Rival da Seleção vive retorno histórico ao Mundial em meio à crise e tenta surpreender na Filadélfia
O próximo adversário do Brasil na Copa do Mundo carrega uma história que vai muito além do futebol. O Haiti enfrenta a Seleção Brasileira nesta sexta-feira (19), às 21h30, pelo horário de Brasília, na Filadélfia, nos Estados Unidos, pela segunda rodada do Grupo C.
Dentro de campo, o favoritismo brasileiro é evidente. O Brasil aparece entre as seleções mais bem colocadas no ranking da Fifa, enquanto o Haiti ocupa posição bem mais modesta na lista mundial. Ainda assim, a presença haitiana no torneio já tem peso histórico: os Les Grenadiers, como é conhecida a seleção do país, voltaram à Copa depois de mais de cinco décadas de ausência.
Na estreia, o Haiti perdeu para a Escócia por 1 a 0, mas deixou boa impressão. A equipe conseguiu competir, teve momentos de controle da posse de bola e mostrou organização diante de um adversário mais experiente em grandes competições. A derrota apertada manteve o time vivo na chave, mas aumentou a necessidade de pontuar contra Brasil ou Marrocos.
A participação haitiana no Mundial ocorre em meio a uma grave crise política, social e humanitária. O país enfrenta instabilidade institucional, violência armada, deslocamento de famílias e dificuldades econômicas profundas. Para muitos haitianos, a seleção representa uma rara oportunidade de celebração coletiva em meio a um cenário de sofrimento prolongado.
O simbolismo da campanha ganhou ainda mais força antes mesmo da bola rolar. O Haiti precisou alterar o uniforme que usaria na Copa depois que a Fifa considerou inadequados elementos ligados à Batalha de Vertières, marco histórico da luta pela independência haitiana. A imagem foi retirada da camisa oficial usada no torneio, em uma decisão que gerou debate sobre os limites entre memória histórica e mensagem política no esporte.
A relação entre Brasil e Haiti também ajuda a dar peso especial ao confronto. Em 2004, a Seleção Brasileira foi a Porto Príncipe para disputar o chamado Jogo da Paz, amistoso realizado em um momento de grande tensão no país caribenho. A equipe, comandada por Carlos Alberto Parreira, levou nomes como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho e venceu por 6 a 0, mas o placar ficou em segundo plano diante da recepção popular e do caráter simbólico da partida.
Desde então, os laços entre os dois países passaram por diferentes fases. Houve cooperação internacional, presença brasileira em missão da ONU, ações de solidariedade após o terremoto de 2010 e também a chegada de haitianos ao Brasil em busca de refúgio, trabalho e reconstrução de vida. Essa história comum, porém, também inclui debates e críticas sobre os efeitos da atuação internacional no Haiti.
Agora, mais de 20 anos depois do Jogo da Paz, Brasil e Haiti voltam a se encontrar em outro contexto. Para a Seleção Brasileira, a partida é fundamental na busca pela classificação. Para os haitianos, é mais uma chance de mostrar ao mundo uma equipe que não quer ser vista apenas como surpresa ou zebra.
Um dos principais nomes da seleção haitiana é Duckens Nazon, atacante experiente e artilheiro histórico dos Les Grenadiers. Ao lado de jogadores formados também fora do Haiti, ele simboliza uma equipe construída entre a diáspora, a memória do país e a tentativa de transformar o futebol em motivo de orgulho nacional.
O desafio contra o Brasil será enorme. Mas, para o Haiti, estar em campo nesta Copa já significa disputar espaço, visibilidade e esperança. Em uma chave difícil, contra adversários de tradição, a seleção caribenha tenta fazer do Mundial uma vitrine de resistência esportiva e de afirmação de identidade.
A partida desta sexta-feira terá peso direto na classificação do Grupo C, mas também será carregada de simbolismo. De um lado, o Brasil busca a primeira vitória na Copa. Do outro, o Haiti tenta transformar uma trajetória improvável em mais um capítulo de superação.