quarta-feira, 29 junho, 2022
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Eleições tentam tirar Líbano da pior crise econômica de sua história

Enfrentando a pior crise econômica de sua história, o Líbano realiza hoje eleições legislativas marcadas pelo mantra da “mudança”. No entanto, com o PIB se contraindo 58%, desde 2019, a inflação anual acima de 200% e um grave problema energético, os votos podem terminar de ser contados no escuro – literalmente -, afetando a confiança no processo.

O país que um dia foi chamado de Suíça do Oriente Médio, em razão de sua política financeira liberal, hoje tem um salário mínimo de menos de US$ 1 ao dia e três em cada quatro cidadãos na pobreza, segundo a ONU. A pequena esperança da população, de ver a situação mudar com as eleições, é vista com ceticismo por especialistas.

ESCASSEZ. “As eleições parlamentares, provavelmente, não vão aliviar a instabilidade política e econômica no próximo ano. Por exemplo, o Banco Central do Líbano (Banque du Liban) enfrenta escassez de liquidez em dólar, o que reduz a capacidade do governo de importar bens básicos, manter a infraestrutura e responder aos desafios socioeconômicos”, afirma Dina Arakji, analista da Control Risks.

A crise energética é um exemplo das dificuldades que a população libanesa enfrenta – e continuam sem solução. O sistema estatal de energia, subsidiado com mais de US$ 40 bilhões na década de 1990, nunca conseguiu prover o país com 24 horas ininterruptas de eletricidade. O medo de ter de terminar a apuração das eleições durante um apagão é real.

“Criaram uma empresa (de energia) incapaz. A população tem hoje entre 4 horas e 6 horas de luz ao dia, por família de classe média. Não estou falando dos ricos. A mesma companhia de eletricidade diz que não vai conseguir segurar a eletricidade para o dia da votação e pede mais dinheiro do que custa todo a campanha política. Agora, imagina uma hora de cortes de eletricidade. Isso pode matar a confiança do povo nas eleições”, explica o historiador Asi Garbarz.

Desde a década de 1990, a situação econômica no Líbano é considerada estável, com impostos muito baixos e políticas neoliberais que, segundo especialistas, favoreceu uma pequena elite dentro e fora do país. No entanto, a falta de investimentos em infraestrutura e políticas sociais ficou mais evidente desde 2019.

“A estabilidade nunca chegou ao povo, com projetos de educação e infraestrutura, por exemplo, e viabilizou a corrupção, que hoje abrange xiitas e a elite muçulmana. Esse sistema financeiro era uma ilusão de estabilidade. Internamente, o PIB sempre foi muito baixo e a dívida nacional sempre foi muito alta. O país era um paraíso para magnatas”, afirma Garbarz.

EXPLOSÕES. A condição de vida da maior parte da população piorou muito desde 2019, quando começaram os protestos antigoverno. Os libaneses que recebem em libras libanesas viram seu poder de compra cair, já que a moeda desvalorizou 90% nos últimos dois anos. O desemprego aumentou, assim como o custo das importações e dos alimentos, o que afeta diretamente as famílias de baixa renda.

A situação piorou com as explosões no porto da capital Beirute, em agosto de 2020, que deixaram mais de 200 mortos e milhares de feridos. Até hoje, ninguém foi punido pela tragédia. “Praticamente todos os riscos que o Líbano enfrentava até agosto de 2020, incluindo os socioeconômicos, foram exacerbados com as explosões, que destruíram cerca de US$ 15 bilhões em infraestrutura na capital”, disse Arakji.

A analista explica que a interferência política nas tentativas de investigação deixou a população ainda mais revoltada, principalmente as famílias das vítimas. “O governo continua sendo a principal fonte da frustração popular, o que leva a protestos frequentes. Os riscos de segurança, como demonstrações e embates armados, continuam no mesmo patamar desde as explosões e não devem mudar após as eleições”, completa.

POPULARIDADE. O Hezbollah, influente grupo xiita libanês, ainda controla uma força militar, parte do dinheiro do país e impediu que seus políticos fossem investigados no caso do porto, mas tem perdido apoio e poder dentro do Líbano. A dúvida agora é o quanto eles vão aceitar de uma eventual mudança após as eleições.

“Há esperança de que o campo sunita ganhe mais poder para liderar o país. A grande questão é em quem a maioria dos cristãos vai votar. Um dos candidatos apoia o Hezbollah, Gebran Bassil, que ganhou poder nas últimas eleições, mas hoje tem um oponente, Samir Geagea, que é cristão, apoia a ala anti- Hezbollah”, afirma Garbarz.

SISTEMA ELEITORAL. Nestas eleições, 1.001 candidatos concorrem aos 128 assentos do Parlamento libanês, um recorde. Assim como o número de expatriados que se registraram para votar: 244 mil, três vezes mais do que em 2018.

No Líbano, o sistema político leva em consideração a divisão étnica do país. Para tentar um equilíbrio, a ideia é que o cargo de presidente fique reservado aos cristãos, o de primeiro-ministro aos sunitas e o de líder do Parlamento aos xiitas.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fernanda Simas
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