Em cat cafés, convivência antes da adoção ajuda famílias a conhecer o comportamento dos animais e avaliar a compatibilidade
A adoção responsável de gatos envolve uma decisão que vai além da aparência. Conhecer o comportamento, a personalidade e a forma como o animal se relaciona com pessoas e outros gatos pode ajudar a criar expectativas mais realistas sobre a convivência e contribuir para uma escolha mais consciente.
Em São Paulo, a questão ganha relevância diante do número de animais que aguardam uma família. Em abril de 2026, uma ação promovida pela Prefeitura reuniu 96 gatos disponíveis para adoção, dentro de um grupo de 298 cães e gatos atendidos pela Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico.
O processo de adoção considera não apenas o interesse pela aparência do animal, mas também o perfil do futuro tutor e as condições da família para oferecer alimentação adequada, abrigo, cuidados veterinários e acompanhamento ao longo de toda a vida do pet.
Nesse contexto, os chamados cat cafés, estabelecimentos que combinam cafeteria e espaços de convivência com gatos, também passaram a funcionar, em algumas iniciativas, como pontos de aproximação entre animais disponíveis para adoção e potenciais tutores.
No Ronron Cat Cafe, em São Paulo, visitantes podem conviver com os gatos antes de manifestar interesse pela adoção. A proposta permite observar características que nem sempre aparecem em fotografias ou descrições, como nível de sociabilidade, comportamento, preferência por contato e interação com diferentes pessoas.
Para Greice Moreti, cofundadora do espaço e coautora do livro "Quem Adotou Quem?", essa experiência pode mudar a escolha inicial de quem procura um animal.
Segundo ela, algumas pessoas chegam ao local imaginando adotar um gato com determinadas características físicas ou de personalidade, mas acabam criando vínculo com outro animal depois da convivência.
"Muitas pessoas chegam imaginando que vão se identificar com um determinado tipo de gato, mas acabam criando vínculo justamente com um animal que não corresponde ao perfil que tinham em mente. Quando existe a oportunidade de conviver, observar e conhecer o gato de verdade, a escolha deixa de estar baseada apenas na aparência e passa a considerar a relação que está sendo construída", afirma.
O café mantém parceria com a organização Catland, que atua no resgate e na adoção de felinos. Segundo o estabelecimento, mais de 495 gatos foram adotados por meio da iniciativa desde dezembro de 2022.
O contato prévio não substitui os critérios normalmente adotados por organizações de proteção animal para avaliar os interessados, mas pode acrescentar uma etapa de convivência ao processo.
A experiência também permite que o futuro tutor perceba se está preparado para as características daquele animal e para as mudanças que a chegada de um gato pode provocar na rotina da casa.
A adoção responsável pressupõe um compromisso de longo prazo. Além das despesas com alimentação e atendimento veterinário, a família precisa considerar questões como adaptação do ambiente, segurança, higiene, tempo disponível e cuidados durante todas as fases da vida do animal.
Para Greice, conhecer previamente o gato pode contribuir para que essa decisão seja tomada de maneira mais consciente.
"A adoção não termina no momento em que o gato vai para casa. É ali que começa uma relação que precisa ser construída todos os dias. Por isso, quando a pessoa tem a oportunidade de conhecer aquele animal antes, entender seu jeito e perceber se existe uma conexão, ela consegue tomar uma decisão mais consciente sobre a vida que pretende compartilhar com ele", afirma.
A proposta dos espaços que promovem esse contato também ajuda a colocar em discussão um aspecto importante da guarda responsável: adotar não significa apenas escolher um animal, mas avaliar se há condições para estabelecer uma relação duradoura e oferecer os cuidados necessários ao longo dos anos.