje uma cena de Madonna simulando masturbação, como na turnê “Blond Ambition”, não choca, é também porque a artista triunfou em sua batalha no campo dos costumes. Na primeira vez que ela apresentou “Like a Virgin” na MTV, nos anos 1980, ouviu que sua carreira estava acabada porque mostrou um pedaço da bunda enquanto se abaixava no palco para pegar um sapato que havia caído.

Em Copacabana, ela usou atrizes mascaradas para interpretar a si mesma em diversos momentos da vida. Em “Erotica”, contracenou com “ela mesma” jovem a cena de masturbação na cama. Não dá para dizer que muita gente ficou chocada ao ver a cantora fazer referência à celebração do próprio prazer sexual no palco.

Ela também beijou no palco homens e mulheres –um de seus bailarinos chegou a simular sexo oral em Anitta–, mas nada que não se espere da rainha do pop. Ver Madonna em 2024 é reconhecer a importância de seus gestos que desafiaram tabus para que outras pessoas –muitas delas, na plateia– pudessem também viver sem culpa.

A palavra culpa, aliás, é central para entender Madonna. Descendente de italianos e de criação religiosa, ela parece ter construído uma carreira inteira para se livrar –e, neste processo, livrar outras pessoas– da culpa católica. Culpa de não ser uma mulher submissa, de ter uma sexualidade fluida, de explorar sem limitações o desejo sexual, enfim, de ter prazer no pecado.

Ao cantar para tanta gente em Copacabana, Madonna vislumbrou o impacto de sua arte. Era como se pudesse tocar com as mãos o poder libertino que suas batidas, letras, voz e presença provocam –o sinal verde para que a multidão experimentasse sem culpa a plenitude da pista de dança, mesmo que só por umas horas.

Com seus bailarinos, e como faz há quatro décadas, Madonna criou um espaço lúdico onde destoar da heteronormatividade e da caretice foi mais que permitido –foi regra. Valia tudo, mais ainda se fosse para dançar homem com homem, mulher com mulher.

Em Copacabana, diferente de outras ocasiões, esse espaço tinha o tamanho de um país, a maior pista de dança do mundo.

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