Por Marcelo Rossoni
Evair de Melo chegou ao Senado com 982.978 votos, equivalentes a 24,39% dos votos válidos no Espírito Santo. Levou consigo uma trajetória iniciada na administração municipal, ampliada na presidência do Incaper e consolidada em três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados. Sua campanha tinha o que mostrar: trabalho, conhecimento e coerência.
Na comparação municipal apresentada para este artigo, Evair superou Renato Casagrande em 38 municípios, ficou atrás em 39 e empatou em Divino de São Lourenço. Casagrande somou 995.361 votos, ou 24,70% dos votos válidos. Entre os dois, ficaram 12.383 votos e 0,31 ponto percentual. Uma distância pequena no conjunto estadual, embora cada candidato tenha percorrido seu próprio caminho para chegar até ali.
Evair escolheu apresentar serviços prestados ao Estado. Fez uma campanha limpa, sem baixaria e sem transformar divergência em espetáculo de hostilidade. Em temporadas eleitorais, quando tanta gente confunde firmeza com grosseria, essa escolha merece atenção. O desaforo pode render um vídeo bastante compartilhado. Já o trabalho tem a inconveniência de exigir que alguma coisa tenha sido feita antes de ligar a câmera.
Havia, no caso de Evair, matéria para essa conversa. Técnico agrícola, graduado em Administração de Empresas e com MBA em Gestão de Projetos pela Fundação Getulio Vargas, reuniu conhecimento do campo e preparação administrativa. A formação ajuda a compreender seu percurso: alguém acostumado a lidar com produção, planejamento e demandas que dificilmente se resolvem apenas com uma frase bem ensaiada.
Entre 2000 e 2008, foi secretário municipal de Agricultura de Venda Nova do Imigrante. De março de 2009 a abril de 2014, presidiu o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, o Incaper. A passagem pela instituição ampliou o alcance de sua atuação e o contato com os produtores capixabas. Para quem trabalha na terra, a diferença entre anúncio e resultado costuma aparecer com bastante clareza na hora da colheita.
Eleito deputado federal em 2014 pelo Partido Verde, foi reeleito pelo Progressistas em 2018 e 2022. Na Câmara, presidiu a comissão especial que examinou a atualização do marco do saneamento básico e, entre 2024 e 2025, a Comissão de Agricultura. Chegou à disputa pelo Senado com experiência em administração pública e atividade parlamentar, duas credenciais que ganham valor quando vêm acompanhadas de assunto.
O desenvolvimento regional também esteve nesse percurso. Em 2021, Evair apresentou projetos para ampliar a área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene, incluindo uma proposta para abranger todo o Espírito Santo. É uma iniciativa relevante, cujo reconhecimento deve respeitar a cronologia: a inclusão original de 27 municípios do norte capixaba ocorreu em 1998, antes de seus mandatos federais.
O registro correto valoriza o que efetivamente fez. Evair atuou pela ampliação dessa presença, e esse trabalho tem importância própria. A história pública já oferece dificuldades suficientes a quem tenta compreendê-la; convém poupar o leitor de uma troca de etiquetas. Cada iniciativa deve ficar com seu autor e sua data, mesmo quando o calendário se mostra menos generoso que a propaganda.
Foi sobre esse conjunto de experiências que trabalhou a jornalista e consultora de marketing político Jane Mary Abreu Marques. Sua tarefa pedia mais que organizar cargos numa sequência bonita. Um currículo pode estar impecavelmente diagramado e continuar sem conversar com ninguém. O eleitor precisa compreender o que aquelas funções significaram e por que deveriam pesar na escolha de um senador.
Jane encontrou um candidato com identidade definida e uma trajetória que oferecia conteúdo. Na leitura desta campanha, seu mérito esteve em ajudar a dar clareza a esse material, aproximando a experiência de Evair da linguagem do eleitor. Há discernimento em perceber quando a comunicação deve abrir espaço para o personagem. Nem toda mensagem melhora quando recebe mais adjetivos.
A sobriedade favoreceu essa apresentação. Evair pôde mostrar sua ligação com o campo, a preparação administrativa e o aprendizado acumulado na Câmara sem depender de uma coleção de inimigos para explicar a própria candidatura. Jane ajudou a dar forma à mensagem. A firmeza política permaneceu, acompanhada de uma escolha de linguagem que dispensou a baixaria como recurso de convencimento.
Os 982.978 votos pertencem a uma construção coletiva, da qual participaram o candidato, a equipe, os apoiadores e, sobretudo, os eleitores. Seria excessivo atribuir o resultado a uma única decisão ou a uma única pessoa. Mas a dimensão da votação permite reconhecer que aquela apresentação encontrou resposta. Havia experiência para oferecer e houve competência para colocá-la diante do público.
Evair fez do trabalho sua melhor apresentação. Jane ajudou o eleitor a enxergar o que estava sendo apresentado. Em meio a uma política que frequentemente aumenta o volume quando lhe falta assunto, os dois encontraram uma vantagem bastante prática: havia o que dizer. E foi possível dizer sem gritar.