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Grupo de Haia age para empurrar Israel ao banco dos réus por guerra em Gaza

FolhaPress 20/07/2025 05:45

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma reunião recente do Grupo de Haia, formado por Colômbia, África do Sul e outros seis países em desenvolvimento para atuar contra a guerra de Israel na Faixa de Gaza, pode ajudar a normalizar a opinião de que o que acontece no território palestino é um genocídio, afirma o professor de direitos humanos da London School of Economics e especialista em direito internacional Alonso Gurmendi.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Quanto mais isso acontecer, mais fácil será para a Corte Internacional de Justiça (CIJ) também reconhecer essa realidade", afirma Gurmendi, em referência à ação movido pela África do Sul que acusa Israel de genocídio no órgão judiciário da ONU. O Brasil anunciou na última segunda-feira (14) que vai aderir ao processo.

Os membros do Grupo de Haia, formado em janeiro com o objetivo de pressionar Israel e proteger a atuação da CIJ de ataques, reuniram-se na terça-feira (15) e quarta-feira (16) em Bogotá. O evento contou com a presença de países como Brasil, China, Irlanda, México, Noruega, Espanha, Portugal, Líbia e Turquia, entre outros, na condição de observadores. O grupo tem como membros oficiais Bolívia, Cuba, Honduras, Malásia, Namíbia e Senegal, além de Colômbia e África do Sul.

Ao final do encontro, os membros oficiais do grupo assinaram um comunicado com medidas contra Israel que incluem um embargo de armas e produtos que possam ser utilizados com fins militares, incluindo combustível. Também prometeram rever parcerias públicas com empresas israelenses que atuem nos territórios palestinos ocupados.

A Folha apurou que o governo brasileiro vê a iniciativa do Grupo de Haia com bons olhos, mas que não há previsão de se juntar a ele formalmente.

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A avaliação de pessoas com conhecimento do assunto ouvidas pela reportagem é de que o Brasil não está bem aparelhado, nesse momento, para executar ações como o embargo de exportações que podem ser usadas pelas Forças Armadas israelenses —o país vende petróleo para Israel, por exemplo.

Questionado sobre o encontro, o embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zonshine, disse que seu país não comete genocídio em Gaza. "Lamentamos que pessoas não envolvidas [no conflito] estejam se ferindo, e tentamos evitar atingir [civis]", afirmou.

Para Gurmendi, a pressão do Grupo de Haia pode criar condições que favoreçam o trabalho da CIJ. "Há uma discussão legal e política. Você pode ter a razão jurídica do seu lado, mas os atores da comunidade internacional são entidades políticas que fazem cálculos políticos, e seu posicionamento pode mudar de acordo com o momento. Falar de direitos LGBTQIA+, por exemplo, é diferente hoje do que era nos anos 1990. O direito internacional não mudou, quem mudou fomos nós."

A professora de relações internacionais e especialista em Oriente Médio Monique Sochaczewski, por sua vez, diz que a iniciativa do Grupo de Haia é bem-vinda, mas que dificilmente terá força para pressionar Israel.

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"No cenário atual, parecemos estar de volta ao mundo do século 19, no qual só quem tem força militar atua. Por isso, acredito que o governo Donald Trump é um dos poucos que têm hoje impacto para pressionar [o premiê israelense] Binyamin Netanyahu, além de alguns países europeus, sobretudo França, Reino Unido e Alemanha" para que a guerra em Gaza termine, analisa.

Por outro lado, Sochaczewski diz que esse momento pode estar próximo. "A guerra perdeu a razão de ser, e acabar com o Hamas [objetivo declarado de Netanyahu] é inviável. Devemos ter um cessar-fogo em breve, até para que o projeto de Trump de normalizar relações entre Israel e as monarquias árabes do Golfo Pérsico se concretize."

A professora diz ainda que, quando houver um cessar-fogo duradouro e a liberação da entrada de jornalistas e organizações de direitos humanos em Gaza, o nível de devastação será melhor compreendido, o que levará a mais uma virada da opinião pública internacional contra Israel.

"O sofrimento dos civis em Gaza é imenso, e vamos entender isso melhor quando a guerra acabar. Nesse momento, a situação internacional de Israel ficará ainda mais sensível", afirma.

O encontro do Grupo de Haia em Bogotá contou com a presença da relatora especial da ONU para territórios palestinos, a italiana Francesca Albanese, que recentemente se tornou alvo de sanções dos EUA. Na reunião, Albanese disse que as penalidades "ultrapassaram uma linha" e são a culminação de intensos ataques contra seu trabalho.

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Para Zonshine, o embaixador israelense, Albanese "já mostrou várias vezes que é anti-Israel e antissemita, e sua presença nesse fórum mostra a direção que ele toma: atacar Israel, não procurar uma solução para a situação em Gaza". O diplomata deve deixar o Brasil em agosto, e o governo Lula não autorizou as credenciais do substituto indicado por Tel Aviv, o que deve deixar Israel sem embaixador no país.

Ao site americano JNS, o Departamento de Estado dos EUA disse que Washington "se opõe fortemente a esforços de supostos 'blocos multilaterais' de aparelhar o direito internacional para promover objetivos radicais e anti-Ocidente".

"O Grupo de Haia busca minar a soberania de países democráticos ao tentar isolar e deslegitimar Israel, preparando-se, dessa forma, para atacar os EUA, nossas Forças Armadas e nossos aliados", disse a diplomacia americana.

A representação israelense na ONU disse que os organizadores do evento, "e talvez alguns dos que participaram dele", esqueceram-se de que a guerra em Gaza começou com o ataque terrorista de 7 de outubro, quando o Hamas matou 1.200 israelenses. "Tentar exercer pressão sobre Israel, não sobre o Hamas, é uma farsa moral."

Países que fazem parte do Grupo de Haia

Criado em janeiro, organização tem objetivo de pressionar Israel

- Colômbia

- África do Sul

- Bolívia

- Cuba

- Honduras

- Malásia

- Namíbia

- Senegal

Países que participaram da reunião como observadores

Evento ocorreu nos dias 15 e 16 de julho em Bogotá, na Colômbia

- Argélia

- Bolívia

- Botsuana

- Brasil

- Chile

- China

- Djibuti

- Indonésia

- Iraque

- Irlanda

- Líbano

- Líbia

- Malásia

- México

- Nicarágua

- Noruega

- Omã

- Paquistão

- Portugal

- Qatar

- Eslovênia

- Espanha

- São Vicente e Granadinas

- Turquia

- Uruguai

- Venezuela

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