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Da hospitalidade à hostilidade, visão de alemães sobre refugiados mudou em uma década

FolhaPress 04/09/2025 08:36

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No outono alemão de 2015, trens vindos da Hungria e Itália chegavam a cada hora na estação central de Munique, trazendo pessoas exaustas que haviam cruzado o Mediterrâneo e caminhado milhares de quilômetros a pé. Muitas vinham com crianças, outras descalças ou feridas. As rotas dos refugiados, pelo mar ou pelos Bálcãs, levavam finalmente ao sul da Alemanha.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Naquela época, acontecia algo que hoje parece improvável: moradores locais davam água, comida e brinquedos para as crianças; a polícia se mostrava solidária; e, por vezes, os migrantes eram recebidos com aplausos.

Essas cenas se tornaram símbolos do debate sobre a política migratória alemã nos anos seguintes. O termo "Bahnhofsapplaudierer" —os que aplaudiam os trens— virou um insulto usado pela direita crítica à migração, assim como "Gutmenschen" (pessoas boas, mas pejorativo —algo como "santinhos").

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Nos primeiros dias, a Alemanha se comoveu com a angústia de muitas pessoas que finalmente pareciam estar em segurança num dos países mais ricos da Europa. Imagens na TV mostravam suas jornadas sofridas; só em abril de 2015, 1.400 pessoas haviam morrido no Mediterrâneo em uma única semana.

Talvez a emoção alemã fosse também por um país que buscava se redimir da história. Uma nação marcada pelo nazismo e ataques a refugiados nos anos 1990 agora demonstrava abertura e humanidade, encabeçada pela primeira-ministra, Angela Merkel, e suas palavras: "Vamos conseguir".

Hoje, 68% dos alemães defendem que o país receba menos refugiados, segundo pesquisa de 2025 da emissora pública ARD.

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Após o pico da crise, com 150 mil chegadas mensais, a solidariedade inicial deu lugar a disputas internas e a uma onda crescente de xenofobia e islamofobia. Movimentos como o Pegida, sigla para Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente, passaram a se manifestar semanalmente nas cidades alemãs. O até então pequeno partido AfD (Alternativa para a Alemanha) encontrou na migração seu tema central, tornando-se a segunda maior força política do país.

Uma virada decisiva ocorreu no final de 2015, em outra estação de trem importante. Em Colônia, o Ano-Novo foi comemorado na praça em frente à estação central e à catedral, com fogos caseiros e bebidas alcoólicas, como é comum nas cidades alemãs. Naquele ano, ocorreram centenas de abusos sexuais contra mulheres: 511 denúncias e 28 estupros ou tentativas de estupro. Os suspeitos eram, em sua maioria, homens de Marrocos e da Argélia, recém-chegados ao país. O episódio aumentou as dúvidas sobre a capacidade da Alemanha de lidar com a crise e inflamou o debate público.

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A mudança de humor também resultou em uma política mais rígida, na Alemanha e na Europa. "O controle das fronteiras externas da Europa ficou muito mais rigoroso nos últimos dez anos –a política de isolamento e de dissuasão se intensificou", diz a socióloga Judith Kohlenberger, da Universidade de Economia e Negócios de Viena, à Folha.

Até hoje, crimes cometidos por migrantes alimentam questionamentos sobre a política migratória. Estudos do pesquisador de mídia Thomas Hestermann mostram que a imprensa exagera na cobertura de crimes envolvendo estrangeiros. "Quando as pessoas não conhecem refugiados pessoalmente, dependem da mídia e de histórias de terceiros", afirma Kohlenberger. "As redes sociais têm um papel central nisso: os algoritmos amplificam conteúdos que geram raiva e escândalo, em vez de informar com equilíbrio."

Assim, diz a socióloga, a migração se torna um tema explosivo, "enquanto a grande maioria dos refugiados, que trabalha e consegue a cidadania, continua invisível".

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