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Diversidade na mídia não pode depender de repórteres estrelados, diz jornalista de origem vietnamita

FolhaPress 30/11/2023 08:51

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A jornalista Lam Thuy Vo, que vem ao Brasil para o Festival Piauí de Jornalismo, tem um problema com o estrelismo. Trabalhando em redações nos Estados Unidos, a profissional alemã, de pais vietnamitas, percebeu que o comando do jornal costuma ser formado por aqueles que um dia foram grandes repórteres, mas que não necessariamente se provaram grandes gestores.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Para ela, isso se torna uma questão mais grave quando jornalistas de minorias políticas, ou seja, mulheres, negros, indígenas e asiáticos, começam a pressionar por mais espaço.

Após viver e testemunhar ambientes em que tais grupos, principalmente os não brancos, se sentiam pouco acolhidos no trabalho, ela passou a participar de chats coletivos em que jornalistas choravam as mágoas e se davam conselhos de como navegar num mundo profissional sucateado, mas ainda dominado pela ideia de que o grande repórter é aquele movido pelo talento, que se dedica a uma reportagem por meses.

Lam é uma das profissionais que montaram o site "The Journalists of Color Resource Guide", um guia dedicado aos jornalistas não brancos que reúne as dicas coletadas por ela nesses chats em grupo. O conteúdo é variado e abarca temas como disparidade salarial, pedido de aumento, saúde mental e crescimento na carreira.

A sociedade está mudando, diz a jornalista, e já se tornou um grande caldeirão de culturas. Ela dá um exemplo dos Estados Unidos e sua crescente comunidade latina, em que muito se perde se um jornalista não fala espanhol, mas muito se ganha se ele for de origem hispânica.

SESC PICASSO

"Se queremos usar o jornalismo como ferramenta para entender a sociedade, precisamos de uma imagem mais completa. Isso significa ter habilidades como escrita, uso de dados, investigação, mas exige entender que o acesso é uma questão cultural", diz ela à reportagem.

A defesa da diversidade nas redações não é novidade nem exclusividade de Lam. Mas ela ressalta que, embora as instituições jornalísticas vejam um problema na falta de representatividade racial e busquem contratar mais minorias, "eles ainda ficam nas posições mais baixas".

CONTADOR - BONUS

"Jornalistas no topo não têm ideia de como gerir, mas foram estrelas do jornalismo. Não se constrói um plano para pessoas virarem líderes. É como você não regar uma planta, não adubar", diz. "Hollywood é meio culpada por cultivar essa ideia de jornalista genial, mas quem tem tempo para ser esse personagem? Quando pensamos em equidade, precisamos pensar em quais caminhos estamos pavimentando para a liderança, no desenvolvimento de talento e em um plano de sucesso."

Isso, segundo Lam, significa olhar para sistemas inteiros de trabalho, não só para indivíduos brilhantes. "Tanto o trabalho glamuroso quanto o do dia a dia devem ser divididos igualmente entre todos", afirma. "Oportunidades precisam ser divididas, o que, às vezes, significa ajudar as pessoas a se sentirem prontas para uma posição."

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