terça-feira, 28 junho, 2022
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Oposição síria anuncia primeiro avanço nas negociações em Genebra

GENEBRA – Após um dia de “recesso” nas negociações em Genebra, a oposição síria anunciou que foi dado um “passo positivo” com o governo do país com a abordagem de um governo de oposição, no quinto dia da conferência. O avanço ocorreu na sessão matutina desta quarta-feira, que reuniu as delegações representantes o governo do presidente Bashar al-Assad e da Coalizão de Oposição Nacional. Apesar do passo positivo, as expectativas de um acordo continuam baixas. Mesmo assim, nenhum dos lados quer ser o primeiro a abandonar a conferência, que deve durar até sexta.

– Hoje houve um passo positivo porque pela primeira vez estamos falando de uma autoridade governamental de transição – afirmou à imprensa Luai Safi, um membro da oposição, ao final da sessão.

O regime sírio não reagiu às declarações. O estabelecimento de uma autoridade governamental de transição foi prevista no acordo de Genebra I, adotado em junho de 2012 pelas grandes potências e no centro das discussões em Genebra. A interpretação do documento pelas duas partes em conflito é diametralmente oposta: a oposição considera que Genebra I abre caminho para uma transição sem Assad, enquanto Damasco exclui esta possibilidade e afirma que o texto evoca primeiramente o fim dos combates.

Até agora, os lados encontram grande dificuldade em discutir as questões políticas, principalmente sobre um futuro governo de transição. Há um descontentamento também pelo fracasso em chegar a um acordo sobre medidas de ajuda humanitária, especialmente em relação os moradores da cidade de Homs, onde caminhões das Nações Unidas esperam acesso para entregar comida e remédios.

As conversas de segunda-feira foram interrompidas por um pedido dos representantes do regime após uma declaração condenando o apoio dos Estados Unidos a “terroristas”, pela ajuda de Washington aos rebeldes. A oposição declarou ter apresentando propostas sobre a melhor maneira de avanças as negociações, mas disse que a delegação governista não quis discuti-las. Brahimi anunciou ter cancelado a reunião de terça-feira e convocou as partes para o que ele “esperava que fosse uma reunião melhor”.

– Ninguém está indo embora, ninguém está fugindo – afirmou Brahimi. – Ainda não conseguimos avançar, mas seguimos tentando, e isso é suficientemente bom para mim.

Uma fonte da oposição disse que o regime foi convidado a explicar nesta quarta-feira como eles veem o comunicado de Genebra I que pediu pela formação de um governo de transição.

– Brahimi ontem (terça-feira) foi muito claro: a delegação do governo deve apresentar sua proposta e sua visão sobre Genebra I – explicou a fonte.

Os dois lados foram reunidos num dos maiores esforços diplomáticos até hoje para encerrar a guerra civil que já deixou mais de 130 mil mortos e milhões de desabrigados. A única promessa real foi, segundo Brahimi, que o regime concordou em deixar mulheres e crianças saírem em segurança de Homs, cidade controlada pelos rebeldes, e cercada pelas forças do governo – o que até agora não aconteceu.

Homs está cercada desde junho de 2012, e aproximadamente 500 famílias vivem lá, com bombardeios quase diários e suprimentos escassos. Forças da ONU e da Cruz Vermelha anunciaram estar prontas para entrar com ajuda, esperando apenas uma autorização do regime.

Foram necessários meses de pressão de Washington, que apoia a oposição, e de Moscou, principal aliado internacional de Assad, para unir os dois lados na conferência. Mas, em seu discurso anual do Estado da União o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez apenas uma pequena menção à Síria, dizendo que seu governo continuaria a trabalhar por um futuro “que o povo da Síria merece – um futuro livre da ditadura, do terror e do medo”.

Diferenças são deixadas de lado

Nesta quarta-feira, jornalistas e ativistas que defendem lados opostos na guerra civil síria conseguiram algo que os negociadores ainda não fizeram nesta conferência – deixaram as diferenças de lado e conversaram entre si. Dentro da sala de painéis de madeira onde fica a mídia, delegados que apoiam o presidente e oposição, passam horas diárias juntos, esperando funcionários para fazer declarações. E após dias ignorando uns aos outros, os repórteres começaram a fazer contato visual. Agora, olhares desconfiados passaram a sorrisos educados – e alguns debates.

– Você não não tem uma agenda, ou um plano para construir o país. Você só quer o presidente fora. Isso nos convence não mais – disse um jornalista pró-governo a alguns ativistas em um corredor fora da sala de negociação. – Você pode criticar Assad ou o governo? Você pode dizer que eles cometeram crimes?

A discussão terminou com um ponto em comum: os dois lados concordaram que amam a Síria.

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