Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 10h41m
Vitória News — Um jornal de verdade
Exterior

Itália vê alta recorde de entrada de imigrantes e saída de jovens formados

FolhaPress 14/07/2025 08:20

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Nos últimos dois anos, os números de estrangeiros que passaram a viver na Itália e de italianos que passaram a morar no exterior foram os mais altos da última década. Apesar de ter causas diferentes, esse duplo vaivém migratório aparece interligado na dinâmica do mercado de trabalho interno e na crise demográfica que o país enfrenta.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Em 2023 e 2024, segundo o Instituto Nacional de Estatística (Istat), 760 mil estrangeiros se registraram como residentes na Itália, alta de 31% em relação ao biênio anterior. Ao mesmo tempo, a saída de italianos do país subiu 39%, atingindo 270 mil.

"O aumento significativo dos fluxos de imigração estrangeira nos últimos anos é resultado de crises e conflitos internacionais que afetaram os equilíbrios geopolíticos, causando crises humanitárias de grande escala", diz o instituto em relatório divulgado em junho. No total, vivem hoje no país 5,4 milhões de estrangeiros regularizados, 9,2% da população.

Apesar de leve queda desde 2022, ano da invasão russa, a Ucrânia continua como o principal país de origem dos novos residentes, com média anual de 29 mil. Com 43%, o maior aumento foi o de imigrantes africanos, especialmente de Tunísia, Marrocos e Egito. Outra área significativa de proveniência foi a Ásia, com Bangladesh, Paquistão e Índia.

SESC PICASSO

Os números de africanos e asiáticos refletem em parte os desembarques irregulares de pessoas que atravessam o Mediterrâneo com destino à Itália. Após os anos mais duros da pandemia de Covid-19, o país viu crescer os desembarques irregulares, que superaram os 100 mil em 2022. No ano seguinte, outra alta, com mais de 150 mil. Em 2024, houve queda de 57% nas chegadas por mar.

O imigrante que entra de maneira irregular no território italiano pode pedir para ser reconhecido como refugiado e, em caso de resposta afirmativa, deve se registrar como residente, entrando para o número geral da população.

Segundo Livia Ortensi, professora de demografia da Universidade de Bolonha, outro fator, ligado ao mercado de trabalho, explica o aumento recorde de estrangeiros. Desde que assumiu a liderança do governo, a primeira-ministra Giorgia Meloni tem anunciado cotas maiores de vistos para trabalhadores de fora da União Europeia, medida chamada de decreto de fluxos.

CONTADOR - BONUS

"Com os decretos de fluxos aumentaram as entradas legais por motivos de trabalho", afirma Ortensi. No triênio 2023-2025 foram liberados 452 mil vistos. Para os próximos três anos, o governo acabou de anunciar outros 500 mil. Ainda que a conversão das vagas em vistos seja baixa, a medida acaba por atrair estrangeiros por canais legais.

A medida é uma tentativa de preencher postos em áreas carentes de mão de obra, como os setores agrícola, hoteleiro, construção, transporte e assistência doméstica, como cuidadores e faxineiros. "De um lado, no sistema produtivo existe uma falta de trabalhadores de baixa especialização. De outro, os jovens italianos formados vão embora porque outros países oferecem oportunidades melhores", diz Ortensi.

E é assim que os dois fenômenos migratórios se cruzam. Nos últimos cinco anos, a "fuga de cérebros", como é chamada a emigração de jovens qualificados, cresceu de forma constante. Segundo o Istat, entre 2019 e 2023, deixaram o país 192 mil italianos com idade entre 25 e 34 anos. No período, outros 73 mil voltaram a morar na Itália, gerando um déficit de 119 mil.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Entre os jovens italianos formados no ensino superior, os principais destinos são países europeus, com Reino Unido e Alemanha à frente, seguidos por França e Suíça, onde os salários costumam ser maiores que os da Itália.

"Diante dessa perda de jovens, a contribuição dos imigrantes estrangeiros é essencial para os efeitos do fenômeno e para oferecer uma perspectiva mais completa sobre o saldo migratório geral", diz o relatório do instituto. Nos cinco anos analisados, o saldo de jovens estrangeiros na Itália foi positivo em 348 mil. O que, para o Istat, representa um fator-chave para conter os efeitos do declínio demográfico.

"Temos uma crise de natalidade grave, em que a cada ano temos menos nascimentos do que no ano anterior", diz a professora Ortensi. "A imigração é a alavanca mais rápida para tentar atenuar a queda da população, especialmente daquela em idade economicamente ativa."

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas