Plano prevê acompanhamento de rios e reservatórios até março de 2027, com atenção especial à seca no Nordeste e ao risco de cheias no Sul
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico apresentou um plano de preparação para enfrentar os possíveis impactos do El Niño sobre os recursos hídricos do país entre 2026 e 2027.
As ações previstas incluem reforço no monitoramento de rios e reservatórios, acompanhamento das condições de armazenamento de água, ajustes na operação de sistemas hídricos e adoção de medidas regulatórias em situações consideradas críticas.
O planejamento se estende até março de 2027, período que abrange o verão no Hemisfério Sul e coincide com uma fase em que os efeitos do fenômeno climático podem se intensificar em diferentes regiões brasileiras.
Projeções do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos indicam elevada probabilidade de permanência do El Niño nos próximos meses e apontam possibilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte ainda neste segundo semestre.
Os impactos esperados variam conforme a região. No Sul, a principal preocupação está relacionada ao aumento das chuvas e das vazões dos rios, o que pode elevar o risco de cheias e exigir maior atenção ao nível dos reservatórios, barragens e cursos d'água.
No Sudeste e no Centro-Oeste, o acompanhamento se concentra especialmente na possibilidade de períodos prolongados de calor. No Norte, a atenção estará voltada para o comportamento dos rios da Bacia Amazônica.
O Nordeste aparece como uma das regiões mais sensíveis no planejamento da ANA. A possibilidade de uma estação chuvosa abaixo do esperado entre 2026 e 2027 pode reduzir a recarga de açudes no Semiárido e criar dificuldades adicionais para o abastecimento urbano e para atividades como a irrigação.
Um grupo técnico coordenado pela agência trabalha com diferentes cenários para distribuição da água armazenada nos reservatórios da região. Dependendo da evolução das condições climáticas, poderá haver necessidade de reforçar o bombeamento de água pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco.
O plano também considera possíveis impactos sobre a geração de energia elétrica. A disponibilidade de água nos reservatórios das hidrelétricas terá de ser acompanhada em conjunto com as necessidades de abastecimento, irrigação, controle de cheias e outros usos dos recursos hídricos.
A ANA poderá adotar medidas extraordinárias caso sejam identificadas situações críticas. Entre elas estão a declaração de escassez hídrica em rios e reservatórios de domínio da União, mudanças temporárias nas regras de operação de reservatórios e definição de condições especiais para utilização da água.
Também estão previstas ações específicas nos 57 sistemas hídricos locais do Semiárido nordestino. Reuniões extraordinárias poderão ser convocadas para discutir a divisão da água entre os diferentes usuários caso o volume disponível diminua de forma significativa.
Outra ferramenta prevista são as salas de crise regionalizadas, utilizadas para reunir órgãos públicos, especialistas e operadores de infraestrutura diante de eventos capazes de comprometer a segurança hídrica.
Uma dessas estruturas já funciona na Região Sul, onde o risco associado ao excesso de chuvas exige acompanhamento constante de rios, reservatórios e áreas vulneráveis.
O plano prevê ainda a divulgação de boletins mensais sobre a evolução do El Niño, produzidos em conjunto com instituições responsáveis pelo acompanhamento meteorológico, climático e hidrológico do país.
O Monitor de Secas continuará sendo utilizado como uma das ferramentas para identificar antecipadamente áreas em situação crítica e orientar medidas de prevenção.
A estratégia busca preparar o país para um cenário em que o mesmo fenômeno climático pode provocar falta de água em algumas regiões e excesso de chuva em outras, exigindo respostas diferentes conforme as condições de cada bacia hidrográfica.