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Irã pode ficar ainda mais isolado com volta de Trump à Casa Branca, diz analista

FolhaPress 25/11/2024 18:50

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A volta de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos deverá isolar ainda mais o regime do Irã, já pressionado devido à guerra no Oriente Médio e ao consequente enfraquecimento de seus grupos extremistas aliados, caso do Hamas e do Hezbollah. É o que diz o analista iraniano Meir Javedanfar, professor na Universidade Reichman, em Israel.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Javedanfar afirma que o novo governo Trump poderá distanciar o Irã da Rússia, atualmente um dos principais aliados do país persa. Caso o presidente eleito concretize sua promessa de encerrar a Guerra da Ucrânia, o republicano também diminuiria a dependência imediata de Vladimir Putin em relação a armamentos iranianos, incluindo drones que são usados em larga escala no conflito. Efeito imediato seria o isolamento ainda maior do regime fundamentalista, que já lida com uma economia debilitada.

"O regime iraniano tem medo [de Trump] também porque sua economia está muito mais frágil do que há quatro anos [quando o republicano encerrava o primeiro mandato na Casa Branca]", diz Javedanfar. "O rial [moeda do Irã] desvalorizou 160% em relação ao dólar nesse período. As pessoas hoje estão mais pobres."

Judeu, Javedanfar nasceu no Irã e se mudou para Israel em 1987, depois de concluir o bar mitzvah (cerimônia que marca a passagem para a vida adulta). Ele está no Brasil e dará palestra a convite da Stand With Us, organização cujo objetivo é apresentar e defender os valores israelenses em todo o mundo.

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Para o analista, Trump goza inclusive de certa popularidade entre os cidadãos iranianos. Embora o republicano tenha implementado sanções pesadas contra Teerã em seu primeiro mandato, foi durante sua administração que as forças americanas assassinaram, em 2020, o influente general Qassim Suleimani, então chefe da guarda de elite e um dos homens mais poderosos do país persa. "Muita gente no Irã gosta do Trump. E isso preocupa o regime porque, a cada dia, mais pessoas querem um regime diferente", diz.

Não será uma surpresa, portanto, se o segundo mandato encorajar mais opositores a desafiar o regime, mesmo que de forma indireta. Há apenas dois anos as autoridades iranianas tiveram de lidar com uma série de protestos que representaram a maior ameaça à liderança dos aiatolás desde a criação da República Islâmica, em 1979.

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As manifestações eclodiram depois da morte de Mahsa Amini, 22, que estava sob custódia da polícia moral do país. Ela foi detida por supostamente não usar o hijab, o véu islâmico, de maneira correta. A família da adolescente diz que ela foi espancada até a morte pelas forças de segurança.

Os protestos arrefeceram após repressão violenta. Organizações que atuam com direitos humanos afirmam que confrontos entre militares e manifestantes deixaram mais de 500 mortes.

No contexto atual, o regime está mais pressionado, afirma Javedanfar. Na visão dele, uma sinalização de que as autoridades passaram a evitar gatilhos que possam despertar novos protestos ocorreu no último dia 19, quando a Justiça iraniana informou não ter aberto ações contra a estudante que havia sido detida em Teerã depois de se despir em público, o que é considerado um dos crimes mais graves no país.

Segundo relatos, assim como Amini, a estudante Ahoo Daryaei teria sido repreendida pela polícia moral por não usar o hijab de forma adequada na Universidade Islâmica Azad. Ela teria se despido, em protesto, depois de uma abordagem violenta da polícia moral. Imagens gravadas por câmeras de segurança mostram a aluna caminhando pelo campus apenas com as roupas íntimas, numa posição de confronto.

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O regime iraniano se limitou a dizer que Daryaei estava doente, foi levada ao hospital e depois devolvida a sua família.

A repressão, no entanto, continua a ocorrer. Em artigo publicado no site Mideast Journal, ele escreve que o líder supremo do país, Ali Khamenei, nutre ódio por Israel arraigado em sua origem familiar e local de nascimento: a cidade de Mexede, onde há, segundo ele, histórico extenso de antissemitismo.

Não sobram outras opções, assim, que não o enfrentamento, segundo Javedanfar. "Até Putin se ofereceu para mediar a crise entre Irã e Israel, mas Teerã recusou. Então, que opção fica?"

O analista, contudo, atribui também a Tel Aviv a responsabilidade pela continuidade da guerra na Faixa de Gaza, iniciada em outubro de 2023 após os ataques terroristas do Hamas e que permanece sem perspectiva de acabar. "Primeiro é o Hamas [o responsável por prolongar o conflito]. Depois, Bezalel Smotrich [ministro de Finanças e um dos mais radicais membros da coalizão do premiê Binyamin Netanyahu] que quer continuar com a guerra até a eliminação total do Hamas", diz. Para Javedandar, isso não é possível. "É como entrar numa favela para tentar destruir todos os membros do PCC."

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