José Luiz Villamarim defende remakes, fala de ‘Vale Tudo’ e comenta rumos das novelas da Globo

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Quando chegou à Globo nos idos dos anos 1990, José Luiz Villamarim não imaginava que viraria o gestor da teledramaturgia da empresa 30 anos depois. “Sou um bicho de set”, diz ele ao F5 em entrevista exclusiva, a primeira desde que virou o principal diretor de gênero da emissora, em 2020.

Diretor de novelas como “Avenida Brasil” (2012), “Onde Nascem os Fortes” (2018) e “Amor de Mãe” (2019), Villamarim tem sido testemunha e protagonista de uma série de mudanças na emissora. O fim do grande banco de talentos da Globo se uniu à necessidade de exibir mais diversidade na tela, algo perceptível na tela.

Outra característica do mandato dele tem sido a aposta em remakes e continuações de histórias já contadas pela emissora, seguindo uma tendência mundial. Houve sucessos, como “Pantanal” (2022) e a atual “No Rancho Fundo”, mas também fracassos, como “Elas por Elas” (2024) –que Villamarim admite que precisou ter a rota corrigida para recuperar público, o que só aconteceu na reta final.

Uma nova refilmagem deve vir por aí em 2025, ano em que a emissora completa 60 anos. O remake de “Vale Tudo”, clássico dos anos 1980, está “99% certo” para o horário das nove, segundo o executivo.

Na conversa com o site F5, Villamarim também reflete sobre o atual momento das novelas no Brasil e nega dificuldades para escalar elenco de produções. “Nós estamos renovando o nosso elenco. Sempre gostei de lançar gente. Mas não vamos deixar de ofertar grandes nomes. E a gente oferta”, afirma.

PERGUNTA – Remakes e continuações são uma tendência mundial. No caso da Globo, alguns foram bem-sucedidos, mas houve insucessos também. Isso não liga um alerta para produções futuras do tipo?

JOSÉ LUIZ VILLAMARIM – Sou fã de remake. Já fiz “Anjo Mau” (1997), “Cabocla” (2004) e “O Rebu” (2014). A gente tem uma dramaturgia de 60 anos, e que está aí pra gente usar. Mal comparando com Shakespeare e companhia, são textos clássicos. O Benedito [Ruy Barbosa] é um clássico. Sempre que há a possibilidade de refazer algo dele é bom. Por que não revisitar textos a partir da pauta contemporânea? Evidentemente, fazendo os contrapontos, modernizando, incluindo a rede social, a internet, por exemplo, por que o mundo mudou. A gente tem vontade de fazer outros remakes, sim. Mas a gente não tem uma fórmula de sucesso. Algumas vezes algo vai melhor, outras não. Para mim, “Renascer” está super bem. “Pantanal” foi um buzz, sem dúvida. Em “Elas por Elas”, a gente teve que fazer uma correção no meio do caminho, mas viramos o jogo.

De fato, a audiência subiu na reta final de “Elas por Elas”…

J. L. M. – A gente fez uma correção, o que é da natureza do nosso negócio. Com essa novela, a gente experimentou. Fizemos uma coisa que acho importante: sair da caixinha. Foi uma novela divertida. Cassiano Gabus Mendes nós já havíamos experimentado em “Anjo Mau” (1997), e deu certo. Eu falei: vamos experimentar. Claro que isso dentro de um negócio gigante, que mexe com 70 milhões de pessoas. A gente trabalha com números gigantes. Isso [o erro] vai acontecer. Mas teremos outros remakes.

“Vale Tudo” é um deles?

J. L. M. – Grande chance (risos). [Está] 99% certo. Será o ano dos 60 anos de Globo… Gosto de falar as coisas quando estão confirmadas, mas pode pensar em “Vale Tudo”, sim.

E como seria atualizar uma novela como “Vale Tudo”? A questão da polarização, por exemplo, poderia estar no centro da trama?

J. L. M. – O que tem que ter é o espírito do tempo. O tal do zeitgeist. A gente tem que estar ligado no que está acontecendo. A gente vive num país hoje, como você lembrou, polarizado. Mais conservador por um lado, mais moderno por outro… Como fazer isso é a grande chave. Como é que nós vamos lidar com essa massa brasileira tão diversa.

A gente vive uma realidade em que a Globo não tem mais um grande banco de elenco por questões de mercado. Existe uma dificuldade maior para escalar os atores certos atualmente?

J. L. M. – A gente mudou o modelo de negócio, mas dificuldade eu diria que não existe. Continuamos sendo um lugar atrativo para todo mundo. O que a gente tem é a preocupação de ter uma tela brasileira. Você pode ver o trabalho que a empresa está fazendo. Sempre gostei de lançar, trazer gente nova, de inovar. Isso traz frescor para a tela. A dramaturgia tem alguns princípios que você não pode mexer. Você tem que ter o folhetim, tem que ter o triângulo amoroso, mas você tem que ter frescor. Frescor você traz através de elenco, através de novos autores. Hoje, com a rede social, a gente começa também a pesquisar gente do Brasil inteiro. É necessário que a gente faça isso. É do nosso ofício. Mas a gente não pode deixar de ofertar grandes nomes. E a gente oferta.

Falando em novos autores, que nomes as pessoas devem ficar de olho para os próximos anos?

J. L. M. – É até chato isso, por que posso esquecer de alguns (risos). Mas tem o Elisio Lopes Jr, que está trabalhando com Rosane Svartman em “Elas Fazem Direito” e que trabalhou com o Duca Rachid e foi fundamental pra estruturar e conceituar “Amor Perfeito” (2023). Tem o Juan Julian, um menino novo que já fez um filme conosco e apresentou projetos. Temos também a Renata Martins e a Jaque Souza, do “Histórias Impossíveis”, que estavam na oficina de novos autores de novelas e vão apresentar projetos. Tem a Cleissa Regina Martins, que fez especial de Natal, “Terra e Paixão” (2023) e também concorrendo a vaga para uma novela. Tem Renata Andrade e Thaís Pontes, de “Encantado’s”, também. E Dino Cantelli, de “Vítimas do Dia”. Fiquem de olho.

Vocês estão fazendo oficina para formar autores de novelas para todos os horários?

J. L. M. – Fiz uma oficina das 18h e estou fazendo para as 19h. Mas novela das nove não, porque pra fazer novela das nove, tem que passar antes pela das seis ou das sete. Ou então ser um gênio (risos). Não tenho problema nenhum com os gênios. Nessas oficinas, a gente faz sinopse, vai e volta, um bloco, dois blocos, quantos blocos precisar para ir até o final, para a gente estar seguro, acreditar nesse texto. A gente tem que se estruturar e a gente está se estruturando. Porque é nisso que acredito. Quando a gente trabalha com grade, a gente tem que ter algumas certezas, mas sempre tentando avançar.

Antigamente, havia uma fila muito organizada nos vários horários na Globo. Se sabia a novela que vinha a seguir com uns três anos de antecedência. Isso mudou um pouco. Por quê?

J. L. M. – Acho que tem que paralelizar o desenvolvimento de novelas, sabe? Tenho dois ou três autores pensados. Prevejo, para que eu tenha o mínimo de planejamento, mas, ao mesmo tempo, tenho que ter opções. Prefiro estar assim: ‘Olha, eu gosto dessa e dessa’. É muito melhor do que falar: ‘Eu só tenho essa’. O que estou tentando montar nessa nova Globo é uma estrutura para que a gente sempre tenha duas opções, se não for três. Tem as idiossincrasias também. Você tem tipos de autores. Autores prolíficos, como Mário Teixeira e Walcyr Carrasco, e autores que precisam de mais tempo para fazer suas produções. Ter opção é fundamental para o nosso negócio.

E por que “Guerreiros do Sol” ficou para 2025?

J. L. M. – Vai de acordo com o orçamento, com as decisões estratégicas. Novela na TV aberta você vai ter duas às seis, duas às sete, duas às nove, todo ano, e às vezes uma das onze. Isso a gente sabe. Agora, a gente tem o Globoplay, que acho um negócio admirável. É um trabalho que tem uma estratégia. Foi uma decisão Erick Brêtas passar pra frente. Manuel Belmar, que agora entrou como principal executivo, deixou ali [em 2025].

Autores experientes como Cristianne Fridman e Vivian de Oliveira, que fizeram novelas na Record, entregaram sinopses para a Globo, mas não foram adiante. O que aconteceu?

J. L. M. – A gente avalia todos os projetos que recebe. E torço para que a gente tenha as melhores sinopses do planeta, todas à minha disposição. Nem sempre acontece de ser aprovada, mas a gente recebe, inclusive de novos autores, até de Portugal. A gente conversa com todo mundo. Se você tiver uma sinopse, escreve que eu leio. Ou minha equipe lê. A gente tem um grupo, mas tento ler o máximo possível. A gente quer e precisa de sinopse.

O Guel Arraes, que foi gestor por muito tempo, voltou ao set e está lançando “Grande Sertão”. Pensa em voltar para o set em algum momento?

J. L. M. – Tem três anos e meio que não faço direção, a última foi “Amor de Mãe” (2019-2021). Quando fui convidado para essa posição, pensei que seria muito interessante trabalhar nessa gestão da dramaturgia, com as séries, o núcleo de filmes, as novelas… Mas eu sou um bicho de set. Sem dúvida nenhuma, quero voltar. Adoro dirigir, foi o que me fez chegar onde cheguei.

A gente vive um momento em que existe muita oferta de telas. Ainda faz sentido tentar prender a atenção das pessoas por seis, sete meses?

J. L. M. – Está fácil a nossa vida (risos)… Novela é um hábito. A gente conquistou. Com essa mudança, começa a aparecer um outro jeito, um outro olhar. Estamos experimentando, tentando ver como continuar mantendo esses números. Inclusive, a gente está na meta que se predispôs a colocar para os padrões de hoje com o que está no ar. Mas se conseguirmos entregar tudo o que queremos sem um excesso de certezas é ótimo. Certeza é um negócio perigoso para o que a gente faz.

Você pode dar um exemplo disso na prática?

J. L. M. – Hoje, as pessoas querem ver TV e se identificar. É uma impressão que tenho. Comecei a entender, por exemplo, quando a gente foi fazer “Fuzuê” (2023). Esse negócio da farsa era um negócio que funcionava. Mas, hoje em dia, tenho bastante dúvida. Quando falo que a pessoa quer se ver na tela, a gente quer que ela se veja na tela. Essa é a nossa função para que a gente siga sendo atraente. E continuamos sendo. Os números comprovam isso. Não tem nada de arrogante nisso. É estatístico.

Compartilhe:

Últimas Notícias
Editorias

Assine nossa Newsletter

Purus ut praesent facilisi dictumst sollicitudin cubilia ridiculus.