Isaac Karabtchevsky faz 90 anos, sai em turnê e pede reconhecimento da Palestina

Foto: Ricardo Jaeger/Divulgação

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Não se ouvia nada além do vento, soprando o frescor de sua brisa nas árvores. Era uma manhã de outono e, no alto de uma ladeira na Gávea, na zona sul carioca, Isaac Karabtchevsky se preparava para mais um dia de estudos no escritório da sua casa, incrustada na Floresta da Tijuca.

Figura central da cultura brasileira, o maestro mais importante do país não tem uma fórmula para a longevidade que o mantém no pódio, às vésperas de comemorar, em dezembro, os seus 90 anos.

Talvez o segredo seja o idealismo que deixa transparecer ao pontuar cada frase com um sorriso pacificador, um contraste com a voz grave, a postura ereta e os cabelos ainda esvoaçantes.

Atando as duas pontas da vida, ele combina seriedade, para reger a Orquestra Petrobras Sinfônica, a Opes, na primeira turnê internacional em 49 anos de existência do conjunto, com serenidade, a fim de lidar com os dilemas que o noticiário apresenta à sua música, fundada numa experiência judaica.

Sionista, o maestro está espantado com a guerra entre Israel e Hamas, que já vitimou mais de 30 mil pessoas. “Estou absolutamente convicto de que a solução passará pelo reconhecimento de dois Estados, que sejam civilizados, não basta ter dois Estados”, diz ele.

“Israel tem o direito de se defender, mas precisa renunciar às características ideológicas que fazem com que o país se confronte periodicamente com os povos vizinhos. Tem de se achar uma solução, porque é impossível viver num lugar com essas mortes contínuas e isoladas.”

Diante do horror, Karabtchevsky teme a crescente hostilidade aos judeus no Brasil, mesmo em setores progressistas da sociedade. “Tenho receio de que esse antissemitismo se solidifique na cultura brasileira e se torne um elemento propulsor do ódio”, afirma.

Sua imagem do país, contudo, ainda transfigura a terra prometida em um país tropical, onde as adversidades seriam superadas pela música. “Penso que o Brasil acolheu os meus pais. A minha gratidão não vai mudar. Eu me sinto brasileiro e amo o Brasil.” Não havia outra opção senão reger Heitor Villa-Lobos durante a turnê.

A Opes vai interpretar as “Bachianas Brasileiras nº4 e nº9”, na viagem, que começa daqui a três semanas no Teatro Solís, em Montevidéo, Uruguai, e segue em excursão pela Argentina, onde a orquestra tocará nas cidades de Rosário e Córdoba, antes do concerto no Teatro Colón, de Buenos Aires.

Por ironia, as populares nove “Bachianas Brasileiras”, compostas entre 1930 e 1945, datam de um período neoclássico do artista, que não demonstrou, na série, toda a sua vocação modernista.

É uma ambiguidade que incomoda os maestros ao longo do tempo. “Já pensei muito nessa questão, mas Villa-Lobos não poderia ser indiferente às peripécias contrapontísticas de Bach”, diz o maestro, citando o gênio alemão que inspirou as “Bachianas”. Karabtchevsky diz que Villa-Lobos ainda não é reconhecido ao redor do mundo.

Ao longo de sete décadas de carreira, o regente afirma ter visto momentos de maior projeção, mas sente falta de artistas que levem sua obra para o exterior.

No programa, as peças do modernista brasileiro serão antecedidas pelo “Concerto para Piano nº2”, composto em 1900 pelo russo Serguei Rachmaninoff, com Jean-Louis Steurman como solista. Antes da viagem, a orquestra se apresentará no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Fundada pelo maestro Armando Prazeres, a Opes é, há quase quatro décadas, patrocinada pela Petrobras. À frente do conjunto desde 2003, Karabtchevsky afirma que a prioridade, num primeiro momento, era tornar a Opes conhecida em todo o território nacional, antes de se apresentar em salas de outros países.

São os instrumentistas que definem a administração do conjunto. Nada que tire a autoridade de seu regente. “As minhas ideias sempre são respeitadas sem nenhuma imposição draconiana. Eu sou meio mal-encarado nos ensaios mesmo, porque às vezes perco a paciência.”

Karabtchevsky é de uma época em que nem se cogitava criar uma relação hierárquica menos vertical entre os músicos e o maestro. De todo modo, ele é lembrado como uma influência para as gerações mais jovens.

“Tenho muito orgulho de ter sido seu aluno de regência e, a cada vez que o vejo reger, fico mais assombrado com sua energia e tamanha maturidade musical”, diz Carlos Prazeres, diretor da Orquestra Sinfônica da Bahia, a Osba, e filho de Armando.

O violonista Arthur Nestrovski, que foi diretor artístico da Osesp de 2010 até 2022, enfatiza a importância de cada maestro exercitar o seu carisma para ganhar diferentes públicos, o que, segundo ele, é um diferencial de Karabtchevsky.

“Só Isaac teria carisma bastante para lotar a Sala São Paulo três vezes com uma obra como o ‘Gurrelieder’, de Schoenberg”, diz Nestrovski. Os dois firmaram parceria no projeto das gravações das sinfonias de Villa-Lobos. O violonista define a personalidade do maestro, se valendo de um dito milenar judaico: “mais vida à vida”. Afinal, a arte de Karabtchevsky se inicia em seu nascimento.

Filho de imigrantes ucranianos, ele descobriu a música fundindo o ritmo de sua respiração à de sua mãe, cantora lírica, com passagem pela Ópera de Kiev. Morando numa casa na Vila Mariana, na capital paulista, o menino logo descobriu que o princípio do canto poderia servir para marcar as entradas dos instrumentos. E, na mais tenra idade, intuiu ainda que haveria uma relação entre o som e o gesto. Entre uma aula de eletrotécnica e outra, Karabtchevsky adequou a sua respiração ao oboé.

Aluno de Hans Joachim Koellreutter, o jovem percebeu que seu lugar era no pódio. Embora não fosse religioso, se engajou na implementação do movimento da esquerda sionista, se mudando para Belo Horizonte. Na época, ficou sozinho no país. Toda a sua família se mudara para Israel.

Aos 24 anos, ganhou uma bolsa para estudar regência em Freiburg, quando a Alemanha nazista acabara de perder a guerra. Ali, viu que a música não se dissociaria de sua identidade, amalgamando a sua existência à descendência de três figuras vultosas: Leonard Bernstein, Gustav Mahler e Bruno Walter.

Do maestro alemão, ele diz ter tomado uma lição de humildade. Já no caso do compositor austríaco, a relação é de amor, sem referências psicanalíticas. “Sinto a música de Mahler em minha carne. Não há divisão entre corpo e espírito”, diz. Karabtchevsky importou ao Brasil o pensamento de Bernstein que, nos Estados Unidos, inseriu a música de concerto nos meios de comunicação de massa. Assim, Karabtchevsky apresentou, nos anos 1970, o programa A Grande Noite, na TV Tupi.

A cada transmissão, ele ensinava os elementos da música à audiência. O regente afirma não ter gostado do filme “Maestro”, que tentou contar a vida de Berstein e concorreu ao Oscar. “Deu-se uma maior dimensão à orientação sexual dele do que ao trabalho artístico.” Ele tampouco se animou com “Tár”, em que Cate Blanchett interpretou uma regente mahleriana. “Era caricato às vezes”, diz.

Sendo uma grife, Karabtchevsky se firmou na mesma época à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira, tornando-se rival de Eleazar de Carvalho, de quem fora assistente. Na Osb, ele liderou a primeira turnê internacional de um conjunto brasileiro, tendo regido na Europa e no Carnegie Hall, em Nova York. Ele vê com tristeza a atual fase da Osb, que perdeu relevância no cenário da música.

“Houve um esvaziamento das instituições, tem gente que acha que cultura é desnecessária”, afirma. “Isso provoca em mim repulsa e indignação.” Popular, ele entrelaçaria a sua ética à estética ao criar o Projeto Aquarius, que levou o repertório sinfônico para espaços abertos e anteviu o debate sobre a democratização da música de concerto. Ele regeu, na Quinta da Boa Vista, a ópera “Aida”, de Verdi, para 200 mil pessoas, percebendo que influenciaria as artes que dependem da música.

“A importância dele para o balé é grande, porque ele ajudou a dança a alcançar diferentes camadas da sociedade. Estivemos juntos quando Maurice Béjart interpretou o ‘Bolero’, de Ravel, para uma multidão”, lembra a coreógrafa Dalal Achcar.

“Ele tem um método de manter os cantores sempre em alerta, o tempo é sempre fluido. A tradição é isso, mostrar que a obra está viva”, diz o diretor de ópera André Heller-Lopes, que esteve ao lado de Isaac Karabtchevsky em seis produções.

Foi assim que o maestro trilhou uma carreira internacional, que se iniciou, há 40 anos, com a Orquestra Tonküstler. Logo de cara, Karabtchevsky chegou a Viena, na Áustria, se apresentando no Musikverein, o principal palco dedicado à música de concerto no mundo. Na mesma cidade, regeu óperas na Staatsoper, sendo convidado a assumir a direção do Teatro La Fenice, em Veneza. No ano de 2004, ele ficaria ainda responsável pela Orchestre National des Pays de La Loire, na França.

A ascensão no exterior, nos anos 1980, contrastou com a tristeza. Casado duas vezes, Isaac Karabtchevsky perdeu uma de suas três filhas, vítima de um câncer raro. Antes de abordar o tema, o maestro dá um longo suspiro, se vira na cadeira do escritório e mostra, num porta-retratos em sua estante de partituras, uma fotografia de Mahler com a filha, que morreu também ainda na infância.

“A ternura da imagem ultrapassa a câmera fotográfica e nos transmite uma união histórica. Esse é o amor solidificado em uma imagem”, afirma. A própria morte não parece o assustar. Tendo acabado de estudar as “Quatro Últimas Canções”, de Richard Strauss, ele é dominado pela mesma sensação que o desaparecimento causa ao outro compositor romântico.

“Enquanto falo com você, penso num acorde de Strauss que visualizou o sentido da morte. E, logo quando a cantora pronuncia a palavra ‘morte’, o flautim faz um trilo, como se a vida não terminasse ali e continuasse num outro plano. A vida é aquele flautim lá no fundo”, diz ele, quase se levantando para reger. A morte se transfigura, assim, naquele mesmo sorriso pacificador do maestro Isaac, nome hebraico que significa “ele ri”. Em seus 90 anos, haverá uma comemoração especial.

Em dezembro, será inaugurado o Teatro Baccarelli, em Heliópolis, a maior favela da capital paulista. Na abertura, Karabtchevsky, que está à frente da Orquestra Sinfônica de Heliópolis desde 2011, vai reger a “Sinfonia nº1”, de Mahler. “Preciso viver 150 anos para fazer tudo o que quero”, diz. “Esse não é um teatro para as elites, é um teatro para o povo. Eu quero fazer ópera na favela.”

*O jornalista viajou a convite da Orquestra Petrobras Sinfônica

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