Evangélicos dispensam negacionismo climático e culpam homem por mudanças no planeta, aponta pesquisa

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As mudanças climáticas são reais, e não adianta querer colocá-las na conta de Deus: o principal culpado por elas é o homem. Assim pensam evangélicos que participaram de três edições da Marcha para Jesus em 2023, as de Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

As respostas coletadas pelo Iser (Instituto de Estudos da Religião) apontam que posições negacionistas sobre o aquecimento global não prosperam dentro das igrejas. Sugerem, ainda, que boa parte dos fiéis responsabiliza os estragos no planeta ao livre arbítrio que foi concedido àqueles feitos a imagem e semelhança de Deus, de acordo com a narrativa cristã.

A amostra conta com 673 entrevistas, com uma maioria feminina (61%) e negra (62%). Desse grupo, 91% se declararam evangélicos. A margem de erro é de cinco pontos percentuais para mais ou para menos.

A grande maioria acha importante que a igreja trate do tema ambiental —só 2% das mulheres e 7% dos homens discordam dessa premissa. É bom ressaltar que, para muitas das pessoas sondadas, há “um certo desconhecimento relacionado às categorias ‘clima’ ou ‘questões climáticas’”, segundo o estudo assinado por Jacqueline Moraes Teixeira e Lorena Mochel, antropólogas ambas, e o sociólogo Eduardo Santos.

Falar em meio ambiente ecoa melhor nesse público, que vai à igreja ao menos duas vezes por semana e mostra “altíssimo engajamento em sua comunidade de fé”, destaca Teixeira à Folha.

Ainda que de modo geral os evangélicos reconheçam a relevância da agenda ambiental, 6 em cada 10 deles afirmaram que suas igrejas não têm ações voltadas a ela. Não que haja muita clareza aqui sobre o que seriam essas atividades.

Houve quem incluísse ações não relacionadas com o campo, como a distribuição de sopa para pessoas em situação de rua. “Isso pode indicar como a ideia de meio ambiente pode comunicar práticas que não são necessariamente o que comunidades mais especializadas no tema esperariam.”

Entre as pessoas que responderam que, sim, elas existem nos templos que frequentam, várias falavam sobre reciclagem, coleta de lixo e construção de hortas. “Não é simplesmente a questão da amazônia ou temáticas que poderíamos pressupor que apareceriam primeiro”, afirma Teixeira.

O grosso dos evangélicos entende que a humanidade tem culpa no cartório ambiental, e o repertório teológico ajuda a sustentar essa convicção: 43% concordam totalmente, e outros 19% parcialmente, com a frase “mudanças climáticas são reflexo do pecado do homem na Terra”.

A bola é mais dividida quando a pergunta é se desastres como seca e enchentes estão relacionados à volta de Jesus tal qual a profecia bíblica sobre o retorno do messias: 54% aderem em parte ou integralmente à hipótese.

Ok, evangélicos levam a sério a emergência climática. E quem deve resolver os óbices derivados dela? Para 86% dos frequentadores das Marchas para Jesus, o papel cabe ao governo. Aqui é possível dar mais de uma resposta, então 62% também puxam a missão para si e a família, e 42% trazem a igreja para a equação.

A dona de casa Johanna Sinclair, 42, fiel da Primeira Igreja Batista de Campo Grande (MT), diz que quase todos em seu entorno religioso “pensam que é nossa responsabilidade, sim”, a escalada de reveses ambientais. “Vejo uma polêmica na internet sobre os negacionistas climáticos, né? Mas nunca conheci pessoas assim.”

Mentira, ela se corrige. Conheceu, sim. “Acabei de lembrar que tem um grupo de amigas católicas que são negacionistas climáticas.” Como exemplo, envia o print de uma conversa no WhatsApp em que uma das integrantes afirma que a grande enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 1941 “joga por terra a narrativa sobre mudanças climáticas”.

Fato: a cheia do lago Guaíba bateu o recorde histórico em 2024, acima da inundação vista nos anos 1940, quando, por sinal, não haviam sistemas de comportas ou drenagem em Porto Alegre. Fora que o ritmo das enchentes vem acelerando nos últimos anos.

Johanna também resgata “um post dizendo que ia esfriar muito no sul, e comentaram algo assim, ‘depois falam que é culpa do aquecimento global’”. Vale lembrar que o desequilíbrio climático provoca efeitos diversos, como frio extremo e tempestades mais frequentes.

Os fiéis sentem na pele as consequências da barafunda ambiental. Entrevistados pelo Iser relatam como problemas relacionados ao clima afetam seu dia a dia, com algumas distinções regionais. Recife, por exemplo, reclama mais de falta de água, enquanto o Rio sofre com panes reincidentes na energia elétrica.

É verdade que a maioria dos evangélicos votou em Jair Bolsonaro para presidente em 2018 e 2022, e que compõe o bloco que hoje mais desaprova o governo Lula (PT). O alinhamento com o bolsonarismo, contudo, não se replica na agenda verde.

Exemplo: na Presidência, Bolsonaro chegou a dizer que a amazônia não pega fogo porque é “uma floresta úmida”, ignorando o histórico de desmatamento e queimadas na região. Oito em cada 10 fiéis rejeitam a ideia parcial ou totalmente.

Para a antropóloga Teixeira, um dos achados da pesquisa é justamente mostrar como, se no campo dos costumes encontrou em Bolsonaro um grande aliado, o segmento reproduz menos o ethos bolsonarista na questão climática. “Ele não a percebe como uma agenda contaminada seja pela esquerda, seja pela direita.”

Diretora-executiva do Iser, a cientista política Ana Carolina Evangelista lembra que “essa nunca foi uma pauta defendida ou barrada prioritariamente pela bancada evangélica”.

Não que os ventos políticos deixem de soprar. “Hoje é uma bancada, em sua maioria, bolsonarista e de oposição ao Executivo. Alia-se aos interesses da bancada do agronegócio no que diz respeito a pautas de flexibilização da legislação ambiental, anistia a desmatadores, redução da demarcação de terras indígenas etc.”

Daí vermos discursos paradoxais no púlpito.

Pastores expressivos não isentam o homem pelas catástrofes ambientais —Silas Malafaia já pregou que “tornados, tsunamis, tempestades e deslizamentos” são um spoiler do que está por vir, e nada de terceirizar a culpa para o terreno espiritual. “Por que tudo tem de ser considerado castigo divino ou ação diabólica?”

Essas mesmas lideranças nacionais, contudo, não fazem muito para dar protagonismo ao tema. “Elas se alinham com a base no sentido de que raramente você vai encontrá-las se opondo abertamente ao cuidado do meio ambiente”, diz o sociólogo Renan William dos Santos, autor de uma tese de doutorado na USP sobre orientações cristãs para a conduta ecológica.

“Afinal, se a noção de cuidar do meio ambiente é vista positivamente tanto pela massa de fiéis regulares quanto pela maioria dos pastores, por que o tema ainda é tão marginal entre os evangélicos?”, questiona Santos.

Ele chegou à conclusão que, “dadas as articulações que existem entre o campo religioso e o campo político no contexto brasileiro —leia-se, o estreitamento da aliança com o setor do agronegócio e outras frentes de desregulamentação governamental—, direcionar recursos institucionais necessários para alavancar a pauta nos espaços religiosos não é interessante para essas lideranças”.

Na ponta do lápis, a fatura sairia cara. “Se por um lado haveria um custo alto em contrariar a massa de fiéis com a adoção de posturas críticas à agenda ambiental, por outro, haveria um custo tão grande quanto em contrariar o interesse de aliados políticos e econômicos ao se alavancar institucionalmente iniciativas ecorreligiosas coletivas.”

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