Leilane Neubarth diz que espectador da Globo quer que jornalista se emocione

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Na minha vida pessoal, sou a única carioca pontual”, diz Leilane Neubarth, de 65 anos, sorrindo ao entrar alguns minutos adiantada para a entrevista por videochamada. “Sou aquela pessoa do programa ao vivo, então eu entro antes”, acrescenta a apresentadora, que acaba de comemorar 45 anos em frente às câmeras, a maior parte deles em programas ao vivo, como um dos rostos mais marcantes do jornalismo da Globo.

Desde 1979 na emissora, com passagens por noticiários como Bom Dia Brasil, Jornal da Globo e Arquivo N, a apresentadora contribuiu com um movimento que possibilitou a humanização de jornalistas, especialmente na TV, que hoje estão mais confortáveis para expressar suas emoções enquanto exercem seu ofício.

“Quando comecei, primeiro que os apresentadores não eram nem jornalistas, todos eram radialistas e havia, sim, essa coisa da impessoalidade, de você ser uma máquina transmissora de notícia.”

Leilane foi a responsável por noticiar a morte da amiga de vida e do trabalho Glória Maria, em fevereiro de 2023. Ela apareceu no Conexão, programa do qual é âncora na Globonews, com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas.

A jornalista diz se orgulhar de fazer parte dessa mudança, que diz não ter vindo “em um memorando da emissora”, mas para atender a uma demanda dos profissionais.

“Ao longo do tempo, imprimi uma necessidade de não fazer cara de paisagem quando dou uma notícia. Você não pode falar que um menino foi arrastado, por bandidos, preso num cinto de segurança num carro como se você estivesse falando que a bolsa hoje caiu três pontos. Não, gente. Não. Acho que o público quer que você seja uma pessoa igualzinha a ele, que se emociona.”

Poder se sensibilizar é algo inegociável hoje, ela diz. “Querer que eu não me emocione, fique indignada, entristecida, feliz, que não chore, está fora de cogitação. Não sou uma máquina. Canso de dizer que, no dia que não me emocionar mais, peço o meu boné e vou para casa. Vou aposentar.”

Por sua credibilidade, construída ao longo dos anos, e por imprimir sua identidade em cada notícia que deu até hoje, Leilane foi convidada para apresentar um especial LGBTQIA+ na TV Globo. Bissexual, a apresentadora recebeu com carinho a missão de conduzir o “Falas de Orgulho”, programa que vai ao ar nesta sexta, expondo a falta de oportunidades e a luta por direitos.

“Quando há uma pessoa em quem os outros confiam, caso de uma jornalista como eu, emprestando sua voz contra a discriminação, isso tem uma força. Por isso que fui chamada [para apresentar o ‘Falas de Orgulho’] e aceitei sem titubear.”

Ela apresenta a terceira edição do projeto, série de especiais que abordam as principais efemérides do ano na grade de programação da TV Globo. O primeiro foi “Falas Femininas”, exibido no Dia da Mulher, e o segundo, “Falas da Terra”, apresentado em 15 de abril, em celebração ao Dia dos Povos Indígenas.

Nesta edição, o programa será dividido em experimentos. No primeiro, os personagens falam sobre suas trajetórias, desafios e situações constrangedoras que viveram ao ocupar espaços que não foram, a princípio, desenvolvidos para eles. No segundo, 12 voluntários fazem uma “corrida de privilégios” para ver quem realmente consegue alcançar a dignidade no país.

Leilane virou notícia em 2021 ao assumir um relacionamento com uma mulher, na época a gestora de projetos Gaia Maria. Ela diz, porém, que passou a se identificar como uma pessoa bissexual antes, pouco depois dos 50 anos. “Os homens andam beligerantes demais, sabe? É difícil você conhecer um mais doce, com um caminho de harmonia. O que me encanta nas mulheres é a delicadeza.”

Ainda que reconheça a importância de usar seu privilégio como uma jornalista respeitada, com espaço na maior emissora do país, para falar sobre sua sexualidade, na tentativa de naturalizar o tema ante a sociedade, ela diz que não é sua função levantar bandeiras diante das câmeras.

“Sabe o que eu não gosto? Uma vez falaram: ‘Vamos fazer uma reportagem sobre a sua namorada?’ Não, não. Se eu tivesse um namorado, ninguém ia fazer uma reportagem sobre ele. Acho que se cria um fato como se fosse uma coisa extraordinária. Não, não é extraordinário. Tenho uma vida amorosa como a maioria das pessoas tem, e a minha vida amorosa não é para virar uma notícia.”

Em abril, a apresentadora foi protagonista de uma polêmica com a jornalista Daniela Lima, com quem divide a apresentação do Conexão. No episódio, Leilane ressaltou para a colega importância de manter a prudência e a isenção em uma conversa sobre o julgamento de magistrados ligados à Lava Jato pelo CNJ, o Conselho Nacional de Justiça.

Ao ser questionada sobre o episódio, ela se limita a dizer que as duas se admiram e se respeitam. “Basta assistir ao Conexão para perceber.”

Não é a primeira vez, no entanto, que Leilane se vê questionada nas redes sociais. “Abandonei o X. Em 2020, comecei a meditar diariamente e a perceber que, por mais que aquela rede seja importante para algumas informações, não queria estar ali exposta. As pessoas odeiam por odiar. Não tem uma justificativa.”

Para ela, há uma expectativa irreal de que os jornalistas sejam integralmente imparciais. “Gente, ninguém é imparcial. Quando você escolhe escrever uma palavra e não outra, está sendo parcial. Se vai falar de uma empresa que foi a primeira num determinado ramo, pode falar ‘esta empresa é a mais velha neste ramo’ ou ‘esta empresa é a pioneira neste ramo’. São duas conotações totalmente diferentes.

Leilane, que acompanhou de perto toda a evolução da TV, brinca que está envelhecendo em HD e 4K. “A edição era analógica, o filme era montado numa moviola. Alguém sabe o que é isso?. O teleprompter, TP, era em folhas de papel mimeografado, que passavam numa máquina precária”, relembrou nas redes.

Mas para ela um dos maiores prazeres de estar hoje na TV é conviver com outras gerações. “Meu editor-chefe, Alexandre Gasperoni, é mais novo que o meu filho mais novo. A TV tem que ser um reflexo da sociedade, com todas as idades, gêneros, raças.”

Ela, porém, diz que a experiência é insubstituível. “Miriam Leitão é uma das pessoas que eu mais respeito. Pensa quantas crises econômicas ela já viu. Vai colocar uma garota de 25, linda, para falar sobre isso? Tudo bem, pode até pôr, mas você não pode abrir mão da experiência da Miriam.

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