Levante de Guariba, 40, mais famosa greve de boias-frias, mudou relações no campo

GUARIBA, SP (FOLHAPRESS) – A inauguração de uma moderna fábrica para a produção de etanol de segunda geração em Guariba (a 339 km de São Paulo), nesta sexta-feira (24), ocorre no mês em que são completados 40 anos do mais famoso protesto de boias-frias realizado no país, que terminou com 1 morto e 30 feridos e proporcionou a alteração das relações no campo entre empregados e patrões.

O Levante de Guariba, como ficou conhecido, foi um movimento realizado por trabalhadores rurais que enfrentavam precárias condições de transporte, equipamentos de trabalho, alimentação e salários na cidade paulista.

Ex-boias-frias relatam que viajavam nos caminhões que ficaram conhecidos como paus-de-arara sem nenhuma proteção, trabalhavam até 12 horas por dia e bebiam água quente (quando havia). Milhares deles eram migrantes, que viviam em alojamentos insalubres.

Em 15 de maio de 1984, os boias-frias —que ganharam esse nome por comerem comida fria—, já revoltados com o quadro vivido, tiveram como estopim para o agravamento da crise a proposta de quatro usinas de ampliarem de 5 para 7 as “ruas” a serem cortadas pelos empregados no dia a dia.

A medida ampliaria a distância de corte, causaria mais cansaço e uma menor produção para os trabalhadores, que já eram impactados por um anúncio da Sabesp feito no período de alta de quase 500% na tarifa de água.

A cidade da região de Ribeirão Preto, hoje com 37 mil habitantes, tinha pouco mais de 18 mil moradores no início dos anos 1980, e a estimativa do sindicato rural local é que cerca de 7.000 pessoas trabalhavam no corte de cana-de-açúcar. Qualquer alteração econômica, portanto, provocava forte impacto no município.

A greve se transformou, naquele dia 15, numa batalha campal no centro de Guariba, que terminou com um morto —o metalúrgico aposentado Amaral Vaz Meloni— e 30 feridos, 14 deles a bala.

Ele acompanhava sentado nas escadarias do estádio local o desenrolar da batalha campal, que incluiu saques ao comércio, carros incendiados e prédios danificados, quando foi atingido por uma bala perdida na cabeça —até hoje não se sabe quem atirou.

O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, em entrevista anterior à Folha, disse que o levante foi um “ponto de inflexão” nas relações trabalhistas e que, apesar da situação extrema à época, permitiu o equilíbrio para as relações futuras entre empregados e patrões.

O cenário hoje no setor sucroenergético é totalmente diferente no interior paulista. Os boias-frias de antigamente praticamente inexistem, dada a mecanização das lavouras de cana-de-açúcar.

O processo foi acelerado a partir de 2007, com a assinatura do protocolo agroambiental, que previa a eliminação da queima da palha da cana. As queimadas, que facilitavam o corte no campo, eram um contrassenso, já que o setor pregava a produção de um combustível limpo, mas poluía o ambiente para que fosse possível a sua produção.

À época, cada ponto percentual de aumento na colheita mecanizada significava que 702 vagas de trabalho eram extintas no campo, segundo estudo do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria da Agricultura paulista.

Os que permanecem na atividade —normalmente para corte de cana em áreas muito íngremes, que não permitem a entrada de máquinas, ou para o plantio— devem ser transportados em ônibus, ter registro em carteira, água potável, banheiro, equipamentos de proteção individual e um local apropriado para se alimentarem no intervalo da jornada.

Ainda há problemas, porém: 14 pessoas foram resgatadas entre o fim de abril e o início deste mês pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) em Guará, também na região de Ribeirão, sob acusação de condições análogas à escravidão. Os migrantes, de estados como Maranhão, Piauí e Pernambuco, trabalhavam no plantio de cana.

Chegaram à cidade com promessa de custeio de transporte, moradia e alimentação, mas eles mesmos eram obrigados a arcar com os gastos. Dormiam no chão ou em redes em casas precárias, com mofo, e no campo não havia banheiros ou locais para refeição.

O empregador fez acordo com o MPT se comprometendo a pagar as rescisões (R$ 77 mil), além de indenização por danos morais de R$ 4.000 para cada trabalhador, e a custear a passagem de volta para os estados de origem.

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