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EUA e Israel miram China ao atacar Irã, dizem analistas

Especialistas questionam narrativa de 'ameaça nuclear' e apontam disputa geopolítica mais ampla

Vitória News 02/03/2026 07:47

A segunda ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em um intervalo de oito meses é interpretada por especialistas como tentativa de enfraquecer o governo de Teerã, conter a expansão econômica da China e reforçar a posição estratégica de Israel no Oriente Médio. A avaliação foi feita por analistas consultados pela Agência Brasil.

Os especialistas contestam a justificativa oficial de que a ação teria caráter “preventivo” diante de supostas ambições nucleares iranianas. A professora de pós-graduação em relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Rashmi Singh, destacou que declarações de enviados norte-americanos ao Oriente Médio foram posteriormente contraditas pelo ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, responsável pela mediação das negociações.

Segundo o chanceler de Omã, o acordo para limitar o programa nuclear iraniano estaria próximo. Um dia antes dos ataques, Albusaidi informou que o Irã aceitou não manter estoque de urânio enriquecido.

“Os EUA e Israel entraram em guerra quando um avanço diplomático e a paz estavam ao alcance. Então, por que agora? Tanto os EUA quanto Israel acreditam que o Irã está fraco e veem isso como uma oportunidade estratégica para instalar um governo mais moderado no país”, afirmou Rashmi Singh.

Para a professora, a guerra teria como objetivo instalar um governo alinhado a Washington no Irã e remover obstáculos à hegemonia de Israel na região.

“Também devemos lembrar que Netanyahu enfrenta eleições gerais ainda este ano e tentará usar o Irã para fortalecer sua posição política. Já vimos nos últimos dois anos de atuação israelense em Gaza, contra o Hamas, como Netanyahu é hábil em usar a guerra, e até o genocídio, não apenas para se manter no poder, mas também para escapar da Justiça”, completou.

O professor de relações internacionais Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, avaliou que “dificilmente” os ataques podem ser explicados apenas pela narrativa de “contenção nuclear”.

“[A guerra] pode afetar especialmente a China, grande importadora do petróleo iraniano, que passa ali pelo Estreito de Ormuz. O conflito combina essa contenção estratégica em relação ao Irã, e também a eterna e tradicional rivalidade regional envolvendo Israel, Turquia, Irã e Arábia Saudita, e, mais recentemente, também os Emirados Árabes Unidos”, afirmou.

Na análise do cientista político Ali Ramos, a nova ofensiva estaria relacionada à incapacidade de derrubar o governo iraniano em conflito anterior.

“Enquanto houver mísseis balísticos e drones iranianos, Israel não terá a supremacia estratégica regional e poderá ser atingido. Além disso, o Irã é o coração do mundo no projeto geoeconômico chinês”, declarou.

Ramos acrescentou que, em caso de queda do governo iraniano, poderiam ocorrer desdobramentos envolvendo o Partido Islâmico do Turquestão Oriental e a região autônoma de Xinjiang, na China.

“O Irã alinhado ao eixo ocidental também concederia uma cabeça de ponte perfeita ao sufocamento e à sabotagem dos projetos de infraestrutura da China na Ásia Central”, completou.

Para o historiador Rodolfo Queiroz Laterza, os Estados Unidos tentam retirar o Irã de uma rota econômica construída por China e Rússia na Eurásia, no contexto mais amplo da disputa comercial entre Washington e Pequim.

O especialista em Oriente Médio Mohammed Nadir, professor da Universidade Federal do ABC Paulista, rejeitou a justificativa de ameaça nuclear.

“O real motivo é acabar com qualquer possibilidade de uma potência pujante no Oriente Médio e manter a hegemonia de Israel. Esta guerra não é uma guerra americana, mas é uma guerra de Benjamin Netanyahu e, por extensão, de Israel, que quer se tornar o hegemônico incontestável no Oriente Médio. E os EUA querem garantir essa primazia a Israel”, disse.

O professor da Universidade de Brasília Roberto Goulart Menezes afirmou que o programa nuclear iraniano é utilizado historicamente como justificativa para ações contra Teerã.

“O Irã faz parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), então o Irã pode ser inspecionado a qualquer momento, sem aviso prévio, pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aeia), e o Irã sempre tem contribuído”, ponderou.

Para Menezes, os Estados Unidos buscam redesenhar o mapa geopolítico regional.

“Trump fala abertamente que nenhum governo hostil aos EUA, que os ameacem de alguma forma, vai permanecer no poder, e ele está aplicando essa política que nós estamos vendo, imperialista, uma política agressiva”, afirmou Roberto Goulart Menezes.

O sociólogo Raphael Seabra explicou que imperialismo é o conceito utilizado quando “um país central se vale de seu maior poderio econômico, político e militar para subordinar países periféricos de acordo com seus próprios interesses”.

As tensões atuais remontam a 1979, quando a Revolução Islâmica no Irã alterou o alinhamento político do país. Desde então, as relações entre Washington e Teerã são marcadas por sanções econômicas e disputas diplomáticas.

Fonte: Agência Brasil

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