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Lei que restringe cidadania cria categoria inferior de italianos, diz deputado

FolhaPress 20/05/2025 18:02

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - "Hoje é um dia de luto. Estamos celebrando o fim de uma relação histórica, de sangue, com a nossa comunidade no exterior", disse o deputado italiano Fabio Porta, do Partido Democrático, de oposição. Ele foi eleito pelos italianos que vivem na América do Sul.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Porta participou da sessão de mais de seis horas na Câmara italiana que, nesta terça (20), confirmou o decreto apresentado pelo governo de Giorgia Meloni que restringe a duas gerações o acesso à cidadania italiana para descendentes que vivem no exterior. Nas diversas intervenções que fez no plenário, o deputado criticou duramente o texto.

"Pela segunda vez no nosso sistema, se consideramos as leis raciais, o governo está legitimando a existência de duas categorias de italianos com direitos e deveres diferentes", disse no plenário, em referência às leis do período fascista, a partir de 1938, que discriminava a comunidade judaica no país, com veto a postos de trabalho e a frequentar a escola.

"É uma comparação forte porque nos leva a uma época de ditadura e hoje não estamos numa ditadura. Mas foi feita uma lei que estabelece a existência de duas categorias de italianos, uma superior e outra inferior", disse à Folha de S.Paulo, logo após a conclusão da votação. "Uns terão todos os direitos, aqueles nascidos e residentes na Itália, outros serão uma categoria de série B que não poderão transmitir a cidadania."

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O governo justifica a medida pela necessidade de coibir o que vê como exageros nos pedidos feitos por descendentes de antigos emigrados que vivem na América do Sul e que não teriam mais vínculo com a Itália. Também acusa agências que oferecem serviços ligados a pedidos de cidadania de comercializarem o direito ao passaporte italiano. E afirma que os interessados na cidadania não têm intenção de morar na Itália, mas sim aproveitar vantagens como livre circulação na União Europeia e entrada sem visto nos Estados Unidos.

Historicamente defendida pelos partidos de ultradireita, a cidadania por direito de sangue sofreu sua maior mudança desde a legislação de 1992. A alteração foi uma iniciativa do governo Meloni, defendida pelo vice-premiê Antonio Tajani (Força Itália). A Liga, de Matteo Salvini, mostrou divergência em alguns pontos durante a tramitação, mas votou a favor do decreto no Parlamento.

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"Acredito que os verdadeiros motivos do governo são outros. Há uma parte de diplomatas que nunca viu favoravelmente a cidadania a milhões de italianos no exterior. E há pressões internacionais", afirma Porta. "Me pergunto: o que mudou desde a campanha eleitoral [de 2022]? O que mudou foi a chegada de Donald Trump [à Casa Branca], com suas leis xenófobas e a vontade de expulsar sul-americanos, muitos com a cidadania italiana."

Para o deputado, haverá uma corrida aos tribunais com recursos questionando o texto do decreto, especialmente pelo caráter retroativo. A nova regra afeta mesmo quem nasceu antes da entrada em vigor do texto, em 28 de março, mas que ainda não tinha a cidadania em mãos. "Quem pensava que esse decreto acabaria os negócios ligados à cidadania vai se arrepender, porque agora haverá os negócios de advogados. Muitos vão buscar fazer valer o próprio direito. A lei é retroativa e, portanto, inconstitucional."

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