Kirchnerismo se perdeu de suas origens, diz Alberto Fernández na Argentina

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – A primeira entrevista de Alberto Fernández na Argentina após deixar a Presidência em dezembro e ser sucedido por Javier Milei exemplificou a atual crise no peronismo, essa força política histórica derrotada nas urnas pelo projeto ultraliberal hoje na Casa Rosada.

Falando ao canal Cenital em conversa transmitida neste domingo (5), Fernández criticou aquela que foi sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, com quem já durante o governo teve frágil relação. Ele diz não falar com ela desde dezembro passado, na posse de Milei.

“O que está em discussão é o que é o kirchnerismo”, disse o advogado investigado por corrupção durante a entrevista de 2 horas.

“Eu me reivindico como um dos fundadores do kirchnerismo; mas o kirchnerismo detestava a dívida pública e trabalhava pelo equilíbrio fiscal. De repente, passou a achar que não é tão mau o déficit.”

À história: Alberto Fernández foi muito próximo ao ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010. Chegou a ser chefe de seu gabinete de ministros durante seu governo, nos anos 2000.

É de Néstor, marido de Cristina, que se originaram as ideias para o kirchnerismo, a corrente do peronismo que se coloca à esquerda. Hoje, por óbvio, é Cristina a principal figura dessa corrente.

Talvez uma das principais diferenças entre a condução do país que defendia Fernández e a que defendia Cristina durante seu governo estivesse no dilema com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

A Argentina tem uma dívida de US$ 44 bilhões com o organismo financeiro, e Cristina era arredia à ideia de negociar com o fundo sobre a dívida feita pelo direitista Mauricio Macri, hoje aliado de Milei.

Fernández disse que há necessidade de renovação política nas fileiras no kirchnerismo ou de novas formas de fazer política. Citou exemplos de alianças incomuns na região que lograram vitória nas urnas, uma delas a de Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB) no Brasil. “Seu vice-presidente é um nome de centro-direita, e eles convivem.”

Em se tratando do Brasil, ele criticou a decisão de Javier Milei de não inserir a Argentina no Brics, grupo de países emergentes. “Milei rechaçou entrar nesse novo mundo”, afirmou ele.

Fernández disse que “a pandemia abriu uma crise antissistema na Argentina e no mundo” e atribuiu aos efeitos da crise sanitária parte da força da direita em algumas nações. Também admitiu que errou no escândalo em que, durante as regras de isolamento social, fez uma espécie de festa na residência oficial do presidente, Olivos.

Além de Lula, mencionou Gustavo Petro, presidente da Colômbia, Andrés Manuel López Obrador, presidente do México que em breve deixa o cargo, Pedro Sánchez, premiê da Espanha e o papa Francisco como lideranças com as quais dialoga sobre os desafios globais.

Na recente rixa entre Milei e um ministro espanhol que afirmou que o líder argentino usaria drogas, Fernández saiu em defesa de Madri.

Ele relutou a falar sobre Javier Milei. Quanto o fez, após insistência do entrevistador e após ensaiar segundos de reflexão para a escolha dos termos, escolheu as seguintes palavras: “Acho que o presidente precisa ser um pouco mais reflexivo; ele é muito impulsivo”.

Milei entra em uma semana de grande importância no Senado, onde três comissões legislativas devem debater a partir de terça (7) sua Lei Ônibus, pacotão de medidas liberais que foi previamente aprovado na Câmara dos Deputados. A expectativa é votar nesta semana na Casa em que o governo tem uma minoria de sete senadores da coalizão de Milei, a Liberdade Avança, e negocia outros apoios.

Acusado de desvio de verba pública, Alberto Fernández teve os bens congelados por decisão da Justiça recentemente. Na entrevista transmitida neste domingo ele negou todas as acusações.

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