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Governo Lula vê impasse na Venezuela, resistência a planos e recalibra discurso

FolhaPress 17/08/2024 13:16

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo do presidente Lula (PT) vê a crise na Venezuela ainda sem prazo para acabar e insiste numa alternativa de diálogo pela política, mas o petista viveu uma semana de decepções: a desistência do México de participar das articulações ao lado do Brasil e da Colômbia, a diminuição da expectativa de divulgação das atas eleitorais e o rechaço a propostas aventadas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A situação levou a uma recalibragem do discurso do lado brasileiro, com frases críticas ao regime chavista, com expressões até então inéditas. O próprio Lula chegou a afirmar que se trata de um "regime muito desagradável" e com "viés autoritário".

A avaliação interna no governo é que os ânimos ainda estão exaltados e nenhum dos lados —oposição ou regime— está disposto a aceitar uma solução que não seja o reconhecimento de sua vitória.

Nesta semana, Lula lançou publicamente duas sugestões, ainda embrionárias, para o regime do ditador Nicolás Maduro e para a oposição: novas eleições ou um governo de coalizão. As duas foram rechaçadas por atores internacionais, pela líder da oposição María Corina Machado e pelo próprio Maduro —que sinalizou em suas falas não estar aberto a interferências externas, mesmo de aliados como o brasileiro.

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Auxiliares de Lula minimizam os reveses e dizem que as ideias surgem como balões de ensaio até que algo se sustente nos dois lados da mesa de negociação. O importante é manter a discussão no trilho da política, disse um aliado.

Para isso, integrantes do governo que participam das conversas dizem que há uma lista de itens indispensáveis com o intuito de construir um diálogo entre Maduro e a oposição. Os principais são anistia numa eventual transição de poder e a suspensão de sanções internacionais.

Apesar disso, nenhum desenho de solução parece certo no momento, segundo auxiliares.

O México chegou a integrar com Brasil e Colômbia a frente pela saída diplomática na região, mas deixou o grupo nos últimos dias. Segundo um interlocutor de Lula, a baixa prejudica a iniciativa, mas não a impede.

Outro baque veio dos Estados Unidos. Depois de ser noticiado de que o presidente Joe Biden apoiaria novas eleições na Venezuela, a Casa Branca em seguida distanciou o líder americano da proposta.

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A Venezuela vive uma grave crise institucional, que se agravou com a realização das eleições presidenciais no fim de julho. Maduro foi proclamado reeleito pouco depois do pleito, mas o resultado é amplamente questionado.

O principal impasse no momento é a divulgação das atas eleitorais. Apesar da pressão internacional, inclusive do Brasil, o CNE (Conselho Nacional Eleitoral) segue sem divulgar os documentos.

A falta de transparência e as recusas públicas às propostas aventadas, tanto por Lula como pelo colombiano Gustavo Petro, foram seguidas por uma mudança de postura do lado brasileiro. Na quinta-feira (15), pela primeira vez Lula disse não reconhecer Maduro como vitorioso na eleição.

"Ainda não [reconhece Maduro como vitorioso], ele sabe que está devendo explicação para a sociedade brasileira e para o mundo, ele sabe disso", disse.

"Se ele [Maduro] tiver bom senso, podia tentar fazer conclamação ao povo da Venezuela, quem sabe até convocar novas eleições", acrescentou.

Avançando nesta linha, o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim, declarou em audiência no Senado que não haveria reconhecimento sem as atas.

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Existe uma avaliação crescente de que Maduro permanecerá no poder, pelo menos no curto prazo. Por isso, os atores envolvidos na negociação aumentaram a pressão pela transparência das atas, mas têm consciência que esticar a corda demasiadamente pode levar a uma radicalização do regime.

Os esforços de negociação passaram a incluir no cálculo a decisão próxima do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela sobre a validade das eleições. A presidente da corte, Carylsia Rodríguez, disse no último dia 10 que sua decisão acerca do pleito seria inapelável.

O lado brasileiro e colombiano exigem a divulgação das atas pelo CNE, independentemente do posicionamento da corte, que é bastante influenciada pelo regime Maduro. No entanto, agora há a avaliação de que a decisão, seja ela qual for, vai causar um impacto político que precisará ser considerado nas negociações.

O próprio Lula passou a defender espera da manifestação judicial. "Vamos esperar, porque agora tem uma Suprema Corte que está com os papéis para decidir. Vamos esperar qual será a decisão", disse.

O pior cenário, segundo um interlocutor, é a validação do pleito sem a apresentação das provas. Isso levaria a um acirramento das tensões internas e haveria pouca margem de manobra para Brasil e outros atores.

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